quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Capitulo 6

Eram seis horas em ponto quando parei a mota em frente à associação. Não era de todo o meu desejo de ficar a noite inteira a andar pelas ruas distribuindo comida aos necessitados. Não que tivesse algo contra eles. Não tinha…até gosto de ver as pessoas a mostrarem solidariedade com essas pessoas mas eu? De todo era a pessoa indicada para isso. Agora já não me restava mais nada a não ser esperar que estes três meses passassem a voar para puder a ter a minha rotina de volta. 
Acabei por entrar pela porta principal e encontrei uma senhora sentada na secretaria a olhar fixamente para o amontoado de folhas que tinha na sua frente.

- buenas tardes… - assim que falei ela olhara-me.

- buenas tardes…deseja alguma coisa?

- sim, queria falar com a Doutora Carla Ortiz se fosse possível!

- mas para que efeito?

- eu sou Javier Martinez, aluno da universidade de Múrcia e estou a fazer voluntariado nesta instituição…

- ah, sim eu já me recordo…aguarde só uns minutos que vou anunciar a sua chegada! – depois de ser presenciado com a sua simpatia, acabei por me sentar num dos sofás à espera que alguém me atendesse. Não foi preciso mais do que cinco minutos para aparecer uma mulher de estatura baixa, com uns cabelos loiros encaracolados e uma pela bem branca. Acabei por me levantar ao me aperceber que se aproximava de mim.

- Hola Javier! Eu sou a Carla, a directora desta instituição. Muito prazer!

- o prazer é meu! – acabei por responder 

- a sua professora dera-me a indicação que esteve doente estes dias e que por isso não viera mas não faz mal, só hoje é que vamos começar a nossa tarefa! – doente? Não sabia que estivera doente…mas é bom saber que acreditara numa mentira que nem tinha sido eu a dizer – vamos?

- sim, vamos – acabei por a seguir e, numa visita apressada, deu-me a conhecer alguns locais daquele lugar. Depois disso, fomos até ao edifício ao lado. Ao ler a placa que estava colocada junto à porta consegui perceber que estávamos na cantina. Era um lugar bem amplo, com mesas espalhadas por todo o sitio e pude ver a cozinha e o local onde se servia as refeições. 

- aqui é a cantina, o local onde às quartas, segundas e sextas servimos as refeições. Normalmente são as pessoas que não têm possibilidade de confeccionarem as suas próprias refeições que se deslocam até aqui! Abre a partir das sete e meia e fecha por volta das nove horas.

- quer dizer que hoje iremos embora mais cedo?

- sim…hoje ficas por pouco tempo. É o tempo de arrumar as mesas, limpar o chão, ou seja, dar uma limpeza a este sitio! Mas vai-te habituando que aqui toda a gente trabalha em todo o serviço. Mas como tu só chegaste hoje irás estar a servir as refeições e depois ajudas na limpeza.

- hum…vale!

- agora, junta-te à tua colega, a Isabel que está ali ao fundo a pôr as mesas prontas! Perguntas-lhe como se faz que ela já sabe – apenas acenei com a cabeça ao mira-la ao fundo da sala a colocar os pratos de uma forma bem atenta – mais alguma coisa?

- não…

- tudo bem…então, bom trabalho! – ela acabou por sair da minha beira e eu, tal como ela mandara, fui para junto dela a fim de saber como tinha de colocar as mesas. Antes, tirei o meu casaco colocando-o no cabide. Cheguei ao pé dela e senti que nem pela minha presença acabava de dar.

- preciso que me digas como se põe as mesas – notei que ela se tinha assustado um pouco com a minha voz mas mesmo assim não se atrevera a olhar-me. Ainda fiquei a vê-la a acabar de colocar os talheres direitos para, de seguida, parasse o que estava a fazer.

- colocas três pratos de cada lado, os talheres e os guardanapos. Podes fazer daquele lado que deste eu acabo. As coisas estão em cima daquele armário – ela gesticulava sempre sem olhar para mim. No fim, virou-me costas e continuou a fazer o seu serviço. Acabei por estranhar…nem um hola cabrón? Um andate à lá mierda? Consigo dizer que era a primeira vez que falávamos sem haver uma troca acesa de palavras. Acabei por desviar-me destes pensamentos e começar a trabalhar. Sei que o tempo que se seguiu nenhum de nós trocou uma palavra. Ela evitava-me a todo o custo e uma simples aproximação fazia com que ela se afastasse de imediato ou sentisse medo. Eu sabia bem o motivo disso e que no fundo, eu tinha exagerado. Não sou homem de bater em mulheres nem muito menos de fazer o pouco que lhe fiz mas ela não tinha a noção do quanto me conseguiu tirar do serio, o quanto tinha mexido comigo. Ela nem sequer imagina o quanto a minha vida está ou aquilo que passei. De mim…ela nada sabe. 



***

Finalmente aquela primeira noite de serviço comunitário tinha acabado. Nunca pensara que ajudar os outros cansava assim tanto e que me sentiria com os meus pés totalmente escalfados. Nem mesmo estar nas corridas me fazia sentir tão roto. Estava numa das salinhas a vestir o meu casaco e, quando me viro para trás, dou de caras com alguém a aproximar-se rápido de mim. Assim que pus os olhos nela, percebi que era Isabel. Assim que se apercebera que estava mesmo na sua frente fez questão, de num pulo, contornar-me, pegar nas suas coisas e sair dali a correr. Acabei por ficar estático a olhar para a porta. Nem sabia o que pensar…aquela cena tinha sido tão bizarra que deixou-me, pelas poucas vezes, sem palavras. Metia assim tanto medo? Por momentos pensei que ela tivesse medo que voltasse a empurra-la. Ou será que tem? Acabei por abanar a cabeça e sair dali. 
Mal cheguei cá fora, caminhei até à minha moto, sentei-me nela e acabei por pegar num dos cigarros que trazia dentro da caixa. Já há muito que não fumava e naquele momento era algo que precisava. Enquanto degustava o sabor da nicotina a entranhar-se confortavelmente pelas minhas narinas, apercebi-me de algo que estava bem a escassos metros de mim. Fiquei a mira-la completamente brava a tentar ligar o carro. Acabei por dar as ultimas passas e mandar o cigarro para o chão, e olhei novamente. Agora estava fora do carro, abrindo o capô e a tentar perceber alguma coisa. Confesso que estava curioso para ver como ela conseguiria desenrascar-se naquele momento. Bem…ela já me dera uma abada no bilhar, provavelmente também teria as suas habilidades na mecânica. Estava a colocar o capacete quando fui me apercebendo que ela não estava a dar conta do recado. Voltei a colocar o capacete no sitio, liguei a mota e dirigi-me até junto dela. 

- precisas de ajuda? – notei que ela fazia questão de me ignorar. Via-a entrar no carro e tentar ligar o carro mas sem sucesso. Acabei por descer da mota e juntei-me perto do carro a tentar ver o que poderia estar mal. Não precisei mais do escassos segundos para a ter ao meu lado.

- o que é que estás aqui a fazer?! – gritou-me

- é sempre bom voltar a ouvir a tua voz! – gracejei enquanto verificava o medidor do óleo.

- sai daqui! 

- o teu carro não pega, não estás a dar conta do recado…acho que não é hora de me mandares embora.

- não quero a tua ajuda – depois de verificar que os níveis de óleo do carro estavam bons e mesmo da agua, voltei a olha-la.

- provavelmente bateria do teu carro foi abaixo… - ela não me deixara acabar interpondo a sua voz muito mais acima da minha.

- SAI! – Voltou a gritar-me – não quero a porra da tua ajuda, afasta-te de mim!!! 

- Hei, só te quero ajudar, não vou propriamente roubar-te o carro ou o quer que seja!

- De ti não duvido de nada. Para quem me manda contra a parede é capaz de fazer tudo e mais alguma coisa! – Atirou-me à cara mostrando a sua face de quem estava completamente enraivecida pelo que fizera. Eu sabia que tinha trespassado os meus limites em fazer o que fiz, sabia bem disso…mas também não iria demonstrar isso mesmo. Jamais o faria. A mim ela não era nada, não passava de uma miúda mimada, egocêntrica, que achava que conseguia dominar tudo à sua volta com aquele feitio de durona. Portanto, não lhe iria pedir desculpas. Não tinha essa obrigação.

- se tu não me tivesses provocado nada disso teria acontecido!

- agora a culpa é minha?!

- tu provocas, admite! Tu gostas de testar o limite das outras pessoas, deves pensar que todos têm a mesma paciência para levar contigo! 

- tu é que começaste! 

- mas foste tu que viraste café a escaldar em cima de mim, se estamos aqui é por culpa toda e exclusiva tua! Porque achas que tudo tem de ser feito à tua maneira – agora estávamos de frente um para o outro – tens essa mania insuportável de nariz empinado, aquela que chega e pensa que o mundo é todo dela, que estala os dedos e tem tudo ao seu dispor mas tu não passas de uma egocêntrica, mimada, de uma otária! – dito isto eu só consigo sentir a sua mão a bater fortemente sobre a minha face. Sentia-a arder mas isso só me acabara de me deixar ainda mais furioso – isso bate! Vá lá, bate à vontade! Faz-te de forte! Faz-te daquilo que não és! – sentia-a a tremer completamente. Já nem conseguia distinguir se era de raiva ou de medo. Se as minhas palavras estavam a surtir efeito em si ou simplesmente se controlava para não partir para cima de mim.

- és um nojo! Não passas mesmo de um fraco, de uma peste! Sabes o que te desejo? Que sofras bem! Digo e volto a repetir, tu és uma merda, não vales nada! A melhor parte do meu dia é quando me relembro que daqui a uns meses estarei bem longe daqui e nunca mais na minha vida terei de olhar para a tua cara! – ela gritava-me completamente descontrolada. 

- ainda bem. Tu és só mais uma que passa na minha e que infelizmente não consigo tirar-te do meu caminho! – falei com todo o meu desprezo. Não poupei nem um pouco no escarnio com que lhe falava. 

- te odio, coño! 

