domingo, 14 de junho de 2015

Capitulo 19


A campainha tocou. Várias vezes tocava mas mesmo assim sentia um enorme peso na sua cabeça impedindo-a de se levantar. No fundo, não queria sequer acordar. Isabel podia contar as horas em que esteve acordada durante a noite e no quanto lamentava por aquele barulho a ter despertado. Mas quem quer que fosse, persistia e então, viu-se obrigada a levantar-se e seguir até à porta. Cambaleando pelos corredores, foi tentando despertar ao qual parecia uma tarefa impossível. 

- já vai… - com uma mão apoiada na parede e a outra na porta, conseguiu abri-la. A surpresa não podia ser maior ao deparar-se com aquelas duas pessoas na sua frente, tão bem conhecidas para si.

- o que fazem aqui? – A surpresa era bem visível no rosto de Isabel que não esperava ter os seus avós ali e aquela hora.

- podemos entrar? – perguntou Maria.

- claro! – respondeu de imediato Isabel – entrem… - Ela viu os seus avós a percorrerem aquele corredor até junto da sala – sentem-se. – Assim fizeram. Isabel aproveitou para se sentar no sofá ao lado – porque vieram aqui? 

- Para, de uma vez por todas, encerrar este assunto. Temos muitas coisas por esclarecer Isabel… 

- eu sei avô – respondeu enquanto encarava o chão 

- O que se passou ontem não deveria ter, de todo, acontecido. Em parte a culpa é minha por ter permitido que saísses de casa mas temos de esclarecer as coisas. Por mais que nós te amamos também temos ser rígidos em alguns momentos… Isto não pode ser assim! Querida, acredita que nos magoa imenso estarmos a dizer-te isto mas tens tido atitudes incompreensíveis e tens de admitir isso! Nós não sabemos ao certo o que se passou e o que andaste a fazer nessas corridas mas tens de perceber que não podia aceitar isso – Isabel olhou-a – o que se passa contigo? Sabes que podes contar connosco para tudo e nunca demos motivos para deixares de confiar em nós…

- deram sim – ripostou calmamente – quando prefeririam acreditar na Marisol e não em mim, quando não fizeram nada para ficarem do meu lado e defenderem-me! E tenho de confessar que a vossa atitude me magoou e muito!

- E porque é que lhe bateste? Tu nunca foste assim…nós sabemos que vocês não se dão bem mas porquê aquela atitude?

- pois não avó! tem toda a razão…nunca fui assim mas sabe uma coisa? Satura quando se ouve vezes e vezes sem conta que nós não somos nada. Ela mereceu aquele estalo e se pudesse dava-lhe mais! – Javi e Maria ficaram chocados a olharem para toda aquela raiva – cansa atirarem-me à cara que sou adoptada e que não sou do vosso sangue, que nunca poderei ser totalmente desta família porque não nasci de vocês! 

- Querida… - Isabel interrompeu Maria 

- avó, eu sei que vão dizer que para vocês eu sou como da família, como se tivessem o vosso sangue mas não podem negar que eu pertenço a outra gente… – um certo silêncio imperou ali.

- Isabel, nós viemos aqui para esclarecer as coisas e colocar um ponto final nestes mal entendidos…nós sabemos que erramos e tens razão quando falas que deveríamos ter-te defendido. Nós mais que ninguém te amamos e acredita, o amor que eu sinto por ti ultrapassa tudo – Javi pegou delicadamente na mão da sua neta – podemos não ser do mesmo sangue mas quem disse que é preciso sê-lo para amarmos infinitamente? Eu e a tua avó não somos do mesmo sangue e amamo-nos como tu vês… - Isabel começou a sentir vontade chorar. As saudades que sentia de receber carinhosamente todo aquele toque do seu avô… - não queremos que te sintas afastada e por isso pedimos para que todas estas coisas más sejas postas para trás e que daqui para a frente possamos recomeçar. Vamos acabar com isto minha muñeca? – pediu carinhosamente. Ela sentia-se a vacilar. Se por um lado queria infinitamente atirar-se para os braços das duas pessoas que mais amava, por outro, existia algo que a fazia vacilar. 

- por favor minha querida…nós fazemos de tudo para que voltes para nós! Ontem, morremos de medo com o que pudesse ter acontecido, não sabermos onde estavas, se passaste fome, frio, o meu coração não descansava por não saber onde estavas! 

- podem ficar descansados que eu fiquei bem! Estou aqui não estou? Apesar de estar zangada eu…eu também senti a vossa falta – admitiu – odiei passar a noite de natal sem vocês mas eu estava tão revoltada que não conseguia dar o braço a torcer! Estava magoada, triste…

- parte-me o coração saber que passaste a noite de ontem sozinha e que a culpa é nossa também e…

- Hei, avó não diga isso! a noite de ontem já passou e nem vale a pena falar mais sobre isso. é passado. 

- isso quer dizer que voltas para junto de nós? – a esperança era inabalável na voz de Maria.

- Isso quer dizer, avó, que eu quero acabar com o nosso afastamento mas antes…eu preciso da vossa sinceridade e verdade.

