quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Capitulo 6

Eram seis horas em ponto quando parei a mota em frente à associação. Não era de todo o meu desejo de ficar a noite inteira a andar pelas ruas distribuindo comida aos necessitados. Não que tivesse algo contra eles. Não tinha…até gosto de ver as pessoas a mostrarem solidariedade com essas pessoas mas eu? De todo era a pessoa indicada para isso. Agora já não me restava mais nada a não ser esperar que estes três meses passassem a voar para puder a ter a minha rotina de volta. 
Acabei por entrar pela porta principal e encontrei uma senhora sentada na secretaria a olhar fixamente para o amontoado de folhas que tinha na sua frente.

- buenas tardes… - assim que falei ela olhara-me.

- buenas tardes…deseja alguma coisa?

- sim, queria falar com a Doutora Carla Ortiz se fosse possível!

- mas para que efeito?

- eu sou Javier Martinez, aluno da universidade de Múrcia e estou a fazer voluntariado nesta instituição…

- ah, sim eu já me recordo…aguarde só uns minutos que vou anunciar a sua chegada! – depois de ser presenciado com a sua simpatia, acabei por me sentar num dos sofás à espera que alguém me atendesse. Não foi preciso mais do que cinco minutos para aparecer uma mulher de estatura baixa, com uns cabelos loiros encaracolados e uma pela bem branca. Acabei por me levantar ao me aperceber que se aproximava de mim.

- Hola Javier! Eu sou a Carla, a directora desta instituição. Muito prazer!

- o prazer é meu! – acabei por responder 

- a sua professora dera-me a indicação que esteve doente estes dias e que por isso não viera mas não faz mal, só hoje é que vamos começar a nossa tarefa! – doente? Não sabia que estivera doente…mas é bom saber que acreditara numa mentira que nem tinha sido eu a dizer – vamos?

- sim, vamos – acabei por a seguir e, numa visita apressada, deu-me a conhecer alguns locais daquele lugar. Depois disso, fomos até ao edifício ao lado. Ao ler a placa que estava colocada junto à porta consegui perceber que estávamos na cantina. Era um lugar bem amplo, com mesas espalhadas por todo o sitio e pude ver a cozinha e o local onde se servia as refeições. 

- aqui é a cantina, o local onde às quartas, segundas e sextas servimos as refeições. Normalmente são as pessoas que não têm possibilidade de confeccionarem as suas próprias refeições que se deslocam até aqui! Abre a partir das sete e meia e fecha por volta das nove horas.

- quer dizer que hoje iremos embora mais cedo?

- sim…hoje ficas por pouco tempo. É o tempo de arrumar as mesas, limpar o chão, ou seja, dar uma limpeza a este sitio! Mas vai-te habituando que aqui toda a gente trabalha em todo o serviço. Mas como tu só chegaste hoje irás estar a servir as refeições e depois ajudas na limpeza.

- hum…vale!

- agora, junta-te à tua colega, a Isabel que está ali ao fundo a pôr as mesas prontas! Perguntas-lhe como se faz que ela já sabe – apenas acenei com a cabeça ao mira-la ao fundo da sala a colocar os pratos de uma forma bem atenta – mais alguma coisa?

- não…

- tudo bem…então, bom trabalho! – ela acabou por sair da minha beira e eu, tal como ela mandara, fui para junto dela a fim de saber como tinha de colocar as mesas. Antes, tirei o meu casaco colocando-o no cabide. Cheguei ao pé dela e senti que nem pela minha presença acabava de dar.

- preciso que me digas como se põe as mesas – notei que ela se tinha assustado um pouco com a minha voz mas mesmo assim não se atrevera a olhar-me. Ainda fiquei a vê-la a acabar de colocar os talheres direitos para, de seguida, parasse o que estava a fazer.