- ainda bem que o sentimento é reciproco – dito isto virei-lhe costas, sentando-me na mota e sair dali a grande velocidade. Deixei-a sozinha e pouco me importei com isso. Aliás o meu maior erro foi querer ser piedoso e tentar ajudar uma pessoa que de nada merecia o meu esforço. Lembrei-me que, da ultima vez que tentei mostrar a minha compaixão, também me haveria arrependido. com isto só chego a uma única conclusão. Não vale a pena ser algo que no fundo não somos e nem o queremos ser, ou então tentarmos sê-lo com as pessoas certas. E sabia que ela não era a pessoa certa. Pessoas que queiram chamar a atenção não me atraem minimamente e sabia bem o quanto ela gostava de o fazer. Aliás, já me teriam dado esse aviso. Acabei por sorrir… não deixava de ser um pouco irónico estes nossos encontros e deparar-me com uma pessoa que incrivelmente se cruzava constantemente no meu caminho.



***

Novamente, não sei como consegui chegar a casa inteira. Sentia o meu corpo a tremer completamente…como eu o odiava! Coño, que cabrón! Ele tinha uma capacidade tremenda de me tirar do sério e levar-me aos infinitos e à vontade de querer cometar alguma loucura. Assim que cheguei ao meu quarto, bati a porta e depressa fui ao quarto de banho, ligar o chuveiro e enfiar-me lá dentro com a agua a escaldar. Precisava de esquecer estes momentos, de o tentar esquecer…do quanto ele conseguia de uma certa forma revolucionar a minha vida da pior forma. Como era possível uma pessoa ser assim? tão medonha…ele conseguia ser mau. Olhava naquele olhar o profundo vazio que se instaurava. Seria sempre assim? com pessoas tão boas a sofrer, porque não sofria ele? Merecia-o. De todo! Merecia sofrer! Que odío, que asco…acabava mesmo por odiar a mim mesma por perder-me em pensamentos por causa de uma pessoa que odiava profundamente. Acabei por sair da casa da banho enrolada no meu roupão. Assim que entrei no quarto deparei-me com a minha avó sentada na cama.

- hola abuela…

- estás melhor?

- eu? Sim…estou – estava um pouco confusa – mas porque me pergunta isso?

- já é a segunda noite em que chegas a casa completamente desnorteada e que mal paras na sala e enfias-te aqui dentro. Tenho motivos para ficar alarmada…estou certa? – perguntou-me sabiamente. Acabei por suspirar e sentar-me do seu lado.

- avó…é possível existir pessoas tão más? Que só sabem ver o mal nas outras pessoas ou simplesmente…você olha nelas e não consegue ver nenhum bem?

- com assim querida?

- o que é que torna as pessoas violentas? 

- Isabel…muita coisa pode tornar as pessoas assim. ninguém nasce violento ou com vontade de fazer mal. Normalmente se assim se tornam é porque algo nas vidas deles o obrigaram a ser. Porque algo foi incutido nessas pessoas que os fizeram ser assim…mas o que se passa? Alguém fez-te mal? – perguntou-me de imediato, com o seu olhar preocupado.

- não…quer dizer… - acabei por respirar fundo – mais ou menos.

- o que é que se passa contigo?

- oh avó…nem eu sei explicar! Ele…desde que ele se cruzou comigo que parece que tudo me acontece de errado. Eu não queria estar a sofrer de um castigo quando eu não sou assim…você sabe! Mas ele provoca-me, tira-me tanto do sério!

- estás a falar do rapaz que te envolveste?

- oh avó não fale nesses termos! – disse exaltada – jamais me envolveria com um asco como ele… - ela sorriu 

- sim, o Javi…é dele que estás a falar?

- sim, é dele. 

- acha-o violento?

- boa pessoa ele não é! – acabei por ripostar – ele tem atitudes reprovadoras, estupidas, mesquinhas! Ele é mau, avó! Nem imagina o quanto ele consegue ser manipulador, estupido, um verdadeiro…asco! Não gosto nada dele! Mas o pior é que inevitavelmente ele não para de se cruzar no meu caminho. E sempre que nos cruzamos é inevitável não haver faísca! – o olhar da minha avó era um pouco indecifrável. Olhava-me atentamente quase à procura de tentar analisar bem o que acabara de dizer. Acabou por abanar a cabeça enquanto me olhava com aquele seu sorriso tão característico e que acabava sempre por lhe dar um ar tão jovial. 

- o Javi não é má pessoa… - acabou por dizer, deixando-me estupefacta. Mas será que até a minha avó não conseguia dar-me razão? Era inacreditável! – não creio que ele seja mau como tu dizes. Não, ele não é…

- até você?! Até você acha que ele é boa pessoa?! – acabei por levantar – como é que todos vocês são capazes de dizer uma coisa dessas quando eu vejo o contrario? Serei a única a ver a verdade?! Joder, Avó ele não é boa pessoa! Não é. Vocês dizem isso porque não sabem tudo aquilo que já passei com ele!

- Isabel, senta-te – pediu sem perder o seu tom de voz calmo – anda lá…senta-te aqui, ao pé de mim – acabei por acarretar à sua ordem mesmo sem conseguir entender o porquê de a minha avó estar a dizer aquilo.

- você está tão enganada…

- ou então tu é que estás! Querida…eu sei bem quem é esse rapaz. Conheço-o desde que nascera e à família dele também. Acredita, ele não é essa pessoa toda que dizes. 

- então eu é que estou a inventar coisas é? – disse irritada – ele é a santa pessoa eu é que sou a má da fita!

- Isabel, não fales assim! – tentou chamar-me à razão – eu não quero dizer que ele é uma pessoa com as atitudes mais compreensíveis, não é isso, e muito menos que tu és a má da fita. Eu conheço-te e sei ver bem que tipo de pessoa és. Só que estás aqui há dias, é normal que aches isso tudo dele. Cariño…ele já passou por muito, teve a sua dose de sofrimento e acho que possas estar a julga-lo da forma errada. Porque é que não tentas dar uma oportunidade de tentar conhecer um outro lado dele?

- isso é impossível! Completamente impossível! Lá porque ele sofreu, isso não lhe dá o direito de ser uma pessoa mesquinha. Não preciso de conhecer lado nenhum dele porque já vi o suficiente. Muito sinceramente, prefiro não saber mais nada dele! Eu não entendo….juro que não. É você, a Adriana e a própria Marisol que não param de o defender! Começo a ficar um pouco cansada quando nem as pessoas que mais gosto sabem compreender o meu lado. A Marisol…não me espanta mas agora você e a Adriana…chega. Isto é demais para mim! – acabei por me levantar e entrar novamente na casa de banho. Sentia-me chateada. Eu queria vir para Múrcia para puder mudar de ares, estar ao lado de quem mais gosto, puder usufruir de bons momentos mas está a acontecer tudo ao contrario. Nem a compreensão da minha avó consigo ter. porquê? Porque é que toda a gente o defende? No final, fico sempre vista como aquela rapariga incompreensível…que odio! 

***

Acabei por acordar um pouco cansada. Mais do que me havia deitado. Já para não falar na dor que sentia no meu ombro e que estava mais forte. Tudo graças aquele asco…respirei fundo. Ter estes pensamentos logo pela manhã deixa-me tremendamente maldisposta. Acabei por vestir umas calças de ganga escuras, a minha camisa preta e por fim o meu casaco de cabedal preto. Estiquei um pouco os meus cabelos e por fim, desci até à sala de jantar para tomar o pequeno-almoço. Estavam todos na mesa e reparei que tinha sido a ultima a descer.

- buenos dias…

- buenos dias Isabel! – sentei-me no meu lugar habitual e olhei para a mesa. Nada do que ali estava me convencia e confesso que sentia pouca fome. Decidi-me pelo café amargo e umas torradas secas.

- só vais comer isso? – perguntava o meu avô

- sim…acordei sem fome nenhuma.

- fico impressionado com os hábitos que herdaste da tua avó e logo os piores! – acabei por sorrir perante a forma irónica com a qual ele falava. Olhei de relance para a minha avó e ela olhava-o de soslaio.

- é sempre bom saber que passado mais de cinquenta anos ainda consigas encontrar defeitos em mim! – pigarreou a minha avó. Ele sorria para ela de um jeito amável, sem nunca perder aquele brilho no olhar.

- pois bem, passei mais de cinquenta anos a incutir em ti o habito de tomar o pequeno-almoço algo que tu fazias sempre questão de evitar. Agora tenho a minha neta a seguir as tuas pisadas!

- voçe fazia isso à avó porque é a sua esposa a mim não precisa de fazer… - refutei a meu favor

- espero que quando arranjares um marido ele também faça o mesmo!

- vale…eu prefiro então que seja você a cuidar de mim! – respondi com um sorriso ternurento no meu rosto. Eu adorava quando ele cuidava de mim. Aquela figura paterna impunha um respeito soberbo já para não falar no carinho que me transpunha em cada palavra que me dizia. Eu amava o meu avô como se de um pai tratasse. Ele sabia bem como cuidar de mim…como me acarinhar ou até quando eu não estava bem, já sabia o que dizer. Adorava quando ficávamos horas e horas em frente à lareira e contava-me a sua história com a avó. fascina-me o amor deles…tão intenso, insano, tão arrebatador. E passado cinquenta anos eles conseguem amarem-se da mesma forma ou até mais. Conseguia ver isso pelo olhar que eles transpunham. Às vezes dava comigo a pensar se era possível amar da mesma forma como os meus avós se amam. Se um dia encontrarei alguém que consiga dar-me um pouco de amor que o meu avô lhe dava, se conseguirei amar sem sofrer. Eu sei que toda a gente sofre por amor e mesmo eles sofreram imenso para conseguirem ficar juntos mas eu não quero isso. Tenho pavor a sofrer uma desilusão de amor…não me sinto preparada. Nestes anos eu deixei de acreditar na possibilidade de ter o meu coração preenchido, sentir as ditas borboletas no estomago sempre que o via ou me beijava, perdi as esperanças de ter alguém do meu lado a desejar-me os bons dias, preparar-se surpresas ou simplesmente a dizer que eu conseguia ser a rapariga mais linda deste mundo mesmo que tivesse de mau humor ou acabasse de acordar. Simplesmente…tenho medo de me apaixonar e por isso é que me tornei na pessoa fria e racional que sou. Sinto-me incapaz de imaginar na construção de uma família, casar e passar anos junto de um homem. Como poderei pensar nisso se posso sofrer uma desilusão? Quem me garante que terei um amor eterno? Não me quero divorciar. Não quero ser traída e muito menos trair. Eu…só quero que me amem sinceramente e com todo o coração. Quero…mas ao mesmo tempo não quero. 