- sobre o quê? 

- Eu não sinto esta revolta toda porque quero…sinto isso porque não sei a quem pertenço. É isso que quero que percebam. Eu tenho outra família, um pai e uma mãe que me abandonaram e que andam por ai…será que tenho outros irmãos? Tios, primos? E quem são eles? Eu preciso de saber de onde venho para puder aceitar todo o vosso amor! Entendam isso, por favor…eu preciso de descobrir quem sou eu, de onde venho e mais do que isso, saber porque me abandonaram. Só assim conseguirei sentir paz e deixar esta revolta toda para trás. 

- nós fazemos tudo para que deixes de sentir essa revolta! Tudo mesmo…só queremos ter a nossa Isabel connosco e que não exista mais este afastamento!

- então digam-me porque fui abandonada! Eu sei que vocês sabem…sabem mais do que me contam! Quem foi que me encontrou na porta do hospital? Como é que eu cheguei até vocês? – Javi largou um suspiro pesado.

- Ouve Isabel…essa história tem de ser os teus pais a contarem-te.

- Avô, eles nunca me contarão a verdade. Só vocês me podem ajudar… - o desespero tomava conta do rosto de Isabel mas a angustia batia forte tanto no rosto de Javi como de Maria – por favor…façam isso por mim – Ela aproximou-se deles – seja o que tiver de descobrir, eu nunca deixarei de vos amar. Nunca… - sussurrou. Como poderiam aqueles avós renegarem um pedido daqueles vindo dela? Era algo pedido tão de coração, tão profundo, sentia-se toda a revolta e a necessidade de Isabel saber a verdade acerca do seu passado. Aquele era o momento propicio para acabarem com todas aquelas zangas e confusões e os três sabiam tão bem que para tal acontecer teriam de acarretar aquele pedido. 

- Mas o que queres saber? Nós também não te conseguimos dizer quem são os teus pais biológicos, nunca os vimos…não sabemos nada acerca deles.

- e que tal contarem-me como me encontraram, hum? – eles ficaram em silêncio. Talvez ninguém imaginasse o quanto custaria tanto a Javi como a Maria, remexer naquele passado – sabem…é que nunca acreditei verdadeiramente na história de ser deixada à porta do hospital. Não com três anos… - Isabel viu a sua avó a suspirar e percebeu que ela não conseguiria falar. Conhecia-a tão bem.

- Tens razão Isabel – Javi tomou a palavra – não foste deixada à porta do hospital – Javi olhou-a – queres mesmo saber?

- quero! – ripostou – sem mentiras, contem-me tudo. Todos os pormenores que podem pensar ser irrelevantes, digam-me tudo!

- Vale. Então…Tu apareceste no hospital porque estavas doente com uma meningite. Precisaste de ficar internada e os teus pais contaram que vinhas mesmo muito doente…magrinha, tão pequenina…pouco ou nada falavas, tinhas um olhar tão triste…Naquela altura era mais frequente este tipo de doenças, por isso não fiques assustada. Tiveste sorte porque encontraste uma equipa médica que te acolheu muito bem inclusive os teus pais, o Pedro e a Marina. Naquela altura eles estavam a fazer internato naquele serviço e como eles contam, assim que te viram, foi amor à primeira vista – Isabel sentia-se totalmente arrepiada – Não costumavas receber visitas dos teus familiares, apenas recebias as da tua mãe e eram poucas. Nunca viram o teu pai nem familiares…Ao inico ela visitava-te mas depois as visitas foram diminuindo até que…deixou de ir lá. Ficaste um mês no hospital sem receberes uma única visita. Foi aí que os teus pais contactaram a assistente social e descobriram que a tua mãe tinha deixado o sitio onde viviam – ela fechou os olhos – procuraram e nem com os dados que tinham vossos dava para saber o paradeiro da tua mãe. Descobriu-se que viviam num bairro perto da Amadora, não tinham qualquer familiares e os vizinhos nunca se mostraram receptivos em ajudar-nos. 

- Javi, por favor pára! – Pedia Maria que era capaz de sentir toda a dor que Isabel sentia naquele momento – isto são muitas coisas para digerir!

- Não! – Pediu Isabel – eu quero que o avô continue! – pediu com a sua voz trémula. Seria mesmo ela capaz de aguentar em ouvir aquilo? Nunca imaginara o quanto poderia doer ouvir aquela verdade doentia.

- Quando os teus pais chegavam a casa contavam-nos, todos os dias, coisas sobre ti… - um tímido sorriso surgiu no rosto envelhecido de Javi – que aos poucos ias melhorando e incrivelmente falavas mais vezes. Diziam que a primeira vez que tu sorriste foi como uma dádiva. Eles estavam a apaixonar-se por ti mesmo sem o querer. Chegou uma altura em que até eu e a tua avó fomos ao hospital conhecer-te…Oh querida, assim que te vi tu correste para os meus braços e eu abracei-te tão fortemente que foi uma sensação incrível! Não o conseguimos descrever…naquela altura já não haviam noticias da tua mãe e foi aí que a assistente social avisou que terias de ir para uma instituição. Nunca o permitimos…E aí está uma coisa que só nós e os teus pais sabemos. Como eles ainda não trabalhavam não podiam entrar na justiça para pedir a adopção e por isso tivemos de ser nós a fazer o pedido…Não foi fácil argumentar para ter a tua guarda mas com bons advogados, passado três meses eras nossa! Legalmente eras nossa filha e no primeiro ano em que estavas connosco recebíamos visitas da assistente social e como perceberam que vivias em boas condições deram o aval para os teus pais passado, dois anos, puderem ter a tua guarda definitiva. E o resto já sabes…

- e porque nunca me contaram isso? 