- colocas três pratos de cada lado, os talheres e os guardanapos. Podes fazer daquele lado que deste eu acabo. As coisas estão em cima daquele armário – ela gesticulava sempre sem olhar para mim. No fim, virou-me costas e continuou a fazer o seu serviço. Acabei por estranhar…nem um hola cabrón? Um andate à lá mierda? Consigo dizer que era a primeira vez que falávamos sem haver uma troca acesa de palavras. Acabei por desviar-me destes pensamentos e começar a trabalhar. Sei que o tempo que se seguiu nenhum de nós trocou uma palavra. Ela evitava-me a todo o custo e uma simples aproximação fazia com que ela se afastasse de imediato ou sentisse medo. Eu sabia bem o motivo disso e que no fundo, eu tinha exagerado. Não sou homem de bater em mulheres nem muito menos de fazer o pouco que lhe fiz mas ela não tinha a noção do quanto me conseguiu tirar do serio, o quanto tinha mexido comigo. Ela nem sequer imagina o quanto a minha vida está ou aquilo que passei. De mim…ela nada sabe. 



***

Finalmente aquela primeira noite de serviço comunitário tinha acabado. Nunca pensara que ajudar os outros cansava assim tanto e que me sentiria com os meus pés totalmente escalfados. Nem mesmo estar nas corridas me fazia sentir tão roto. Estava numa das salinhas a vestir o meu casaco e, quando me viro para trás, dou de caras com alguém a aproximar-se rápido de mim. Assim que pus os olhos nela, percebi que era Isabel. Assim que se apercebera que estava mesmo na sua frente fez questão, de num pulo, contornar-me, pegar nas suas coisas e sair dali a correr. Acabei por ficar estático a olhar para a porta. Nem sabia o que pensar…aquela cena tinha sido tão bizarra que deixou-me, pelas poucas vezes, sem palavras. Metia assim tanto medo? Por momentos pensei que ela tivesse medo que voltasse a empurra-la. Ou será que tem? Acabei por abanar a cabeça e sair dali. 
Mal cheguei cá fora, caminhei até à minha moto, sentei-me nela e acabei por pegar num dos cigarros que trazia dentro da caixa. Já há muito que não fumava e naquele momento era algo que precisava. Enquanto degustava o sabor da nicotina a entranhar-se confortavelmente pelas minhas narinas, apercebi-me de algo que estava bem a escassos metros de mim. Fiquei a mira-la completamente brava a tentar ligar o carro. Acabei por dar as ultimas passas e mandar o cigarro para o chão, e olhei novamente. Agora estava fora do carro, abrindo o capô e a tentar perceber alguma coisa. Confesso que estava curioso para ver como ela conseguiria desenrascar-se naquele momento. Bem…ela já me dera uma abada no bilhar, provavelmente também teria as suas habilidades na mecânica. Estava a colocar o capacete quando fui me apercebendo que ela não estava a dar conta do recado. Voltei a colocar o capacete no sitio, liguei a mota e dirigi-me até junto dela. 

- precisas de ajuda? – notei que ela fazia questão de me ignorar. Via-a entrar no carro e tentar ligar o carro mas sem sucesso. Acabei por descer da mota e juntei-me perto do carro a tentar ver o que poderia estar mal. Não precisei mais do escassos segundos para a ter ao meu lado.

- o que é que estás aqui a fazer?! – gritou-me

- é sempre bom voltar a ouvir a tua voz! – gracejei enquanto verificava o medidor do óleo.

- sai daqui! 

- o teu carro não pega, não estás a dar conta do recado…acho que não é hora de me mandares embora.

- não quero a tua ajuda – depois de verificar que os níveis de óleo do carro estavam bons e mesmo da agua, voltei a olha-la.

- provavelmente bateria do teu carro foi abaixo… - ela não me deixara acabar interpondo a sua voz muito mais acima da minha.

- SAI! – Voltou a gritar-me – não quero a porra da tua ajuda, afasta-te de mim!!! 

- Hei, só te quero ajudar, não vou propriamente roubar-te o carro ou o quer que seja!

- De ti não duvido de nada. Para quem me manda contra a parede é capaz de fazer tudo e mais alguma coisa! – Atirou-me à cara mostrando a sua face de quem estava completamente enraivecida pelo que fizera. Eu sabia que tinha trespassado os meus limites em fazer o que fiz, sabia bem disso…mas também não iria demonstrar isso mesmo. Jamais o faria. A mim ela não era nada, não passava de uma miúda mimada, egocêntrica, que achava que conseguia dominar tudo à sua volta com aquele feitio de durona. Portanto, não lhe iria pedir desculpas. Não tinha essa obrigação.