- Isabel? – Acordei destes pensamentos com a voz da minha avó. Olhei-a e reparei no seu olhar que incidia sobre mim.

- o quê avó?

- o Juan veio perguntar se queres boleia para a universidade…o teu carro avariou novamente?

- ah, sim se não se importar eu queria boleia. Ontem fiquei sem bateria no carro mas ela vai voltar a falhar. Tenho de levar para o mecânico.

- novamente? O que se anda a passar com esse carro? Já é a segunda vez que vai ser arranjado!

- alguém deve ter rogado uma praga, só pode…bem, me voy! Hasta! – acabei por me despedir dos meus avós e tios e, juntamente com os meus primos, fomos para o carro do Juan que nos levaria às aulas. Depois de deixarmos o Enrique no colégio, eu e o Francisco fomos para a faculdade. Ele era dois anos mais velho do que eu e apesar de jogar no clube de Múrcia e por vezes ser chamado à selecção, nunca prescindia dos estudos. Acabei por me despedir dele e entrar para o meu departamento. Previsivelmente, já estava atrasada para as aulas, o que não era de estranhar. O facto de a quinta ser um pouco deslocada do centro da cidade acabava sempre por ser chato. Ou atrasava-me para as aulas ou chegava a casa tardíssimo. Assim que abri a porta da sala reparei que a aula já tinha começado e todos os olhares ficaram centrados em mim. Apressei-me a sentar na mesa junto à Adriana, abri os livros e, enquanto tentava abri-los sem fazer muito barulho – tarefa essa totalmente complicada – um dos meus cadernos de farmacologia tinha caído ao chão. Preparava-me para apanha-lo mas senti uma dor nas costas que me obrigou a retrair-me.

- o que foi? – perguntou Adriana 

- é o meu ombro…acho que acabei de dar outro jeito… - respondi desolada e com algumas dores.

- chegaste a ver isso? colocaste gelo ou tomaste um anti-inflamatório?

- sim, fiz isso tudo! Mas agora que me baixei dei um jeito e sinto-me pior… aquele maldito cabrón…

- mete cabrón nisso. Ele foi um grandessíssimo otário! – olhei para ela. Confesso que estava admirada pela sua reacção um pouco surpresa para o meu gosto. Adriana tinha sempre aquela réstia de esperança de me fazer ver que ele seria uma boa pessoa e que eu é que via as coisas de um modo exagerado – o que foi?

- nada…mas tu gostas sempre de o defender. Apenas estou admirada…

- ele exagerou, não deveria ter-te feito isso! 

- mas ele ainda vai levar o troco…

- oh Isabel! 

- o que foi?

- tu gostas de brincar com o fogo…depois não te venhas queixar que te queimaste – acabei por encolher os ombros e seguir o meu olhar centrando-o sobre a professora que falava atentamente a matéria. Acabamos por passar as restantes três horas dentro daquela sala mesmo que a vontade não fosse muita e o espírito de fazer muitas outras coisas estivessem a sobrepor-se nas nossas cabeças.

***

Finalmente, a aula tinha terminado. Sentia-me exausta só de estar sentada a ouvir a professora. A matéria era chata, não gostava daquilo e sentia falta de esticar as minhas pernas. Eu e a Isabel tínhamos sido das ultimas a sair da sala, estávamos a sair da porta quando a Bela me chama.

- olha quem está ali… - acabei por olhar na sua direcção pela qual apontava e encontrei o Eduardo encostado nos cacifos. Assim que me olhou, desencostou-se, caminhando na minha direcção. Tentei ignorar.

- E? vamos para aquele lado, não me quero cruzar com ele.

- ui, o que é que se passou entre vocês? Ele deixou de ser fofo, foi? – inquiriu sempre sem deixar o seu sarcasmo de lado. Às vezes questionava o porquê de ela não ser uma pessoa normal. Nunca sabia até que ponto ela conseguia ser sincera ou sarcástica. Mas quando usava as duas coisas ao mesmo tempo era terrível. Apesar disso, eu gosto imenso dela. é como uma irmã para mim e nem imagino a minha vida sem ela.

- espera Adriana! – ouvi-o a chamar-me. Tentei ignora-lo ao conversar sobre o nada, com a Bela. Não demorou muito para que ele, com cuidado, pegasse no meu braço – por favor, espera! – acabei por olha-lo.

- precisas de alguma coisa?

- quero falar contigo. Por favor!

- agora não dá. Estou ocupada.

- por favor, eu não demoro mais do que cinco minutos…por favor Adriana deixa falar contigo! – ele implorava-me. Sei que estava chateada com ele mas aquele olhar estava a aniquilar a minha vontade de não falar com ele. Porra, porque é que as coisas tinham sempre de ser complicadas? Porque é que ele não respeitava o que havia pedido? Assim ele não estava ali, a implorar para falar comigo, não me colocaria na situação de me ver irresistivelmente forçada a aceitar o seu pedido. 

- tens cinco minutos.



- gracias! – disse com um enorme sorriso naquele rosto. Porra, novamente aquele sorriso…

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Capitulo 5

O trânsito desta cidade é sempre um desafio para a minha sanidade. Um facto sobre mim é mesmo detestar a espera que cada um tem de suportar, no meio do engarrafamento, com este calor insuportável, já para não falar do tempo que perdemos. É em alturas como estas que ter uma mota torna tudo mais pratica. É pequena, rápida e pode espreitar cada frincha de modo a escapar às filas infernais que se formava naquela avenida. Eram quase cinco horas da tarde quando parei a mota em frente ao colégio. Ainda faltava cerca de dez minutos para o toque de saída e enquanto isso, fiquei a mirar a fachada daquele lugar. Continuava tudo igual, desde a fachada amarela que já não era pintada desde os meus tempos de liceu, o que já vai uns longos anos, ao portão esverdeado, o terraço onde se costuma jogar à bola sem falar que o porteiro ainda era o mesmo. Chegava a ter pena do senhor Iker que com os seus quase sessenta anos ainda conseguia, sabiamente, ter paciência para aturar tantas crianças juntas. 
Finalmente o toque se fazia soar. Não demorou mais do que dois segundos para a porta principal ser aberta e um amontoado de crianças, loucas, histéricas, aos empurrões, aos saltos, saíssem todos dali. De facto, a escola tornava-se num aborrecimento ao qual todos os alunos viviam ansiosamente o momento de regressarem as suas casas. Por ultimo, ali estava ela. Caminhava devagar com a mochila rosa aos ombros, os óculos castanhos a valorizarem aquele rosto branco e meigo. Hoje, trazia uma fita amarela a prender a trança comprida. Sabia que não tinha sido a minha mãe a escolher aquela roupa e muito menos a cor da fita a condizer com o uniforme. Por assim dizer, a Dona Roberta jamais perderia do seu tempo já imensamente curto para condizer as cores da roupa da sua filha mais nova. Todo o seu pouco tempo era conduzido para o local de trabalho que achara um verdadeiro inferno. Assim que chegara ao portão fiz questão de assobiar. Ela olhara-me e um sorriso aparecera no seu rosto. Correu apressadamente e alcancei-a, abraçando-a fortemente.

- javi, vieste!! 

- pois vim muñeca! 

- tinha saudades tuas mano! Ainda bem que me viste buscar à escola!

- já viste a sorte que tens? Hoje vais de mota para casa e tudo!

- vou? Eu vou de mota para casa? – ela mostrara-se surpreendida – mas os pais proibiram-me de andar de mota contigo…

- hei, estás a ver os pais aqui? Eu não! Anda…salta! – ajudei a Melissa a subir para a moto e coloquei a sua mochila no porta-bagagens. Sentei-me o assento depois de me certificar que ela tinha o capacete bem colocado. Depois disso, liguei a mota saindo daquele lugar. Sentia a minha irmã a retrair-se completamente e não consegui deixar de sorrir perante o medo que ela tinha de andar de mota. Apertava-se fortemente ao meu tronco e quase que arrancava a t-shirt fora perante a força que exercia. Acabei por parar a mota em frente a uma pastelaria que já conhecíamos bastante.

- porque paraste aqui?

- vamos lanchar…não queres?

- claro que quero! – respondeu com um sorriso a iluminar-lhe o rosto – posso comer aqueles croissants com recheio de creme?

- podes comer o que tu quiseres! – assim que entramos dentro da pastelaria sentamo-nos numa das mesas junto à janela. Não demorou muito para o empregado chegar ao pé de nós e fazer os pedidos.

- como é que vai a escola?

- vai bem…é uma seca! 

- mas não gostas de estudar no colégio?

- oh….gosto – respondeu não parecendo muito satisfeita com o que dizia.

- gostas mas…? – ela olhava-me.

- mas não gosto de certas pessoas de lá! Gostam todas de se mostrar…

- tu és melhor do que elas todas! – A forma como acabara de falar fê-la gargalhar 

- mas e tu? Como anda a universidade? Quando é que te tornas fisioterapeuta?

- isso ainda demora um bocado! Mais dois anos e já acabo de estudar…

- uau, não vejo a hora de estar na universidade!! 

- não tenhas pressas nisso Melissa! Mas…e de resto? Como é que anda o ambiente em casa?

- é preciso responder? Tu é que tens sorte…vives sozinho, não tens de aturar os pais, fazes o que queres… - acabou por desabafar mostrando-se desiludida.

- mas sabes, não é fácil viver sozinho…também tem os seus inconvenientes.

- não vejo a hora de fazer dezoito anos e ir para uma universidade longe daqui! 

- terás o teu tempo muñeca! Mas o que dizes de passar uns dias em minha casa?

- e posso? Isso seria altamente!! – sorri – adorava mesmo passar uns dias contigo, só que os pais não me vão deixar!

- deixa os pais comigo que resolvo isso…o importante é que queiras-me aturar!