- a tua mãe não queria que soubesses a forma como foste abandonada. Ela achava que seria pior para ti…

- claro, a minha mãe e as suas teorias de como saber fazer as coisas à maneira dela! – resmungou visivelmente chateada.

- não a condenes Isabel! Ela só quis o melhor para ti.

- quem tem que decidir o que é melhor para mim sou eu! E tenho a certeza que os anos poderiam passar que eu nunca saberia disto. 

- Mas agora que já sabes podes ficar mais descansada!

- descansada? Não, nem pensar. Agora é que não vou desistir de procurar a minha mãe! 

- tu vais à procura dela?

- claro! Eu preciso de estar cara a cara com ela, saber porque me deixou no hospital e doente! 

- Não faças isso…

- ninguém me vai fazer desistir disso, ninguém! É um direito meu, tentar perceber porque me abandonaram… - A amargura estava bem carregada em todo o semblante de Isabel e mesmo que quisessem, nem Javi e nem Maria conseguiam faze-la mudar de ideias. E com isso sabiam também, o quanto aquela história a iria magoar o quanto iria sofrer pela descoberta do passado e só tinham o medo de ela não aguentar toda aquela pressão.

- vale…se assim o queres não iremos impedir. 

- Gracias. Pelo menos vocês entendem-me… - sussurrou. Estaria mesmo Isabel preparada para levar avante aquela história e desenterrar um passado que a poderia levar por caminhos perigosos? Ela não o sabia e nem tão pouco por onde começar. Sentia-se tão perdida naquele momento que nem chegar até à cozinha ela seria capaz de o fazer. 

- Como te sentes com isto tudo? – a doce voz de Maria interpelou os pensamentos amargos de Isabel.

- oh avó… - suspirou – nem eu sei…Já suspeitava que existia algo que não sabia mas custa. De qualquer das maneiras eu fui abandonada pela minha mãe. Seja à porta do hospital ou na cama da enfermaria, que diferença faz? Ela deixou-me na mesma, não minimiza os danos que causou… - gerou-se um silêncio – Apesar de me sentir triste e profundamente desiludida, zangada com essa pessoa que me deitou ao mundo, tenho de lhe agradecer. O que seria de mim se eu não vos conhecesse? – Isabel levanta-se sentando-se no meio dos seus avós abraçando-os – desculpem-me por tudo, de verdade. 

- oh meu anjo… - Javi deu-lhe um beijo carinhoso no rosto – te echamos de menos moñeca! Sejas do nosso sangue ou não…te amamos! – Aquele momento era especial e bom. A paz parecia estar a reinar novamente e não existia melhor sensação do que receber o amor de quem mais se ama e Isabel sabia disso. Por mais revolta ou incompreensão que existisse em si havia algo que não tinha preço e a isso chama-se Javier e Maria. As duas pessoas que em toda a sua vida lhe ensinaram o quão de bom a vida poderia ser. O amor, paixão, liberdade, sonhos…e em especial, o quanto os nossos sonhos poderiam caber numa só mão fossem eles do tamanho do mundo. Com vontade tudo se tornava real. Porque não? Com amor tudo se pode, tudo é possível. E aqueles avós, mais do que nunca, sabiam o quanto o amor podia mover montanhas o quanto conseguia ser improvável. E aquele momento valia ouro e não havia nada que o pudesse substituir. 

~



E ali estava. Isabel voltava à quinta mas ainda não era para voltar. Prometera aos seus avós que pensaria imenso em voltar a viver mas por enquanto preferia dormir no apartamento e visita-los esporadicamente, talvez assim as coisas fossem ao normal de uma forma natural sem forçamentos. Assim que colocou o pé sobre aquele soalho já gasto pelo tempo, não pôde deixar de ouvir os gritos puros que ecoavam por aquela sala e depressa os identificou. Os seus primos mais novos estavam ali…Mal a sua presença se fez soar imperatoriamente, todos a saudaram calorosamente o que surpreendeu. Espera um certo desconforto mas no lugar disso estava a alegria de a ter ali. Talvez, lá no íntimo, ela não fosse assim tão transparente ao ponto de passar despercebida no seio da sua família e talvez, pudesse ela admitir, eles sentiam a sua falta e isso deixou-a estupidamente feliz. 

- voltaste… - a voz incuriosa de Marisol interrompeu os pensamentos de Isabel, que se mantinha a observar o jardim através da janela.