- se tu não me tivesses provocado nada disso teria acontecido!

- agora a culpa é minha?!

- tu provocas, admite! Tu gostas de testar o limite das outras pessoas, deves pensar que todos têm a mesma paciência para levar contigo! 

- tu é que começaste! 

- mas foste tu que viraste café a escaldar em cima de mim, se estamos aqui é por culpa toda e exclusiva tua! Porque achas que tudo tem de ser feito à tua maneira – agora estávamos de frente um para o outro – tens essa mania insuportável de nariz empinado, aquela que chega e pensa que o mundo é todo dela, que estala os dedos e tem tudo ao seu dispor mas tu não passas de uma egocêntrica, mimada, de uma otária! – dito isto eu só consigo sentir a sua mão a bater fortemente sobre a minha face. Sentia-a arder mas isso só me acabara de me deixar ainda mais furioso – isso bate! Vá lá, bate à vontade! Faz-te de forte! Faz-te daquilo que não és! – sentia-a a tremer completamente. Já nem conseguia distinguir se era de raiva ou de medo. Se as minhas palavras estavam a surtir efeito em si ou simplesmente se controlava para não partir para cima de mim.

- és um nojo! Não passas mesmo de um fraco, de uma peste! Sabes o que te desejo? Que sofras bem! Digo e volto a repetir, tu és uma merda, não vales nada! A melhor parte do meu dia é quando me relembro que daqui a uns meses estarei bem longe daqui e nunca mais na minha vida terei de olhar para a tua cara! – ela gritava-me completamente descontrolada. 

- ainda bem. Tu és só mais uma que passa na minha e que infelizmente não consigo tirar-te do meu caminho! – falei com todo o meu desprezo. Não poupei nem um pouco no escarnio com que lhe falava. 

- te odio, coño! 

- ainda bem que o sentimento é reciproco – dito isto virei-lhe costas, sentando-me na mota e sair dali a grande velocidade. Deixei-a sozinha e pouco me importei com isso. Aliás o meu maior erro foi querer ser piedoso e tentar ajudar uma pessoa que de nada merecia o meu esforço. Lembrei-me que, da ultima vez que tentei mostrar a minha compaixão, também me haveria arrependido. com isto só chego a uma única conclusão. Não vale a pena ser algo que no fundo não somos e nem o queremos ser, ou então tentarmos sê-lo com as pessoas certas. E sabia que ela não era a pessoa certa. Pessoas que queiram chamar a atenção não me atraem minimamente e sabia bem o quanto ela gostava de o fazer. Aliás, já me teriam dado esse aviso. Acabei por sorrir… não deixava de ser um pouco irónico estes nossos encontros e deparar-me com uma pessoa que incrivelmente se cruzava constantemente no meu caminho.



***

Novamente, não sei como consegui chegar a casa inteira. Sentia o meu corpo a tremer completamente…como eu o odiava! Coño, que cabrón! Ele tinha uma capacidade tremenda de me tirar do sério e levar-me aos infinitos e à vontade de querer cometar alguma loucura. Assim que cheguei ao meu quarto, bati a porta e depressa fui ao quarto de banho, ligar o chuveiro e enfiar-me lá dentro com a agua a escaldar. Precisava de esquecer estes momentos, de o tentar esquecer…do quanto ele conseguia de uma certa forma revolucionar a minha vida da pior forma. Como era possível uma pessoa ser assim? tão medonha…ele conseguia ser mau. Olhava naquele olhar o profundo vazio que se instaurava. Seria sempre assim? com pessoas tão boas a sofrer, porque não sofria ele? Merecia-o. De todo! Merecia sofrer! Que odío, que asco…acabava mesmo por odiar a mim mesma por perder-me em pensamentos por causa de uma pessoa que odiava profundamente. Acabei por sair da casa da banho enrolada no meu roupão. Assim que entrei no quarto deparei-me com a minha avó sentada na cama.

- hola abuela…

- estás melhor?

- eu? Sim…estou – estava um pouco confusa – mas porque me pergunta isso?