- boa! Já tenho saudades tuas Javi. Aquela casa sem ti já não é o mesmo… - acabei por sentir um ponta de revolta dentro de mim. A melissa é a única pessoa naquela família que me importo neste momento. É a minha irmã e sei o quanto ela precisa de carinho e o quanto os meus pais têm falhado nisso. Tento sempre que posso, estar com ela mas acaba por não ser fácil. Raramente coloco os pés na minha antiga casa, desde que aquele em que um dia apelidei de pai, me expulsou, pouco tempo passei ali. A minha mãe acabava sempre por ser um pouco submissa das ideias dele. Parecia que tinha medo de o enfrentar…no fundo, a minha vida acaba por ser uma merda quando apenas uma criança de doze anos é a única que sempre acreditou na minha inocência, sobre aquela noite do acidente. Parece irreal mas é verdade. 



Estacionei a mota em frente àquele casarão. Já se fazia um pouco tarde mas ela estava comigo, no fundo não haveria problema nisso. Ajudei a Melissa a descer da mota, peguei na sua mochila e toquei à campainha. Em questões de segundos a figura da minha mãe apareceu junto à porta. Por aquele olhar, sabia que coisa boa não iria dizer.

- já vou ficar de castigo… - notei o receio na voz da minha irmã por ter chegado a casa tarde.

- não te preocupes que não ficas nada!

- posso saber porque é que a tua irmã está a chegar a estas horas? – perguntou-me com a sua voz carregada de preocupação.

- hei, calma mãe. Fui busca-la à escola e fomos lanchar…ou já não tenho o direito de estar com a minha irmã? - ela respirou fundo.

- entrem! Os dois! – ela reforçou bem a parte onde também eu iria entrar – tenho uma conversa para ter contigo!

- eu não entro nessa casa…

- por favor Javier! Entra! – ordenou. Acabei por acarretar a sua ordem entrando naquela casa. Pude reparar no silencio que ali imperava – Melissa vai para o teu quarto! – acabei por piscar-lhe o olho e ela correu para os meus braços. Dei-lhe um beijo no seu rosto acabando por me despedir dela.

- posso saber o que quer comigo? 

- isto! – ela pega num papel atirando-me contra o peito - andas metidos em sarilhos novamente Javier? – ela berrava-me. Sarilhos? Que sarilhos?

- que sarilhos? O que é isto? – olhei para o papel e reparei que tinha o meu nome e inclusive a minha morada. No final tinha escrito um preço qualquer.

- tu não me mintas! Chega, tu prometeste que não irias andar metido em sarilhos Javier!

- e não ando! Eu juro que não sei o que é isto!!

- então explica-me porque tenho um homem, com uma aparência indesejável, a bater-me à porta e a pedir que tu pagues os prejuízos que fizeste?! Andaste a vandalizar carros Javi?

- o quê? – eu cada vez mais ficava sem perceber o que ouvia da minha mãe.

- tu não me mintas! – ela estava cada vez mais furiosa comigo – houve uma rapariga que foi arranjar o carro que tu estragaste! E agora mandou-te pagar os prejuízos!! Por esse preço, tu deves ter dado cabo do carro da rapariga!! – foi preciso uns segundos, a olhar para a minha mãe, para fazer um clique em mim. Carro, prejuízo, rapariga…claro! Aquela perra, só podia ser ela! Como é que ela teve a ousadia de fazer uma coisa destas? 

- ai ela vai-me pagar caro por isto! Ai vai, vai! - Praguejei em voz alta para maior desespero da minha mãe.

- o que é que tu vais fazer?! – não lhe respondi. Acabei por sair dali num passo rompante, subi para a mota carregando bem no pedal. Ela não me conhecia, de facto não. Quer guerra comigo? Então que se prepare…porque sou um osso bem duro de roer.

***


Ontem tinha sido o meu primeiro dia de voluntariado e tinha gostado bastante. Ficamos a conhecer uma percepção da realidade que desconhecíamos de todo mas o sentimento de gratidão, esse, é enorme. O único incomodo, não para mim de todo, foi o facto de aquele encosto não ter aparecido, novamente. Por um lado, adorava isso, não o ter por perto tornava-se um paraíso. Mas sei também que ele não tinha sido liberado o que acabava por ser bem claro a sua fuga ao “castigo”.

Tinha saído de casa e acabei por passar pelo apartamento da Adriana e dos rapazes pois tinha combinado dar-lhes boleia para a faculdade. Estava a chover e já se começava a notar o outono a querer impor-se com força. Apesar de ainda se sentir uma temperatura amena, a chuva acabava por ser forte, como em típicos dias invernosos. Estacionei o carro e não demorou muito para irmos à primeira aula. Estranhamente, tinha gostado. Acordei bem-disposta, tinha ficado bem interessada na matéria e sentia o meu dia a correr bem…

- podíamos ir até à sala do aluno, que dizes? Aproveitar que até está vazia…

- sim, é uma boa ideia! Vê se os rapazes já saíram da aula e manda-os vir ter cá – acabei por me sentar numa das mesas a pronto de colocar os meus resumos em dia começando por separar a matéria.

- eles já saíram. Dentro de minutos estão cá! – sei que o que acabara de acontecer, foi tudo em fracção de segundos. Tão depressa estava a olhar para a Adriana como a seguir, sinto alguém a dar um murro estrondoso na minha mesa. Acabei por soltar um grito perante o susto que ganhara. Olhei na minha frente e encontrei-o furioso. Acabou por bater novamente sobre a mesa mas desta vez com um papel junto.

- que seja a puta da ultima vez que tu me faças isso estás a ouvir? – ameaçou-me ao mesmo tempo que berrava aos meus ouvidos. Acabei por me levantar ficando frente a frente com ele.

- estás louco ou quê?! – gritei-lhe também.

- eu é que estou louco? Eu? – ele acabou me amarrar o meu braço de um jeito violento e que me estava a magoar – tu queres o quê afinal?! mandares para minha casa uma conta para pagar?! Pensas que eu suporto as tuas birras é?! 

- ai é disso que estás a falar?! Espero bem que tenhas pago cabrón! Pensas que o mundo gira à tua volta é? Desculpa desiludir-te mas não roda! 

- achas mesmo que paguei? – cada vez mais ele apertava-me com imensa força e agora amarrava-me pelos dois braços – aqui é que pago!!! – não sei se o fizera de propósito, não sei…só sei que dei por mim a ser abalroada contra a parede. Acabei por gritar perante o susto. O que é que tinha acabado de acontecer? Aquele cabrón de mierda tinha-me magoado. Odiava-o! Profundamente, eu odiava-o! E não demorou muito para ter os rapazes de volta dele a empurra-lo longe de mim. Senti os braços da Adriana de perto de mim mas não conseguia mover um único musculo.

- estás louco Javi?! – berrava-lhe Eduardo. Ele olhava-me fixamente. E neste momento o olhar dele provocava-me nojo…tanto nojo! Ele acabara por desaparecer dali a correr mas eu não fiquei por ali. Corri também atrás dele mesmo tendo toda a gente a impedir-me de avançar. Não, ali eu não poderia ficar. Não quando ele acabara de me magoar e eu sentia uma repulsa e vontade de partir para cima dele. Assim que consegui alcança-lo junto à escadaria, fiz questão de o empurrar violentamente.

- és mesmo uma merda sabes? – gritei-lhe – metes-me nojo, és violento, és mau, és tudo aquilo que as pessoas dizem de ti!! Como é que és capaz de ser assim? Não tens pena das outras pessoas? Não sentes piedade? Compaixão? A violência para ti resume-se a tudo mas enganas-te! E nem sei como consegues ter amigos que te suportam, ou eles são bem ceguinhos ou então são mesmo da tua laia!! – não sei como tive coragem de virar-lhe costas não sem lhe espetar uma enorme bofetada. Corri novamente as escadas mas conseguia sentir os meus braços e um pouco das costas doridas. Estava danada! Aquele nojo provocava em mim uma repulsa tão grande que acabava por dizer ou fazer aquilo que não queria. 

- estás bem? – perguntava-me Adriana assim que voltei novamente para a sala de aluno. Não lhe respondi. Apenas arrumei as minhas coisas e saí dali o mais rápido possível. E ainda penso como consegui chegar a casa inteira sem me esbarrar. Não parei um segundo, corri para o meu quarto acabando por bater forte a porta e dei por mim a escorregar pela parede parando no chão. 



***

- mas tu passaste-te da cabeça, foi?! – não foi preciso muito para ter o Eduardo a berrar-me aos ouvidos – tu bateste nela!!

- eu não bati nela! – gritei-lhe

- mandaste-a contra a parede! vai dar ao mesmo! 

- ela teve a lata de me mandar a conta para a casa dos meus pais! Mas isto é assim?! Ela faz as coisas do modo que lhe apetece?!

- isso não é justificação para o que fizeste! Passastes dos limites!

- eu sei! – gritei-lhe já farto de o ter a censurar-me – eu sei que exagerei, tá? Agora pára de me atirar com essas coisas à cara!

- só acho que passaste um pouco dos limites. Tu não eras assim Javi…não eras! Não é esse o meu amigo de infância, o meu irmão que conheço e às vezes tenho pena do que te possa vir a acontecer! – Não lhe disse nada. Fiquei em silêncio e só consegui ouvir o bater da porta. Era suposto pensar em alguma coisa? Em sentir-me com remorsos? Achar-me a maior besta de sempre? 

Tu não eras assim Javi…não eras!

Não…eu não era assim. conseguia ser uma pessoa normal e que até passava bem despercebido. Conseguia ser calmo e não era adepto da violência. Não era nada disso até eu ter perdido uma das pessoas mais importantes da minha vida e acharem que o culpado disso era eu. Quando no fundo, eu sabia bem quem causara a morte dele…

***



- e que não tenha de voltar a avisa-lo! Desta vez eu deixo passar mas não pode faltar mais nenhum dia. Está de castigo e terá de o cumprir!

- sim, professora…não voltará a acontecer – garanti sem estar minimamente interessado em ouvir o seu raspanete. Tudo me passava ao lado.

- acho que é suficientemente crescido para assumir as suas responsabilidades, não é? Acho que não preciso de convocar os seus pais para uma reunião extraordinária – senti-me a retrair no momento em que referiu os meus pais. De todo, eu queria que eles voltassem a esta escola. Não queria ouvir mais da boca deles que a cada dia que passava eu era a maior desilusão da vida deles…

- já disse professora, não será preciso fazer isso! Logo à noite eu irei sem falta à associação.