- É…parece que sim – respondeu secamente sem querer se alongar. Isabel sabia que a sua prima queria discutir, via isso pelos seus olhos que escapuliam raiva e rancor. 

- Por quanto tempo será? – insinuou – é melhor não desfazeres as tuas malas, só pela duvida…

- Não te preocupes que eu só venho aqui a visita. Podes sorrir à vontade que eu ainda não voltei definitivamente! Escusas de esconder a tua satisfação por isso. – Marisol sorriu.

- O teu lugar não é aqui…por isso e como eu sei que daqui a uns meses vais embora…tanto faz. Até podes voltar agora mesmo a dormir aqui, só em saber que em Julho voltas para Portugal eu sinto-me feliz! – Era incrível toda aquela inveja que Marisol transpunha e que agora já não fazia questão de esconder. Isabel precisou de respirar fundo ou então era tão provável que partisse para cima dela e lhe desse aquelas tão desejosas bofetadas. 

- Ah! E já agora…como foi o Natal por aqui? Foi bom?

- Óptimo. Estivemos todos felizes…juntos e em família – Isabel, ouvindo-a, lançou um sorriso maldoso ao qual, ainda sem o mostrar, Marisol ficara um pouco reticente. 

- Que bom! O meu também foi óptimo sabias? Não estava em família mas a companhia do Javi até que foi boa! – Isabel viu a sua prima a comprimir-se totalmente – Encontramo-nos por acaso na rua e ficamos a conversar, a beber umas cervejas e a comer uns cachorros quentes na rua...

- não acredito – atirou secamente – estás a mentir.

- por acaso até não estou. E antes que me esqueça, tenho de te agradecer…se não fosses tu e aquela nossa conversinha, eu não teria tido uma noite como a de ontem. E não é que o Javi até consegue ser… - ela parecia encontrar a melhor palavra enquanto via a sua prima a controlar-se – calmo? Bem…pelo menos não discutimos!

- callate! – gritou – tu odeias o Javi e só dizes isso para me descontrolares! 

- Quem? Eu descontrolar-te? Oh Marisol…perdes o teu tempo a pensares isso. Mas queres um conselho já que gostas tanto dele? Liga-lhe. Quando estávamos juntos ele recebeu uma chamada que a irmã estava desaparecida. Fomos ambos até à casa dele e era visível que estava perturbado com o acontecimento… Deverias mostrar um pouco de solidariedade não achas? – Marisol respirava descontroladamente e com uma vontade louca de gritar-lhe - Ele não estava mesmo nada bem…até adormeceu junto da cama da irmã. Eu vi…já agora, tenho de admitir que tens bom gosto. E não é que o Javi até…um querido a dormir? Até fiquei comovida com aquele amor todo pela irmã! – Isabel já não escondia a sua satisfação em ver Marisol a contorcer-se fortemente de raiva e incredulidade com o que ouvia – Pensa neste conselho… - Dito isto vira costas e com um sorriso a delinear completamente o seu rosto bem ciente do quanto tinha deixado Marisol à beira de um ataque de raiva e de escândalo. 

~



O dia que se adivinhava era de total confusão. Faltavam apenas dois dias para o ano novo e naquele aeroporto a confusão era geral. Isabel encontrava-se em Lisboa para passar o resto das festividades na cidade portuguesa. De cada vez que olhava para cada canto dali sentia as saudades e o quanto ela sentia falta da sua cidade. Tinha passado três meses em Múrcia, nem dera pelo tempo passar. Apressou-se a chamar um táxi e rumar até Oeiras, à sua casa. O dia estava chuvoso e o vento persistia por aquele lugar…Isabel já não sabia o que era sentir o tempo lisboeta e apesar das semelhanças com o tempo de Múrcia, aquele lugar era característico. Assim que o carro parou enfrente à moradia, apressou-se a pagar e pegar na sua mala, chegou perto do portão abrindo-o com a sua chave. Sabia que àquela hora os seus pais não estavam em casa mas era provável que a sua irmã Inês estivesse. E como era suspeito, assim que abriu a porta pôde ouvir a música alta que se fazia ouvir do piso superior. Acabou por sorrir…era tão típico daquela rapariga adolescente em ouvir metálica e fazia-o sempre que os pais não estavam presentes já que a sua mãe repudiava aqueles estilos musicais. Sorrateiramente, subiu até ao segundo piso e chegou até junto da porta do quarto. Abriu-a e encarou a sua irmã, que se encontrava deitada e com os pés pousados na parede, enquanto lia uma revista. Chegando até junto da aparelhagem, baixou o som e depressa Inês ergueu-se, quase como se naquele instante tivesse levado com um choque eléctrico.

- Mãe, desc…Isabel!? – perguntou totalmente surpreendida por ver a sua irmã ali.

- Buenas hermanita! – saudou - respira, não sou a mãe! – brincou. Sem contar com tal, e com a sua irmã ainda em cima da cama, viu-a a lançar-se sobre si abraçando-a fortemente. Isabel precisou de se amparar, de todo esperava uma atitude tão afectuosa por parte de Inês.