- já é a segunda noite em que chegas a casa completamente desnorteada e que mal paras na sala e enfias-te aqui dentro. Tenho motivos para ficar alarmada…estou certa? – perguntou-me sabiamente. Acabei por suspirar e sentar-me do seu lado.

- avó…é possível existir pessoas tão más? Que só sabem ver o mal nas outras pessoas ou simplesmente…você olha nelas e não consegue ver nenhum bem?

- com assim querida?

- o que é que torna as pessoas violentas? 

- Isabel…muita coisa pode tornar as pessoas assim. ninguém nasce violento ou com vontade de fazer mal. Normalmente se assim se tornam é porque algo nas vidas deles o obrigaram a ser. Porque algo foi incutido nessas pessoas que os fizeram ser assim…mas o que se passa? Alguém fez-te mal? – perguntou-me de imediato, com o seu olhar preocupado.

- não…quer dizer… - acabei por respirar fundo – mais ou menos.

- o que é que se passa contigo?

- oh avó…nem eu sei explicar! Ele…desde que ele se cruzou comigo que parece que tudo me acontece de errado. Eu não queria estar a sofrer de um castigo quando eu não sou assim…você sabe! Mas ele provoca-me, tira-me tanto do sério!

- estás a falar do rapaz que te envolveste?

- oh avó não fale nesses termos! – disse exaltada – jamais me envolveria com um asco como ele… - ela sorriu 

- sim, o Javi…é dele que estás a falar?

- sim, é dele. 

- acha-o violento?

- boa pessoa ele não é! – acabei por ripostar – ele tem atitudes reprovadoras, estupidas, mesquinhas! Ele é mau, avó! Nem imagina o quanto ele consegue ser manipulador, estupido, um verdadeiro…asco! Não gosto nada dele! Mas o pior é que inevitavelmente ele não para de se cruzar no meu caminho. E sempre que nos cruzamos é inevitável não haver faísca! – o olhar da minha avó era um pouco indecifrável. Olhava-me atentamente quase à procura de tentar analisar bem o que acabara de dizer. Acabou por abanar a cabeça enquanto me olhava com aquele seu sorriso tão característico e que acabava sempre por lhe dar um ar tão jovial. 

- o Javi não é má pessoa… - acabou por dizer, deixando-me estupefacta. Mas será que até a minha avó não conseguia dar-me razão? Era inacreditável! – não creio que ele seja mau como tu dizes. Não, ele não é…

- até você?! Até você acha que ele é boa pessoa?! – acabei por levantar – como é que todos vocês são capazes de dizer uma coisa dessas quando eu vejo o contrario? Serei a única a ver a verdade?! Joder, Avó ele não é boa pessoa! Não é. Vocês dizem isso porque não sabem tudo aquilo que já passei com ele!

- Isabel, senta-te – pediu sem perder o seu tom de voz calmo – anda lá…senta-te aqui, ao pé de mim – acabei por acarretar à sua ordem mesmo sem conseguir entender o porquê de a minha avó estar a dizer aquilo.

- você está tão enganada…

- ou então tu é que estás! Querida…eu sei bem quem é esse rapaz. Conheço-o desde que nascera e à família dele também. Acredita, ele não é essa pessoa toda que dizes. 

- então eu é que estou a inventar coisas é? – disse irritada – ele é a santa pessoa eu é que sou a má da fita!

- Isabel, não fales assim! – tentou chamar-me à razão – eu não quero dizer que ele é uma pessoa com as atitudes mais compreensíveis, não é isso, e muito menos que tu és a má da fita. Eu conheço-te e sei ver bem que tipo de pessoa és. Só que estás aqui há dias, é normal que aches isso tudo dele. Cariño…ele já passou por muito, teve a sua dose de sofrimento e acho que possas estar a julga-lo da forma errada. Porque é que não tentas dar uma oportunidade de tentar conhecer um outro lado dele?