- muito bem, gosto de ver essa atitude! E que aprenda alguma coisa, era muito bom para si! – notei a sua ponta de ironia. Depois de me lançar o seu típico e detestável sorriso forçado, despedi-me dela e saí a correr daquela sala. Estava farto de estar ali, de ouvir aquela gente a gritar, sorrir, correr, falar…neste momento tudo me irritava. Hoje tinha a tarde toda de aulas, acabei por entrar na sala e surpreendentemente não fui dos últimos a chegar. Vi o Eduardo sentado na sua habitual secretaria mas preferi sentar-me na última da fila. Assim que pousei os cadernos, a professora acabava de chegar. Não sei porquê mas naquele momento havia algo que persistia na minha mente. Algo que não saía da minha cabeça desde ontem. O momento em que empurrei a Isabel. E, só esse facto, já me estava a deixar suficientemente incomodado com isso.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Capitulo 4



Senti uma luz a bater na minha cara. Era algo forte e que me estava a fazer arder os meus olhos ainda fechados. Consegui também notar uma pequena brisa junto de mim e percebi que alguém estava por perto. Uma mistura de vozes assombrava a minha cabeça que ainda persistia em dormir mais um bocado. Sentia-me extremamente cansada. 

- Isabel? – alguém gritou aos meus ouvidos – despacha-te! Estamos atrasadas para as aulas! – consegui distinguir a voz da Adriana a assolar ali bem perto. Tentei abrir os olhos e deparei-me com uma brusquidão enorme ao me aperceber que a luz estava acesa. Ergui um pouco a cabeça e reparei que estava a dormir num quarto que não era meu. 

- que horas são? – acabei por perguntar a Adriana que mais uma vez tinha parado no quarto. Agora estava a calçar as suas sapatilhas.

- faltam dez minutos para as nove! Temos aula daqui a meia hora e um autocarro para apanhar!

- hei, calma. Tenho o meu carro…

- mas despacha-te! É aula de patologia e não podemos levar falta! – acabei por me levantar e reparei que não tinha uma muda de roupa. Acabei por passar a noite aqui, visto que já estava tarde para regressar à quinta. E, por falar em quinta, reparei que nem os meus avós eu avisado, que não dormiria em casa. 

- Adriana, posso vestir uma roupa tua?

- estás à vontade! Menos o meu vestido azul!

- por alma de quem é que usaria um vestido? – perguntei para mim mesma. Abri a porta do armário e em segundos, já tinha a roupa escolhida. Tentei dar um ar composto ao meu cabelo e mesmo à minha cara que estava particularmente horrível. 

- não levas nada para comer pelo caminho? – perguntava-me Adriana ao ver que não levava nada para tomar o pequeno-almoço.

- não tenho fome! Depois como qualquer coisa… - saímos de casa a correr, entrando no carro e a acelerar para chegarmos à faculdade a tempo de não chegarmos atrasadas. Acabamos por ter uma pontinha de sorte ao apercebermos que a professora estava atrasada, deu tempo para pegar num café e bebe-lo à pressa antes de a aula começar.

***


- quer massa ou arroz com carne? – estávamos na cantina. Era a hora do almoço e naquele momento toda aquela sala estava repleta de alunos que pareciam esfomeados depois de horas enfiadas dentro de uma sala de aula. Uns tentavam, à socapa, meterem-se no meio da fila ou outros desistiam ao se aperceber do tamanho que estava tinha. Por sorte, tínhamos saído mais cedo da aula e conseguido um bom lugar.

- massa por favor – depois de pegar no meu prato, tanto eu como Adriana encaminhamo-nos para a mesa. Ela sentara-se na minha frente e começamos a comer. Só de sentir aquela massa a assentar no meu estomago, senti de imediato uma colora a invadir-me.

- o que foi Bela?

- ainda mal comi e já senti a massa a deixar-me maldisposta.

- também, queres o quê? Não tomaste o pequeno-almoço e só tinhas um café no estômago! Normal que fiques maldisposta.

- tu sabes que como pouco de manhã – naquele instante ergui o meu olhar e, sem saber como, foi parar na presença de alguém que acabara de chegar. O meu olhar prendeu-se sobre o dele, olhando-o com repulsa. Ainda me lembrava bastante da noite passada. O jogo, as suas insinuações, a presunção, arrogância, o risco no meu carro. A minha ira a ser descarregada nele. Apercebi-me que acabou por dar meia volta e sair dali novamente. Dei graças por isso mesmo.

- não achas que exageraste um pouco, ontem? – perguntava Adriana ao se aperceber que o meu olhar incidia sobre o dele.

- exagerar em quê?

- oh Bela…confessa que foste um bocado má. Tudo bem que ele provocou mas não merecia ouvir aquelas tuas ultimas palavras!

- não me arrependo de ter dito nada e se fosse preciso, voltava a repetir! E sabes que mais? Preciso de um favor teu.

- meu?

- sim, teu! Já vi que agora andas muito amiga do Eduardo. 

- sim, o Eduardo…que têm?

- o que tem é que ele é um dos amigos de infância daquele encosto e preciso de um favor dele e tu, como grande amiga que és, vais fazer o que te vou pedir! – ela olhara-me de um jeito um pouco amedrontado.

- depende do que tu queres fazer!

- não é nada de especial! Apenas quero que tentes saber a morada do amiguinho dele.

- para quê?!

- oh Adriana deixa-te de perguntas. Fazes-me esse favor? 

- porque haveria de fazer? Se queres saber a morada dele, pergunta-lhe. É que até tenho medo de saber para que raio queres saber disso.

- eu não o vou assaltar e muito menos viola-lo. 

- muito mais descansada!

- anda lá, fazes-me esse favor? Confia em mim.

- vou ver o que posso saber. Mas não prometo nada!

- gracias guapa. Te quiero!

- oh sí, todos os dias! – gracejou. Acabamos de almoçar seguindo para mais uma aula. Hoje só sairia das aulas por volta das sete da tarde. Enfim, mais uma tarde bem enfadonha…



***

Depois de o Juan me abrir o portão estacionei o carro na garagem. Já estava noite escura e reparei nas luzes da cozinha ligadas. Conseguia ver a Pilar de volta do fogao a preparar o jantar. Acabei mesmo por entrar pela porta da cozinha e assisti ao pequeno grito que ela dará ao me ver ali.

- buenas noches Pilar! 

- menina Isabel, que susto! 

- não esperava a minha chegada?

- não reparei no seu carro a chegar.

- os meus avós?

- Estão na sala de jantar com os seus tios. Estão preocupados por não ter aparecido a casa para dormir.

- oh…não se preocupe com isso. Eles acalmam logo! – acabei por dar um beijo no rosto de Pilar e segui até à sala. Assim que o som dos meus sapatos de fizeram ouvir sobre a soada antiga daquela sala, os olhares deles pregaram-se em mim. Depressa senti os braços da pequena Alba a rodarem a minha cintura.

- Bela! Que bom, estás aqui!!

- pois estou mi piqeña! 

- Isabel, até que enfim que chegaste querida! – disse a minha avó. Sempre preocupada comigo.

- como vê avó, aqui estou. Acabei por dormir no apartamento dos meus amigos…já estava tarde para seguir caminho até aqui. 

- podias ter ligado para nos avisar.

- voçes já estavam a dormir e não queria acordar-vos!

- para a próxima vez avisas na mesma, nem que seja para deixar recado…

- sim, avó não se preocupe… - olhei em meu redor e reparei na falta de alguém – onde está o avô?

- foi até à cidade com o Leonel fazer as compras para os jardins.

- vale! Vou tomar um banho, desço já… - subi as escadas e fui para o meu quarto. Apressei-me a tirar as botas que já me fazia doer os meus dedos, escolhi uma roupa e tomei banho. Aproveitei que ainda não estava o jantar pronto para ligar para Portugal e tentar falar com os meus pais. Fiquei meia hora ao telefone e ainda tive de aturar as crises da adolescência da minha irmã. Conseguia senti-los tão diferentes ao telefone. Seria possível que em dias eles pudessem mudar? Ou era as saudades a falarem mais alto? Apesar da minha relação difícil com a minha mãe ou mesmo ter uma irmã teenager, eu adorava-os e sentia imensa falta. Não só deles como dos colegas que deixei para trás. 

- menina Isabel…posso? – ouvi a voz da Paula, uma das empregadas, a fazer-se ouvir por entre a porta. Assim que a vi, sorri-lhe.

- claro Paula, entre! – não demorou mais do que escassos segundos para a ter dentro do meu quarto.

- o jantar já está pronto…os seus avós mandaram-me chama-la.

-claro, eu já vou! – assim que acabei de calçar as minhas sapatilhas, acabei por descer e sentar-me à mesa. Como o habitual em todas as noites, tínhamos a companhia dos meus tios e primos. A casa estava sempre cheia. Connosco vivia a minha tia Lorena e o tio Santiago, os primos Francisco, Enrique, a Marisol e a Alicia. Só o meu pai que estava em Portugal e a minha tia Catarina em Madrid, é que não estavam presentes. Os meus avós sempre tentaram nos incutir a importância da família estar junta e por isso, fizeram questão que sempre vivêssemos cá mas, apesar disso, adoravam viver também na casa deles, naquele refugio onde passavam boa parte do tempo. Apesar de ter crescido a ouvir que a minha família era unida, sabia bem que nem sempre era assim. Todas as famílias têm os seus elos fracos e esta não era excepção. 

- E o que estás a achar desta universidade? – perguntava-me a minha tia Lorena. Acho que de todos, ela era a que mais me entendia a par dos meus avós. Era uma mulher cheia de ganas, por vezes um pouco loca apesar de garantir que já amadurecera um pouco. Sem falar que tivera o meu primo Francisco com a minha idade e o pai dele a abandonara. 

- boa…tem boas instalações, a turma é simpática, não me posso queixar.

- tirando a parte que já estás de castigo e nem há uma semana estás cá! – concluía, com um pouco de tom de censura, a Marisol. Olhei-a de soslaio. Era minha prima mas conseguia levar-me aos arames. Era mais velha do que eu dois anos, a estudar medicina e já se achava dona de si. Sei que no fundo, ela sente ciúmes por os meus avós serem mais apegados a mim, que sou adoptada, do que a ela, que é neta de sangue. 