- boa, voltastes! – Inês desprendeu-se dela – bem… - ela levou a mão ao peito – que susto. Juro que por momentos fosse a mãe. Ela é que tem a mania de me desligar a aparelhagem! E sem falar que estou proibida de ter a musica alta e bla, bla…bla! – Isabel sorriu

- de castigo outra vez, não me digas?

- quem, eu? De castigo? A mãe é que não sabe apreciar musica! – Ela abanou a cabeça.

- Vale…estás sozinha?

- hum, hum… - Isabel franziu a sobrancelha – Ok, a Manuela está lá em baixo na cozinha mas ela não vai dizer à mãe até porque eu disse-lhe que em troca do seu silencio eu arranjava-lhe os discos todos do Tony Carreira!

- Inês! – advertiu Isabel.

- o que foi? É justo! 

- tudo bem…estou a ver que por aqui nada mudou na minha ausência! 

- e por quanto tempo vais ficar? 

- três dias. No dia dois já volto para Múrcia…

- Oh…e quando me levas para Múrcia? Olha, podias dar a desculpa à mãe que quero visitar os avós, os tios, os primos…por favor, por favor! – Isabel sorriu sorrateiramente

- está bem…vou pensar no teu caso! 

- mas pensa com carinho, prometo que tornar-me-ei a melhor irmã que possas ter! – Isabel abanou a cabeça, e dando meia volta, saiu dali. Ficou parte do tempo da tarde a desfazer a mala e percebeu como se sentia diferente ali. Tinham-se passado apenas três meses desde que deixara Lisboa mas pareciam anos. 

Perto da noite, os seus pais chegaram a casa e a alegria de terem a filha de perto fora enorme e até em Marina, notava-se toda a alegria que sentia em ter Isabel por perto. Esta, por sua vez, queria falar sobre a conversa que tivera com os seus avós a respeito da família biológica mas sentiu que aquele não era o momento para tal. Nem naquele nem nos dias que se seguiram. A azafama tivera sido tanta que, entre visitar os seus amigos, estar com Adriana e fazer as ultimas compras para a passagem de ano, não sobrara tempo nenhum para tocar naquele ponto. 

A noite tinha sido agradável. Típica de ultima noite do ano em que todas as pessoas dedicavam segundos para conceberem os últimos desejos do ano. Isabel não era excepção à regra e desejou, mais do que tudo, para que conseguisse descobrir alguma coisa sobre o seu passado. Desejou de tal maneira que mal poderia imaginar o quanto isso poderia mudar a sua vida. Em todos os sentidos…

~


Tinha chegado o momento de regressar a Múrcia, as festas tinham acabado e a hora de regressar às rotinas tinha começado. Apesar de ainda ser presente as luzes natalícias espalhadas pelas ruas, notava-se que uma nova pagina se havia virado e que novos costumes ou novas regras tinham de ser implementadas. Mas se muitas coisas tinham mudado outras permaneciam intactas, tal como, existir a rotina de acordar cedo e ir para a faculdade. Já passavam das nove horas da manhã quando, Isabel, Adriana, Renato e Ricardo, chegaram para mais um dia de aulas. Os quatro amigos acabaram por se separar, cada um para as respectivas salas, e sentiam que não estavam preparados para um dia massacrante.

- Bela…o que dizes de logo à noite irmos tomar um café? – Isabel e Adriana já se tinham sentado nos bancos da sala.

- Por mim…amanhã como não temos aulas de manhã, pode ser. Temos de falar com os rapazes.

- vou mandar mensagem… - A aula tinha começado e a conversa ficara por ali. As próximas horas foram passadas da mesma forma e só se haviam visto livres daquela tormenta, quando o relógio marcava, incessantemente, as sete horas da tarde. Estavam à espera dos rapazes junto à porta de entrada, quando Isabel reparara na chegada de alguém, junto ao estacionamento. Também ele dera pela sua presença. Tinha-se passado uma semana desde aquela noite de Natal e nunca mais, tanto Isabel como Javi, tinham-se visto.

- Adriana, já volto… 

- ah? Onde vais? – Isabel não respondera, simplesmente caminhara até junto dele que se mantinha perto da mota.

- Hola… - Javi olhou-a.

- Hola.

- Vim só saber se está tudo bem com a tua irmã…

- Sim, está. Obrigado pela preocupação. – Javi não se alongara mais e Isabel percebera que aquele era um assunto ao qual não queria prolongar-se. Comprovando isso, era a insignificância com a qual Javi tratava a sua presença, continuando a arrumar as suas coisas na mota. 

- vale…me voy! – Isabel virou costas e depressa saiu dali, juntando-se a Adriana que mantinha-se curiosa a olha-los – vamos embora – dissera, assim que chegara perto da amiga.

- O que foste fazer até junto do Javi? 

- perder tempo – respondera secamente – foi o que fui fazer! Perder o meu tempo com pessoas bipolares… - resmungou baixinho enquanto se encaminhava para junto do carro, sem dar hipóteses de Adriana acompanhar o seu raciocínio.

- Então? O que foste dizer? Diz!