- isso é impossível! Completamente impossível! Lá porque ele sofreu, isso não lhe dá o direito de ser uma pessoa mesquinha. Não preciso de conhecer lado nenhum dele porque já vi o suficiente. Muito sinceramente, prefiro não saber mais nada dele! Eu não entendo….juro que não. É você, a Adriana e a própria Marisol que não param de o defender! Começo a ficar um pouco cansada quando nem as pessoas que mais gosto sabem compreender o meu lado. A Marisol…não me espanta mas agora você e a Adriana…chega. Isto é demais para mim! – acabei por me levantar e entrar novamente na casa de banho. Sentia-me chateada. Eu queria vir para Múrcia para puder mudar de ares, estar ao lado de quem mais gosto, puder usufruir de bons momentos mas está a acontecer tudo ao contrario. Nem a compreensão da minha avó consigo ter. porquê? Porque é que toda a gente o defende? No final, fico sempre vista como aquela rapariga incompreensível…que odio! 

***

Acabei por acordar um pouco cansada. Mais do que me havia deitado. Já para não falar na dor que sentia no meu ombro e que estava mais forte. Tudo graças aquele asco…respirei fundo. Ter estes pensamentos logo pela manhã deixa-me tremendamente maldisposta. Acabei por vestir umas calças de ganga escuras, a minha camisa preta e por fim o meu casaco de cabedal preto. Estiquei um pouco os meus cabelos e por fim, desci até à sala de jantar para tomar o pequeno-almoço. Estavam todos na mesa e reparei que tinha sido a ultima a descer.

- buenos dias…

- buenos dias Isabel! – sentei-me no meu lugar habitual e olhei para a mesa. Nada do que ali estava me convencia e confesso que sentia pouca fome. Decidi-me pelo café amargo e umas torradas secas.

- só vais comer isso? – perguntava o meu avô

- sim…acordei sem fome nenhuma.

- fico impressionado com os hábitos que herdaste da tua avó e logo os piores! – acabei por sorrir perante a forma irónica com a qual ele falava. Olhei de relance para a minha avó e ela olhava-o de soslaio.

- é sempre bom saber que passado mais de cinquenta anos ainda consigas encontrar defeitos em mim! – pigarreou a minha avó. Ele sorria para ela de um jeito amável, sem nunca perder aquele brilho no olhar.

- pois bem, passei mais de cinquenta anos a incutir em ti o habito de tomar o pequeno-almoço algo que tu fazias sempre questão de evitar. Agora tenho a minha neta a seguir as tuas pisadas!

- voçe fazia isso à avó porque é a sua esposa a mim não precisa de fazer… - refutei a meu favor

- espero que quando arranjares um marido ele também faça o mesmo!

- vale…eu prefiro então que seja você a cuidar de mim! – respondi com um sorriso ternurento no meu rosto. Eu adorava quando ele cuidava de mim. Aquela figura paterna impunha um respeito soberbo já para não falar no carinho que me transpunha em cada palavra que me dizia. Eu amava o meu avô como se de um pai tratasse. Ele sabia bem como cuidar de mim…como me acarinhar ou até quando eu não estava bem, já sabia o que dizer. Adorava quando ficávamos horas e horas em frente à lareira e contava-me a sua história com a avó. fascina-me o amor deles…tão intenso, insano, tão arrebatador. E passado cinquenta anos eles conseguem amarem-se da mesma forma ou até mais. Conseguia ver isso pelo olhar que eles transpunham. Às vezes dava comigo a pensar se era possível amar da mesma forma como os meus avós se amam. Se um dia encontrarei alguém que consiga dar-me um pouco de amor que o meu avô lhe dava, se conseguirei amar sem sofrer. Eu sei que toda a gente sofre por amor e mesmo eles sofreram imenso para conseguirem ficar juntos mas eu não quero isso. Tenho pavor a sofrer uma desilusão de amor…não me sinto preparada. Nestes anos eu deixei de acreditar na possibilidade de ter o meu coração preenchido, sentir as ditas borboletas no estomago sempre que o via ou me beijava, perdi as esperanças de ter alguém do meu lado a desejar-me os bons dias, preparar-se surpresas ou simplesmente a dizer que eu conseguia ser a rapariga mais linda deste mundo mesmo que tivesse de mau humor ou acabasse de acordar. Simplesmente…tenho medo de me apaixonar e por isso é que me tornei na pessoa fria e racional que sou. Sinto-me incapaz de imaginar na construção de uma família, casar e passar anos junto de um homem. Como poderei pensar nisso se posso sofrer uma desilusão? Quem me garante que terei um amor eterno? Não me quero divorciar. Não quero ser traída e muito menos trair. Eu…só quero que me amem sinceramente e com todo o coração. Quero…mas ao mesmo tempo não quero. 