- isso não se voltará a repetir, não é Isabel? – o meu avô acabava sempre por me apaziguar. Aquele olhar sábio, doce, quente…deixava-me tão confortante.

- mas afinal o que se passou?

- a Bela atirou com café quente a um rapaz lá da faculdade, ao Javi!

- como é que tu sabes disso? – perguntei admirada. Enrique ainda tinha quinze anos e nem andava na faculdade. Nem queria imaginar como soubera disso. 

- Bela, isso já é novidade do mês! Já para não falar que o acontecimento do século foi a partida de bilhar que ganhastes ontem ao Javi!

- tu agora andas a par de tudo o que faço?! – perguntei incrédula – e como é que tu o conheces?

- Os rapazes do decimo segundo ano, são todos amigos do Javi porque moram no mesmo bairro que ele e hoje não se falava de outra coisa! E eles falavam bem de ti, da rapariga nova da universidade! – dizia com uma tranquilidade que acabava por me deixar incrédula. 

- quem é esse rapaz, o Javi? – acabou por perguntar a minha avó.

- E um otário que anda lá na universidade! É o maior presunçoso que conheço, já para não falar na falta de caracter que tem…

- o Javi é uma boa pessoa! – defendeu Marisol num tom juncoso que acabou por me assustar. Olhei-a e reparei no seu olhar intrigante, podia até dizer que se fosse preciso saltava-me ao pescoço – não fales dele assim!

- eu estou a dizer aquilo que eu sei que ele é! Bastou-me três dias para conhecer a peça que ele é!

- tu não o conheces por isso é bom que não fales do Javi nesse tom!

- perdón se te magoei com as minhas ofensas! – ironizei – já deu para entender que temos aqui uma defensora dele e que por sinal, ficou bem ofendida!

- hei, meninas, já chega! – tentou o meu avô, apaziguar os ânimos entre mim e a Marisol – estamos à mesa e não se discute.

- desculpa avô… - voltamos a retomar o jantar mas não me livrei de levar com os olhares insuportáveis da minha prima. Ela, era uma das razoes que me fazia sentir à parte daquela família. Sempre que pode, relembra-me que sou adoptada. Que não sou do mesmo sangue que eles. O que é que ela ganha com isso? Irritar-me? Colocar-me fora de mim? Querer dar-lhe um estado? Joder, que presunçosa! Agora sim, achava-a ideal para aquele encosto. Não me admira que o defenda…acabam os dois por serem iguais. 


***

Hoje era sábado. Podia ser um dia para dormir até mais tarde, descansar ou até passear pela cidade, se não fosse a minha obrigação em cumprir o primeiro dia de três meses, de serviço comunitário. Tinha acabado de chegar à instituição, hoje seria apenas para apresentar-nos a casa e dar a conhecer o seu trabalho. Estava marcado para as nove horas da manhã e, assim que cheguei à recepção, notei que era a primeira a chegar. Acabei por me sentar à espera que alguém aparecesse e em questão de três minutos, uma senhora, que aparentava ter os seus quarenta anos, aparecera ali. 

- buenos dias…é a Isabel García? – perguntou ao deparar com a minha presença.

- sim, sou eu! 

- olá Isabel, eu sou a directora desta instituição, chamo-me Carla e é um prazer ter-te aqui para fazer voluntariado. Tinha a informação que vinha contigo outro colega, ainda não chegou?

- ah…não sei eu não combinei com ele, não sei se está atrasado ou não…

- hum, vale. Vamos esperar mais um bocadinho para a chegada dele para depois vos apresentar a casa! Aceita um café?

- sim, aceito – acabamos por nos encaminhar até ao bar e ficamos a conversar um pouco sobre as causas em que aquela instituição estava aficionada. Percebi que já tinha bastantes anos e que era muito conhecida, já para não falar nas causas nobres que já se associou, nomeadamente bailes, festas, feiras, tudo para puder angariar fundos de modo a que as ajudas chegassem a mais gente.

- bem, estou a ver que o teu colega não chega…se calhar é melhor começarmos nós porque também não me posso atrasar!

- sim, sem problema nenhum! – A visita à casa durou cerca de hora e meia. Não tinha a noção do quão grande aquilo era, de facto, só quem estava ali é que poderia ter a percepção da grandeza desta instituição. Saí dali e já era a hora do almoço. Fui até casa, passei uma boa parte com a minha família, acabei mesmo por ajudar a minha avó no seu roseiral e perdi a noção das horas, só mesmo quando recebi uma chamada da Adriana é que me apercebera que estava atrasada.

- sempre a mesma atrasada! – constatou Adriana assim que cheguei a casa deles.

- desculpem, eu na casa dos meus avós perco a noção das horas!

- já deu para reparar que sim…anda, preciso da tua ajuda para acabar o jantar!

- boa noite rapazes! – desejei ao passar até à sala, onde eles estavam vidrados na playsation. 

- Olá Bela! – acabei por me juntar à Adriana e pouco tempo acabamos por jantar. Conversávamos sobre tudo e sobre nada mas o tema que reinava, era sem duvida, os nossos planos para a semana seguinte. Tive de lhes dizer que à noite seria mais complicado pois teria de estar na instituição.

- eu gostava de ir a Barcelona…e pelo que vi não é assim tão longe daqui! 

- Barcelona é muito giro, eu adoro aquela cidade! – argumentei – podíamos passar um fim de semana, tínhamos mais tempo para conhecer a cidade e tudo…

- isso era uma boa ideia!

- para quando é que marcamos? – perguntava o Renato 

- podia ser num fim-de-semana em que o Real Madrid jogasse no campo Mou, era lindo ver um clássico!

- pelo que ouvi do meu avô, no outro dia, o clássico calhava no primeiro fim-de-semana de Novembro.

- fica para essa altura?

- sim, fica! 

- ok, eu vou tratar de arranjar os bilhetes e saber um bom sitio para passarmos a noite – disponibilizei a ajuda em tratar disso já prevendo que o meu avô conseguisse arranjar bilhetes para todos nós e já conhecia muito bem Barcelona. O resto da noite foi passada entre conversas animadas, brincadeiras, aproveitamos para disfrutar de umas boas partidas playstation havendo também tempo para vermos um filme desfrutando das pipocas caseiras. E, mais uma vez, acabei por pernoitar ali mas sem antes me esquecer de avisar os meus avós. 

***

Aquela semana tinha passado muito rápido. Hoje já era novamente segunda-feira e mais um dia de aulas e sem me esquecer do voluntariado. Isto significava que chegaria a casa tarde e a parte da manhã do dia seguinte seria para dormir um pouco.

- aqui tens! – assim que senti a presença da Adriana perto de mim, acabei por tirar as atenções sobre a matéria centrando-me na sua figura – esta é a morada dos pais dele…que por acaso são vizinhos do Eduardo. 

- hum…muchas gracias! – rejubilei enquanto pegava no papel guardando-o no meio dos livros.

- olha lá o que é que tu pretendes fazer com isso?

- mas tu não confias em mim? Já disse que não vou assaltar a casa a meio da noite e nem tão pouco o vou violar! – senti a Adriana a desfazer-se em gargalhadas.

- olha que era algo tentador…

- tentador?

- sim. Violares o Javi! Ele até bem jeitoso, tem ar de machão, ar de quem tem pujança… - eu olhava-a incrédula – o que foi? Vais dizer que nunca reparaste nisso.

- não! 

- oh sim Bela! Conta-me histórias…

- mas tu achas que perderia o meu tempo a reparar na beleza dele?! Joder, que asco…

- vocês até faziam um belo par! Sois os dois impulsivos e tiveram um primeiro encontro bem escaldante! 

- mas tu quando acordaste bateste com a cabeça na cama foi?! – gritei-lhe – cala-te Adriana!

- ok, ok….já parei! 

- lá por estares muito amiguinha do Eduardo não quer dizer que tenha de seguir as tuas pisadas e ser amiga daquele encosto. Só de imaginar isso já sinto repulsa!

- oh não sejas assim…o Eduardo é um rapaz muito simpático, querido, bem mais calmo que o Javi…

- afinal de que curso é o Eduardo?

- Direito!

- ah…pensei que também fosse do mesmo curso que aquela escumalha toda.

- hei, não fales assim dele! – imperou – tudo bem que não gostes do Javi mas o Eduardo não é o Javi sim? Pára de achares que todos os amigos dele são violentos! E se queres que seja sincera, estás a ser tremendamente injusta com ele. Já estive com o Javi e não parece ser nem metade daquilo que tu o pintas!

- claro! – alterei o meu tom de voz – a culpa é toda minha! Eu é que provoco, eu é que sou louca e atiro-lhe com café porque me apetece, porque se calhar eu é que ando a riscar os carros das outras pessoas e tudo! Joder Adriana, estás a ficar apaixonada por ele e depois não digas que não te avisei! – dito isto acabo por pegar nas minhas coisas saindo do refeitório. Aquela conversa tinha-me deixado tremendamente maldisposta, odiava discutir com a Adriana mas por vezes tornava-se demasiado ingénua e apaixonada. Para ela tudo era perfeito. Acabei mesmo por regressar à sala de aula e ficar ali até ao toque de entrada. Sentia a Adriana a sentar-se do meu lado mas preferi não tocar uma única palavra até ao final da aula.

***

Parei o meu carro assim que cheguei ao local da morada que me haviam dado. Ficava num sitio pouco iluminado e percebi que era ali o mecânico pelos carros desmontados que tinham na entrada. Estacionei bem na frente, sai do carro e apressei-me a entrar. Encontrei um senhor moreno, com um fato cinzento, um lenço na cabeça e que cantava um pouco desajeitadamente ao som dos pink floyd. Pigarrei um pouco a minha garganta e só quando bati com um pouco de força sobre o capô de um dos carros é que a minha presença foi notada. Ele olhara-me atentamente.

- precisa de alguma coisa? – perguntou

- desculpe? – de facto não o conseguia ouvir visto que a musica estava um pouco alta – não o consigo ouvir! – gritei. Segundos depois, ele apercebera-se que não o estava a entender devido ao som alto da musica. Apressou-se a desliga-la para voltar a olhar para mim.