- Fui perguntar se estava tudo bem com a irmã dele. Afinal fiquei sem saber como as coisas acabaram…

- O que ele falou?

- que estava tudo bem.

- E não era isso o que querias saber?

- Era – respondeu secamente enquanto entrava para dentro do carro. Adriana fizera o mesmo.

- Então porque estás com essa cara de ruindade? – Isabel olhou-a perplexa.

- Porque…ele escusava de ser tão rude! Aliás, como sempre foi e será! – resmungou – Otário…

- hum…estou a perceber – Adriana soltou uma pequena gargalhada.

- Estás a rir-te porquê?

- Já percebi essa cara…

- eu estou normal!

- Oh sim…mas não precisas de admitir. Eu sei que tu esperavas que depois daquela noite de Natal, o Javi fosse mais brando para ti e o que encontraste foi alguém que acabara de te ignorar. – Isabel tinha-lhe contado o que se passara na noite de Natal, inclusive como se tinham encontrado e como esta acabara. Mas a sua amiga olhara-a com tamanha perplexidade que nem dera conta do tempo que permaneceu assim. 

- Não é nada disso! – tentou defender-se.

- É sim! Viste um Javi diferente do que estás habituada e acaba por ser normal que esperas que da próxima vez que estivesses com ele as coisas pudessem ser diferentes. Não me mintas Bela! Conheço-te…podes ter um feitio difícil e detestares quando as pessoas são rudes, tal como dizes que o Javi é, mas no fundo ele surpreendeu-te e tu gostaste disso. Confessa que gostaste de ver um lado dele mais despreocupado e calmo…e esperavas que ele mantivesse assim, que mal chegasses ao pé dele fosse falar contigo mais tempo. Não sei o que ele te disse exactamente, mas tu não gostaste. 

- o que se passou na noite de Natal é passado. Ponto. Foi algo fora do normal e eu não esperava que as coisas se mantivessem iguais, tanto que nem quero que se mantenham! Não quero ser amiga dele, percebes? Fui apenas junto dele por causa da irmã, nada mais! E vamos fazer o favor de não falar mais sobre isto.

- vale amiga, vale… - Isabel bubafa – posso só dizer…uma coisa? – perguntou a medo pois já sabia qual seria a reacção de Isabel.

- não! Se for para dizeres asneiras mais vale ficares calada!

- okay, vou dizer na mesma e assim aproveito logo esse teu mau humor – Isabel não esperou que a sua amiga continuasse e por isso, ficara a olhar pela janela – o Javi trocou-te as voltas todas…e nem venhas negar o contrário, não a mim! Podes espernear-te toda a dizer o contrário mas ele mexe contigo!

- Andatte à la mierda Adriana! Andatte à la mierda… - Adriana acabou por sorrir pois sabia que, indirectamente, a sua amiga acabara de confirmar. Conhecia-a demasiado bem para saber disso e, por tal, tinha a certeza que a história daqueles dois iriam muito mais avante, tivesse o destino que tivesse mas Isabel e Javi iriam acabar de uma forma totalmente irrevogável, contrariando assim, a forma de como se conheceram. 

~



Os dias foram passando pela cidade de Múrcia e finalmente o mês de Janeiro tinha passado. Entre aulas e trabalhos, ninguém se apercebera da rapidez com a qual os dias passavam nem tão pouco que estavam no mês de Fevereiro. Contrastando com tal, existiam ainda coisas das quais não tinham mudado. Isabel continuava a viver no apartamento com os seus colegas, acreditando que era cedo para voltar para a quinta, contraditando a vontade que os seus avós tinham de a receber em casa.

A semana passava e a cidade marcava as festividades locais, nomeadamente a chegada da feira popular. Particularmente, tudo parava e ninguém conseguia perder pitada de todos os acontecimentos daquela grande festa. Era um dos momentos mais altos daquela cidade, onde todos sem excepção, a visitavam.

- Achas que devo levar este vestido ou o outro? – perguntava Adriana depois de revirar o armário inteiro à procura de uma peça de roupa para puder usar.

- quantas vezes é que experimentaste esse vestido? – perguntava Isabel

- é a segunda. Mas quis voltar a experimentar…não sei, não combina muito bem com estes sapatos.

- Esquece esse vestido! Leva o outro, já te disse que ficava melhor.

- hum…tens razão.

- enquanto acabas de te vestir eu vou fazer uma chamada…

- hum, não me digas…vais sair com o Marcos? – perguntou curiosa.

- por acaso vou! 

- As coisas estão a ficar sérias entre vocês os dois…

- não! Para já…somos amigos. Quer dizer, amigos coloridos mas não irá passar disso! 

- porque não?

- Dri…o Marco até pode ser lindo de morrer e tem o seu charme, sabe como conquistar uma rapariga mas sei que não passará disso. Se tivesse que me apaixonar por ele já tinha acontecido!

- Isso não é bem assim…podes sempre te apaixonar por ele!

- joder! Para quê? Eu vou embora daqui a cinco meses por isso não estou em alturas de paixões. Ao contrário da senhora… - insinuou – O Eduardo… - Isabel parecia ter visto a sua amiga a corar.