- Isabel? – Acordei destes pensamentos com a voz da minha avó. Olhei-a e reparei no seu olhar que incidia sobre mim.

- o quê avó?

- o Juan veio perguntar se queres boleia para a universidade…o teu carro avariou novamente?

- ah, sim se não se importar eu queria boleia. Ontem fiquei sem bateria no carro mas ela vai voltar a falhar. Tenho de levar para o mecânico.

- novamente? O que se anda a passar com esse carro? Já é a segunda vez que vai ser arranjado!

- alguém deve ter rogado uma praga, só pode…bem, me voy! Hasta! – acabei por me despedir dos meus avós e tios e, juntamente com os meus primos, fomos para o carro do Juan que nos levaria às aulas. Depois de deixarmos o Enrique no colégio, eu e o Francisco fomos para a faculdade. Ele era dois anos mais velho do que eu e apesar de jogar no clube de Múrcia e por vezes ser chamado à selecção, nunca prescindia dos estudos. Acabei por me despedir dele e entrar para o meu departamento. Previsivelmente, já estava atrasada para as aulas, o que não era de estranhar. O facto de a quinta ser um pouco deslocada do centro da cidade acabava sempre por ser chato. Ou atrasava-me para as aulas ou chegava a casa tardíssimo. Assim que abri a porta da sala reparei que a aula já tinha começado e todos os olhares ficaram centrados em mim. Apressei-me a sentar na mesa junto à Adriana, abri os livros e, enquanto tentava abri-los sem fazer muito barulho – tarefa essa totalmente complicada – um dos meus cadernos de farmacologia tinha caído ao chão. Preparava-me para apanha-lo mas senti uma dor nas costas que me obrigou a retrair-me.

- o que foi? – perguntou Adriana 

- é o meu ombro…acho que acabei de dar outro jeito… - respondi desolada e com algumas dores.

- chegaste a ver isso? colocaste gelo ou tomaste um anti-inflamatório?

- sim, fiz isso tudo! Mas agora que me baixei dei um jeito e sinto-me pior… aquele maldito cabrón…

- mete cabrón nisso. Ele foi um grandessíssimo otário! – olhei para ela. Confesso que estava admirada pela sua reacção um pouco surpresa para o meu gosto. Adriana tinha sempre aquela réstia de esperança de me fazer ver que ele seria uma boa pessoa e que eu é que via as coisas de um modo exagerado – o que foi?

- nada…mas tu gostas sempre de o defender. Apenas estou admirada…

- ele exagerou, não deveria ter-te feito isso! 

- mas ele ainda vai levar o troco…

- oh Isabel! 

- o que foi?

- tu gostas de brincar com o fogo…depois não te venhas queixar que te queimaste – acabei por encolher os ombros e seguir o meu olhar centrando-o sobre a professora que falava atentamente a matéria. Acabamos por passar as restantes três horas dentro daquela sala mesmo que a vontade não fosse muita e o espírito de fazer muitas outras coisas estivessem a sobrepor-se nas nossas cabeças.

***

Finalmente, a aula tinha terminado. Sentia-me exausta só de estar sentada a ouvir a professora. A matéria era chata, não gostava daquilo e sentia falta de esticar as minhas pernas. Eu e a Isabel tínhamos sido das ultimas a sair da sala, estávamos a sair da porta quando a Bela me chama.

- olha quem está ali… - acabei por olhar na sua direcção pela qual apontava e encontrei o Eduardo encostado nos cacifos. Assim que me olhou, desencostou-se, caminhando na minha direcção. Tentei ignorar.

- E? vamos para aquele lado, não me quero cruzar com ele.

- ui, o que é que se passou entre vocês? Ele deixou de ser fofo, foi? – inquiriu sempre sem deixar o seu sarcasmo de lado. Às vezes questionava o porquê de ela não ser uma pessoa normal. Nunca sabia até que ponto ela conseguia ser sincera ou sarcástica. Mas quando usava as duas coisas ao mesmo tempo era terrível. Apesar disso, eu gosto imenso dela. é como uma irmã para mim e nem imagino a minha vida sem ela.