- desculpe, sabe como é, com um trabalho destes só com a musica nas alturas! – tentou gracejar – mas veio aqui porquê?

- quero arranjar o meu carro, aquele que está ali – respondi apontando para ele 

- qual é o problema? – perguntou enquanto se encaminhava para junto do carro.

- tenho este arranha na parte traseira! 

- hum…isso ainda dá um pouco de trabalho…terei de lixar para que não se note as arranhuras, tirar a tinta, colocar novamente uma nova tinta, sem falar no brilho final…não vai ficar muito barato.

- quanto?

- ui, isso? Entre os 200 e 300 euros…

- vale, não importa o preço. Quero é que arranje e que fique direito! Ah e se fosse possível o mais rápido que pudesse. Eu preciso do carro…

- dois, três dias é que fica pronto.

- tanto tempo?

- já viu como tem o carro?

- joder… . bufei – tudo bem, três dias no máximo e venho cá buscar!

- como a senhorita quiser! Mas sobre o pagamento fá-lo agora ou quando vier busca-lo?

- façamos o seguinte…mande o pagamento para esta morada. O responsável pelo pagamento não sou eu mas não se preocupe, tem a minha fiel palavra como essa pessoa pagará os prejuízos causados! – tirei o papel que tinha dentro do bolso, acabando por atirar para cima do capô. Reparei que o homem olhava atentamente para a morada que acabara de lhe dar.

Javier Costa Martinez
Rua baron de trovisquera, puerta nº 15
Múrcia


- e o que eu vou dizer para me dar o dinheiro?

- diga-lhe que tem de pagar os prejuízos que causou com a sua mota a um carro de uma rapariga! Ele lembrar-se-á logo do acontecimento. Me voy, um resto de uma boa tarde!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Capitulo 3



Assim que saí da secretaria caminhei para a zona do bar. Tinha recebido uma mensagem da Adriana para ter lá. Encontrei-a juntamente com os rapazes, aproveitei para tirar uma cadeira da mesa ao lado e juntar-me a eles.

- então, como correu? – perguntou de imediato Renato

- preferia que não tivesse corrido! – resmunguei – tenho de prestar serviço comunitário a distribuir alimentos e roupas para os mendigos e prestar caridade à restante comunidade!

- podia ser pior! Mas olha, até é uma área bem interessante e tu como futura enfermeira isso pode-se interessar.

- podia ser pior? O problema não é o serviço que tenho de prestar mas sim ter que levar com aquele encosto!

- ah, já percebi….tu e o Javi vão prestar serviço comunitário juntos?

- sim, esse daí…

- ele é da nossa turma e não é má pessoa…acho que as pessoas o pintam por demais – revirei os olhos. Não queria acreditar que ouvia aquilo do Ricardo. Ele não era boa pessoa. Não era e ponto final. Disso eu tinha certezas absolutas como me chamar Isabel Maria – não me olhes assim, é verdade!

- claro, no final eu é que fui a louca que virou café nele porque me apeteceu!

- tu não tens um feitio fácil, admite! Vocês faiscaram logo!

- podemos parar com esta conversa? Acho que já estou mal disposta o suficiente.

- tudo bem…mudando de assunto, jantamos logo todos juntos?

- por mim pode ser. Amanha só temos aulas da parte da tarde – respondeu Adriana.

- têm algum sitio em especial? Se for preciso, eu conheço alguns restaurantes muito bons para irmos – prontifiquei-me a disponibilizar os meus conhecimentos dos sítios que já conhecia da minha terra natal. Sim, apesar de nunca ter vivido cá, é aqui, neste lugar, que as minhas raízes estão.

- tivemos a sugestão de um que é super bacano e a maioria do pessoal da nossa turma costuma ir até lá. 

- então fica para aí!

- saímos às sete da tarde. Marcamos às oito e meia?

- pode ser! – ficamos mais um pouco a conversar. Confesso que consegui abstrair-me do pequeno problema que tinha em mente. Não, pequeno de nada tinha. Era um grande problema e que me estava a incomodar bastante. Só não sabia o porquê disso…a campainha tocou e fomos para a aula. Mais uma hora e meia sobre competências da comunicação e iriamos almoçar. Confesso que já sentia bastante fome e nem me apercebera que nem o pequeno-almoço tomara.





Sabia que estava atrasada. Já eram quase nove horas da noite quando estacionei o carro em frente ao restaurante. Não dei pelas horas a passar, era o que fazia estar completamente rendida aos encantos da recém-chegada da família, a pequena Alba. Entrei pelo restaurante a avistei ao longe, numa mesa junto da janela, os meus amigos. Eles acenaram-me e apressei-me a juntar-me a eles.

- então?

- desculpem, eu sei que me atrasei mas a minha prima estava lá em casa e de lá até aqui ainda é um bom esticão…desculpem!

- não faz mal, já fizemos os pedidos e ainda estamos à espera. Pedi paella para ti, pode ser?

- pode, na boa! – enquanto a comida não chegava, conversávamos sobre o nosso segundo dia de aula. Era algo diferente e eles sentiam isso. Apesar de ter dupla nacionalidade, também sentia alguma retenção. Passei os meus vinte anos em Portugal e completamente habituada e rendida aos costumes de lá. Sei que só a parte da minha avó é de raízes lusitanas mas sinto-me mais portuguesa do que espanhola. Talvez porque foi em Portugal que vivi, ou melhor, eu sou portuguesa. Eu simplesmente fui abandonada pela minha família biológica numa porta de um hospital com três anos. No fundo, não posso dizer que parte de mim é espanhola, quando não é. Por mais que os meus pais, Pedro e Marina, me digam que a minha família são eles, sinto que não é. Nem posso admitir tal coisa. Eu não nasci dela. Eu não tenho antepassados e muito menos genes espanhóis. No fundo, sou uma pessoa sem antepassados que fora largada como se se tratasse de uma jangada. Tive a imensa sorte de ter um homem como o meu pai, que me encontrou. 

- hei, ouviste o que falei? – Despertei com a voz da Adriana. Olhei-a e apercebi-me que a comida acabava de chegar.

- não, desculpa…o que dissestes mesmo?

- olha só para a mesa do lado e repara em quem chegou! – assim o fiz. Arrependi-me de imediato. Respirei fundo e pensei para mim mesma, sobre a capacidade alucinante que o destino tinha de colocar aquele anormal no mesmo sitio que eu. Ele estava junto de mais uns colegas. Conheci alguns. Claro, metade deles estavam junto quando tive o infeliz prazer em ter aquele encontrão com ele. Montón de estúpidos.

- começo a achar Múrcia demasiado pequena… - praguejei

- vê lá se desta vez te controlas e não fazes nenhuma estupidez!

- eu sei me controlar. Só não gosto que me descontrolem… - começamos a jantar e desliguei-me um pouco da companhia que tínhamos. Mas foi sol de pouca dura. Praguejei pelo facto de ter dois amigos que eram colegas de turma daquele grupo. Não demorou muito para que dessem pela nossa presença. O problema não era ter medo ou muito menos receio que eles fizessem chacota de mim pelo que fiz ao outro presunçoso. Simplesmente não queria atura-los. Tarefa essa completamente impossível…

- buenas noches gente! – não sei quem era aquele rapaz mas depressa me apercebi que era colega de turma dos rapazes. Não era muito alto, talvez fosse da minha altura mas não dava para perceber bem. Tinha uma tatuagem no braço, era enorme, um símbolo de um escorpião. Reparei no seu olhar…tinha uns olhos verdes fascinantes mas que ficava tão ofuscado pelo facto de ter uma aparência questionável. Aqueles piercings, tatuagens, roupas largas, dava-lhe ar de delinquente. Será mesmo que era? No fundo não parecia. Acaba por ser impressionante a forma como a aparência das pessoas nos fazem enganar a seu respeito. O que é que as tornava assim? Será tudo vontade de quererem mostrar algo que não são?

- boa noite! Então como é que estão? Não se querem juntar a nós?

- obrigada mas temos ali uns amigos que já não vemos há bastante tempo…mas porque não se juntam para uma partida de bilhar? Nos fundos tem um salão de jogos!

- olha…pode ser!

- claro! – aceitou Renato. 

- então apareçam! – não demorou mais do que alguns segundos para o tal rapaz se voltar a sentar na mesa. Reparei que ele olhava-nos…tinha um olhar intrigante. Provavelmente, ele seria a pessoa mais enganadora que já havia conhecido. Era presunçoso, arrogante, achava que o mundo girava a seus pés. Ele sim, era aquele que queria mostrar algo que não era. Com um aspecto de badboy, camisa preta e umas jeans escuras. Casaco de cabedal, cabelo em forma de crista e até parecia que conseguia sentir o cheiro do seu perfume. Apesar disso, mostrava um olhar…sofredor? Reparara nisso enquanto saboreava mais um gole de cerveja. Apesar de sorrir, algo nele era misterioso e fitava de um jeito vazio aquele copo já gasto. Ele olhara-me…desviei o olhar nesse mesmo momento e centrei-me no prato que tinha à minha frente. Não sei porquê mas fiquei com uma sensação completamente esquisita. 



***

- têm a certeza que não querem ficar?

- sim…amanha nós temos aulas de manhã, não somos como certos sortudos que só entram à tarde! – já estávamos no parque de estacionamento, eu e a Adriana tínhamos decidido regressar a casa enquanto que os rapazes ficariam para jogar a tal partida de bilhar com o outro grupo.

- tudo bem, vocês é que sabem! Encontramo-nos então na faculdade?

- sim…até amanhã meninos!

- até amanha. Qualquer coisa digam! – estávamos a caminhar para o sitio onde tinha estacionado o meu carro quando, ao olhar para o lugar dele, me deparo com um cenário improvável. E não era que tinha uma mota estacionada à frente do meu carro? Como é que o tirava dali? 

- mas…quem foi que estacionou esta porcaria em frente ao meu carro?! – perguntei exaltada.

- e agora, como é que vamos sair?

- não sei mas gostava de saber! – naquele instante, tanto o Ricardo como o Renato voltaram atrás ao se aperceberem do que se estava a passar.

- então meninas, o que foi?