- O Eduardo…bem, ele é um querido! – Ela sentou-se perto da sua amiga.

- Tu gostas dele?

- Gosto…a valer. Acho que estou apaixonada por ele. Mesmo. E o pior é que nunca senti isto por nenhum rapaz…

- Eu só não quero que tu te magoes, já percebi que o Eduardo até é boa pessoa e ninguém é burro para não perceber que vocês os dois estão pelo beicinho mas temos de ser realistas amiga…daqui a cinco meses vamos embora e tenho medo que isso possa vos balançar. 

- Eu sei Bela…já pensei muito nisso mas desta vez quero arriscar. Estou segura disso e se der mal…no final fico com a sensação que todo o tempo junto dele valeu a pena. Prefiro arrepender-me do que fiz do que poderia ter feito e não foi!

- Vale… - Isabel esboçou um sorriso – vale amiga! Então desejo que dure e se não durar, já sabes onde hás-de chorar! – Adriana sorriu uma gargalhada.

- parva…mas obrigada. Eu sabia que ias compreender.

- claro que ia, és minha amiga! Desde que estejas feliz…é o que interessa.



~

- Mira, que guapa! – Isabel tinha acabado de chegar ao recinto da feira e depressa encontrou-se com Marco. Apesar de não existir uma relação entre ambos, iam saindo aos poucos e a atracção que nutriam também aumentava. Era difícil resistir aos encantos dele, Isabel sabia disso e dos riscos que acabava por correr mas naquele momento esse assunto era algo que queria afastar por completo. Precisava de aproveitar todos os momentos daquela festa.

- Exagerado… - desvalorizou. Ele fora-se aproximando dela, acabando por abraça-la pela cintura, aproximando o rosto de ambos.

- Antes estivesse…assim não sentiria esta vontade enorme de te beijar – Ela soltara um sorriso abafado.

- e o que te impede de o fazeres? – Ele sorriu e acabou mesmo por juntar os seus lábios aos dela. Beijara-a com suavidade mas depressa prolongaram aquele beijo dando lugar à vontade que sentiam daquilo. Tinha sido algo bom mas longe de sentir aquele formigueiro típico de um primeiro beijo. 

- agora sim…a noite está a ser boa! – Isabel não se coibiu de gargalhar para que, de seguida, o voltasse a beijar. Acabaram por dar uma volta pelo recinto e a noite parecia estar animada. Pararam junto a uma barraca onde disfrutaram de bebidas frescas e assim pernoitaram por um longo período. 

- Sempre gostei de jogar nisto… - Tinham parado junto a um camião repleto de prémios. Uma das grandes atracções das feiras e que toda a gente que ali passava se habilitava a ganhar prémios.

- verdade?

- sim…para além de ser atracção aqui, em Lisboa também o é. O meu pai sempre que jogava trazia-me um prémio…

- mas queres algum? - perguntou-lhe Marco.

- claro que sim! Apesar de o meu pai me oferecer eu jogava imenso com os meus primos e ganhava sempre algo! - relembrava Isabel enquanto mirava o enorme camião com os diversos prémios à disposição. Naquele instante tinha chegado Adriana que vinha a conversar com Eduardo juntamente com Ricardo, Renato e os colegas de turma. Isabel reparou que Javi também se juntara com eles e assim que os olhares deles se cruzaram, ele fez bem questão de a olhar de uma certa forma reprovadora. Reparou também nos olhares que ele lançava a Marco. 

- Isabel!! - Adriana juntou-se a ela. Marco acabou por se afastar um pouco cumprimentando um grupo de amigos seus que também tinham chegado - então como está a correr o passeio...com o jeitoso do marco? - ela riu-se 

- muito bem! estou a gostar de conhecer aquele seu lado...misterioso!

- misterioso e bem interessante!

- hei, dedica-te ali ao Eduardo que eu dedico-me ao Marco! - ela acabou por referir este comentário um pouco alto ao qual Javi o conseguira ouvir. acabou mesmo por ficar atento à conversa delas.
- é...vê lá se isso não dá mais do que amizade... 

- também...não tinha nada a perder! - acabaram as duas por se rirem perante aquela conversa 

- eu vou ali e já volto... 

- está bem - Isabel acabou por ficar sozinha mas por questão de segundos. Depressa sentira a presença de alguém junto de si

- andas com o Marco? - perguntou sem a olhar.

- o que tens a ver com isso?

- afasta-te dele - avisou-a depois de uns breves segundos de silêncio. 

- desculpa, desde quando é que decides o que eu faço? 

- já te disse...ele não é pessoa para se confiar.

- porquê, tu és? - ripostou levando Javi a sorrir ironicamente

- depois não digas que te avisei...princezinha... 

- coño! 

- passa-se alguma coisa? - Marco acabava de chegar e mostrava bem o quanto não estava a gostar de ver Javi perto de Isabel.

- não...não se passa nada!

- tens a certeza? - Marco lançava um olhar desdenhoso a Javi e este quase que escapulia faíscas do seu olhar. Era nítido toda a tensão existente entre ambos o que acabou por intrigar Isabel. Porquê tanto ódio entre eles?