- espera Adriana! – ouvi-o a chamar-me. Tentei ignora-lo ao conversar sobre o nada, com a Bela. Não demorou muito para que ele, com cuidado, pegasse no meu braço – por favor, espera! – acabei por olha-lo.

- precisas de alguma coisa?

- quero falar contigo. Por favor!

- agora não dá. Estou ocupada.

- por favor, eu não demoro mais do que cinco minutos…por favor Adriana deixa falar contigo! – ele implorava-me. Sei que estava chateada com ele mas aquele olhar estava a aniquilar a minha vontade de não falar com ele. Porra, porque é que as coisas tinham sempre de ser complicadas? Porque é que ele não respeitava o que havia pedido? Assim ele não estava ali, a implorar para falar comigo, não me colocaria na situação de me ver irresistivelmente forçada a aceitar o seu pedido. 

- tens cinco minutos.



- gracias! – disse com um enorme sorriso naquele rosto. Porra, novamente aquele sorriso…

7 comentários:

  1. Olá!
    Dios mio que isto anda feio! Nao esperava coisa diferente da Isabel! Eu mesma ficaria assim: no inicio na defensiva, com algum medo mesmo que nao admita. Afinal ele bateu-lhe, passou-se completamente e mostrou uma parte assustadora dele!
    Mas aquelas trocas de palavras feias até a mim me doem. Joder, se houvesse um concurso de "Quem consegue magoar mais com palavras" estes dois lutavam pelo podio!
    E juro que ia chorando a meio do cap! O Javi e a Maria tornaram-se nuns avós por fora mas nos eternos jovens apaixonados por fora! E a Maria? A Maria parece aquelas velhinhas com alguma magia à volta que aparecem nos filmes, tal como a minha D. Inés! Sempre com a melhor palavra, com aquela calma, a sabedoria... E ver o Javi ainda a cuidar da Maria é lindo... OMG quero chorar!!
    E a Adriana e o Eduardo? Ui fiquem curiosa!!!

    Besito
    Ana Santos

    P.S. No digas nada por favor que hablando el alma me destrozas

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  2. Olá
    Ameiiii *_* A Isabel é demais xD

    PRÓXIMO !


    Beijinhos


    Catarina

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  3. Olá!
    Desculpa não ter comentado o ultimo capitulo mas digo já que fiquei surpreendida com aquilo de o Javi ter empurrado a Isabel contra a parede e então a troca de palavras entre eles...ui...
    Estou bastante curiosa quanto à Adriana e ao Eduardo, quero ver como ele vai aproveitar aqueles cinco minutos :P
    Beijinhos
    Rita

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  4. E acabei de ler! Oh acabei de ler? Oh acabei de ler... :(
    Queria mais... Não há mais?
    Ai! Este Javi! Deixa-me completamente fora da minha pessoa. Ainda estou chateada pelo que fez à Isabel. Mas não sei, ele disse uma coisas que me deixaram a pensar que daqui a uns capítulos vou ter pena dele e vou ficar totalmente encantada com ele.
    Oh ele está a começar a arrepender-se e quis ajudá-la... E a Isabel? É tão casmurra, mas no lugar dela tinha feito o mesmo! Ela é mesmo pow pow pow! Adoro-a!
    Olha lá e isto da Adriana e do Eduardo? Eu quero saber o porquê do aborrecimento dela? O que é que ele lhe fez? Aiiii tu deixas-me com os cabelos em pé de curiosidade (o que não é difícil com o meu cabelo e com a minha curiosidade aguçada)
    Esta música... É tão linda!
    Besos!

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  5. Adorei adorei adorei.quero o próximo rápido.bjs

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  6. Gosto tanto disto!! O Javi tanto é um querido como é um bruto:( mas gosto dele!
    Adoro a Isabel, que mulher de garra!
    O Javi foi simpático ao ajudá-la com o carro, mas depois foi um parvinho ao deixa-la sozinha. Gostei dele ter ficado "sentido" por a Isabel tê-lo ignorado toda a noite... percebeu que fez asneira mas não dá o braço a torcer e pede desculpa.


    Adoro este fundo!!

    beijinhos

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