- tenho uma mota em frente ao meu carro! Dá para acreditar nisto!?

- esperem…essa mota é do Javi! – constatou o Renato

- de quem? – eu olhei-os – não brinquem comigo! – comecei a bater com o pé sobre a calçada – até aqui aquele encosto me provoca?!

- não se preocupem eu vou até lá dentro e peço que ele tire a mota…

- não te canses, eu própria encarrego-me disso! – virei costas e comecei a caminhar, novamente, para o restaurante. Reparei que poucas pessoas ainda residiam ali, e os poucos resistentes, estavam ao balcão. Perguntei onde ficava o salão de jogos e não hesitei em subir para o piso superior. Assim que abri a porta, precisei de parar, ou não tivesse sido inalada por aquele fumo sufocante. Aquilo era um suposto ser um salão de jogos ou uma sala de chuto? Estava rodeada só de rapazes. Pararam todos a olhar para mim. Foi ao mirar o fundo da sala que o encontrei. Estava a beber uma cerveja, a sorrir para os amigos, enquanto preparava os tacos do bilhar. Comecei a caminhar na sua direcção e foi ao tirar-lhe o taco da mão que tive a sua atenção.

- tens precisamente um minuto para tirares a tua sucata da frente do meu carro! – ele fixava-me. Parecia estupefacto pela minha ousadia mas não me deixava de olhar com um olhar bastante presunçoso. Ele de facto irritava-me. 

- disseste alguma coisa?

- sim, que tenho uma sucata a atrapalhar o meu carro e parece que é teu! Quero que o tires de lá!

- porque haveria de tirar…a minha mota, ao qual apelidas de sucata, do sitio onde está?

- olha…eu não tenho a tua vida, por isso, vê lá se és rápido! Quero ir embora!

- se queres ir embora vai! Não te prendas por mim! – respondeu-me com um sorriso malicioso.

- qual foi a parte em que tenho a tua mota em frente ao meu carro, que ainda não percebeste?! – gritei-lhe já perdendo a minha paciência. Seria ele sempre assim? Joder, que presunçoso!

- se tu não deixasses o teu carro mal estacionado eu teria lugar para a minha mota! Agora, queres que a tire? Por favor… tenho mais que fazer – ele virou-me costas. Estava incrédula e sabia que ele não ia ceder…eu juro que tentei. Juro mesmo. Tentei ser a pessoa mais calma que podia ser mas este não facilitava. 

- tudo bem…depois não te queixes que a tua mota fique mesmo em sucata! Aviso já que carrego bem no acelerador! – Estava prestes a virar costas quando sinto-o a prender-me pelo braço.

- hei! Na minha mota tu não tocas, não eras tola a esse ponto! – inquiria com um sorriso dominador. De facto, ele não me conhecia. Com a cólera que sinto dele neste momento, era capaz até de a transformar em peças. Olhei-o de um jeito desafiador. 

- não me deves subestimar, sabias?

- de facto…não! Ainda não me esqueci do que fizestes à minha mão! – respondeu mostrando-me a outra mão livre e que tinha uma liga a abrange-la. 

- que pena só ter sido na mão. Mas não te preocupes que da próxima vez eu certifico-me que te queimo muitas outras partes! – ele gargalhou 

- perigosa… - concluiu – mas não me metes medo! – ele virou-me costas e reparei que havia pegado em outro taco de bilhar – uma partidinha? – sugeriu

- nem morta! 

- então? Não sejas tão radical, com a morte é algo que não se brinca! Vá lá, só uma partidinha…

- já disse que nem morta! – gritei-lhe – eu quero que tires a tua mota do sitio onde está ou então podes ter a certeza que eu certifico-me de a tirar dali mesmo!! – naquele instante chegou a Adriana e os rapazes.

- então, vamos embora?

- só estou à espera que ele a vá tirar de livre vontade!

- vocês esperam uns dez minutinhos? – perguntou – a vossa amiga aceitou jogar uma partidinha de bilhar comigo!

- Yo? Estás loco! – ele foi-se aproximando de mim

- só uma…anda lá! – aquele olhar tão presunçoso acabava por me deixar com nojo dele. Acredito que nunca tenha visto um homem tão medonho como ele – até porque…tu vais perder! – não sei quanto tempo fiquei a encara-lo mas dei comigo a pensar em desforra. Ele irritava-me, odiava-o, metia-me raiva…

- feito! – desviei-me dele e pus o taco pronto.

- tens a certeza?

- o que foi? Estás com medo que uma mulher te dê uma abada? – senti quem estava ali, a rirem-se do que acabava de dizer. Ele fez o mesmo.

- a mim ninguém me dá abada. Só te vou ensinar como uma mulher deve jogar bilhar! – senti a Adriana a colocar as mãos sobre as minhas costas.

- por favor Isabel, vamos embora!

- espera! Agora não vou dar o braço a torcer para este gilipollas!

- joder Isabel… - bufava enquanto se afastava de mim. Naquele instante as atenções estavam todas centradas em nós os dois. Os seus amigos rodeavam-no expectantes e confiantes que o seu amigo provavelmente me daria uma grande humilhação naquele jogo. 

- pronta?

- mais do que pronta! – ripostei olhando-o ferverosamente. Foi ele que começou a partida. De facto, num simples toque conseguiu que a maioria das bolas ficassem dentro da rede. Os amigos dele batiam palmas ou simplesmente o assobiavam.

- é a tua vez…garota! – acabei por me posicionar naquele angulo que achava o mais certo. Eu não era um às naquele tipo de jogos mas graças a Deus que tivera uns primos completamente viciados neste jogo e que me ensinavam diversos truques. Com uma simples tacada, consegui juntar mais sete bolas dentro da rede e, ainda de uma forma bem vagarosa, consegui que a oitava bola ficasse lá dentro. Sorri de um jeito prazeroso. Olhei-o e notei a sua falta de reacção contrastando assim com os assobios que os seus amigos faziam questão de dar.

- queres continuar? – perguntei. Ele acabou por sorrir. Sabia bem que não esperava que na primeira jogada conseguisse ganha-lo. E, era esse mesmo facto, que me fazia querer continuar. Confesso que estava a adorar vê-lo naquele estado.

- nada mau…para uma principiante!

- nada mau? Ela deu-te uma abada mano! – referiu um dos seus amigos. Vi-o a dar-lhe um breve empurrão para que, de seguida, voltasse a centrar as atenções sobre a mesa. 

- claro que vamos continuar! – de facto, ele conseguia ser bom jogador e não me admirava nada que ninguém o conseguisse detonar. Passamos bom parte do tempo naquela rivalidade e nenhum queria pôr um fim aquilo. Ora ele me ganhava, ora eu conseguia detona-lo. Quantas mais tacadas dávamos mais vontade surgia de continuar. Qual de nós os dois queria perder? Nenhum. Pelo menos, naquela noite, soube que tinha algo em comum com ele. Odiávamos perder. Era isso mesmo que nos estava a saciar para não parar de jogar e tornar aquele jogo algo memorável em nossas memorias. Na minha porque jamais imaginaria estar mais do que cinco minutos a respirar o mesmo ar que aquele idiota, e na dele, porque jamais imaginava que uma mulher o fizesse perder. Acabamos o jogo e eu tinha-lhe ganho. Confesso que estava contente. Feliz até. Estava a sentir-me completamente satisfeita por ver naquele rosto presunçoso um sabor bem amargo da derrota. 

- então…quem é mesmo mulher? – espicacei-o. Senti os seus amigos a rirem bastante ao qual ele mostrava o seu esforço em tentar controlar a cólera que o invadia – lo siento mas tu provocaste!

- hei Javi, parece que arranjamos uma substituta para ti! 

- quem diria que fossemos encontrar alguém que conseguisse detonar o record do Javi! – novamente, voltaram a desfazer-se em gargalhadas prazerosas. Até os seus amigos gozavam-no. Isso acabava por ser melhor do que a encomenda.

- até que não és má…para uma principiante!

- confessa, fui bem melhor do que tu!

- tiveste sorte!

- franqueza…só te ficava bem! – fui-me aproximando acabando por ficar a escassos passos dele – débil! – sentia-o prestes a explodir de tanta raiva. Acabei mesmo por soltar uma gargalhada. 

- tal como te disse… - ele sussurrou-me ao ouvido – ainda as vais pagar!

- estou para ver isso! – acabei por me afastar dele – e agora, quero que trates de tirar a tua sucata da frente do meu carro! Ou achas que não sou capaz de a tirar eu mesma? - ele nada disse. Acabou por se afastar a passos largos. Tanto eu como a Adriana acabamos por abandonar aquela sala saindo do restaurante. Assim que paramos em frente ao carro, já ele estava em cima da sua mota ao qual não se coibiu de passar com o seu espelho sobre a mala do meu carro, acabando por o arranhar.

- cabrón de mierda! – gritei correndo em direcção a ele – arranhaste-me o carro! – assim que desligara a mota, fez questão de me olhar soltando uma gargalhada prazerosa.

- eu disse-te que ias pagar! E isto não é nada!

- gilipollas, tu fizeste isso de propósito! – gritei-lhe.

- esta é pela mão que me queimaste. A do jogo, ainda vais pagar por isso! – quem era ele para pensar que podia fazer as coisas do seu modo? Que idiota, joder! Ele é sem dúvida a pior pessoa que já conhecera à face da terra! Estava irritada, não pelo facto de ter provocado estragos no carro mas pelo que ele era capaz de fazer. Só estava em Múrcia há dois dias e ele já provocara na minha vida imensos estragos. Irá ficar por aqui? Espero bem que sim. Sem aguentar mais, acabei mesmo por descarregar a minha raiva toda nele, empurrando-o. 

- eu não tenho medo de ti! Pessoas como tu, está o inferno carregado! Mas sabes que mais? Espero bem que tenhas uma vida de merda, tal como tu és! – gritei-lhe acabando por virar costas. Nunca um homem me deixara irritada a este ponto. Odiava-o! Com todas as minhas forças, odiava-o. Queria mais que ele se jugasse de uma ponte e acabasse por me deixar em paz. Odío, qué odio! Era tudo o que sentia naquele momento…mas se pensava que aquilo ficava por ali, bem…acho que nunca me enganei em toda a minha vida.