- já disse que não!

- então? qual é o prémio que queres que ganhe? - perguntou Marco com um sorriso no seu rosto, ignorando assim a presença de Javi. 

- aquele! - Isabel apontou o dedo para a parte de cima da montra - quero aquele peluche grande! 

- o maior? 

- claro! não me digas que não consegues ganha-lo? - Marco olhava para lá e sabia que para o ganhar teria de acertar em cheio nas bolas todas o que era algo difícil. Mesmo assim não dera o braço a torcer. 

- por ti...eu consigo tudo!

- optimo! quero então aquele peluche, o maior!! - Isabel lançou um olhar trocista a Javi que assistia aquela cena toda. Marco deu-lhe um beijo nos lábios acabando por sair do pé dela, chegando-se para junto do balcão. o jogo consistia em deitar as bolas todas ao chão mas para isso tinha de fazer tudo de uma só vez, numa única oportunidade. Só assim conseguiria ganhar o maior prémio, o peluche que Isabel pedira. Começou por lançar a primeira seta mas só conseguira derrubar sete bolas, sendo que ao todo eram dez.

- parece que o teu namoradinho não te trará o peluche... - espicaçou Javi com um ar completamente de gozão. Isabel olhou-o de soslaio.

- deves ter muito a ver com isso...

- olha, sabes que nem qualquer um consegue derrubar as dez bolas de uma só vez! - ela riu-se 

- hum, hum...porque tu deves conseguir! - ironizou

- sou bem capaz disso... 

- dá-me gozo dá... 

- queres pagar para ver?

- só se fosse muito otária! 

- hum...só um bocado!

- que cabrão... - sussurrou

- olha que eu ouvi!

- ainda bem que ouviste!

- só é pena falares muito baixinho! 

- és mesmo estúpido! - resmungou - vê-se mesmo que ninguém te quer... 

- a ti também não!

- o quê?! - ela olhava-o incrédula

- sim, a ti também ninguém te quer! só mesmo aquele playboyzinho que...não sei se sabes...mas tem a fama de gostar bem de petiscar todos os iscos da cidade! - ele ria-se - ao qual tu caíste bem no seu anzol! - Isabel olhava-o incrédulo

- presunção e agua benta... 

- o que foi? não queres admitir? - Javi ria-se maliciosamente ao reparar na cara de zangada que Isabel apresentava.

- não tenho nada para admitir! não sou como certas pessoas...que a bipolaridade lhes afecta o cérebro todo.

- presumo que estejas a falar de ti mesma ou então do teu namorado. – Ela sentia-se a ferver. 

- então não eras tu que dizias ser capaz de ganhar o maior prémio? – Isabel quis mudar de assunto – quero ver onde és capaz disso! – Javi olhou-a atentamente.

- não deverias duvidar do que sou capaz – avisou-a olhando-a cuidadosamente – já te dei provas de que faço o que cumpro.

- Quero ver isso – insinuou mostrando todo o seu cinismo. Por breves instantes entreolharam-se mostrando toda a tensão que aquele momento mostrava, contrastando totalmente com a noite de Natal, onde tinham passado um momento agradável e calmo. Se ele seria capaz de ganhar o maior prémio? Não sabia mas nunca mostraria a sua parte mais fraca nem tão pouco recusaria um desafio, não para Isabel. Nem tão pouco deixaria escapar a oportunidade de puder ganhar um duelo com Marco, portanto, tudo ali o aliciava com tamanha adrenalina para se juntar, de imediato, ao camião. Já Isabel olhava-o com a sua determinação e depressa sentiu as suas pernas a fraquejar. A sua garganta secou e depressa desejou que aquele momento acabasse, arrependendo-se de imediato de o ter desafiado. 

Assim que chegara junto do camião, arregaçou as mangas do seu casaco. Marco olhou-o de soslaio.

- que haces aqui? – perguntou secamente. Para Javi, ouvi-lo provocava em si náuseas e ninguém conseguia imaginar a força que tinha de fazer para se controlar.

- vim dar-te uma ajudinha – ripostou. Olhando para a caixa de onde se encontravam as setas, pegou numa e depressa a atirou contra a parede. Tinha acertado. – Falta-te pontaria. – Marco deixou escapar um sorriso malicioso. Pegara numa seta e, com toda a sua força, atira-a acertando ao lado. A parede do caimão abanara com tamanha força, deixando o empregado de olhos arregalados. Javi não se deixara ficar e, os minutos seguintes, foram passados numa disputa renhida para ver quem ganhara o grande prémio. Tanto Isabel como os restantes que ali estavam, notaram a tensão e rivalidade que ali existia. Chegara ao fim da rodada e nenhum estava disposto a ceder.

- A ronda acabou… - anunciou o empregado nervosamente. Olhara para a parede dos jogos e via-a quase destruída com a força com que eles lançavam as setas. Nenhum deles o ouvira e Javi, olhando em seu redor, percebeu que não existia mais nenhuma caixa de setas – se quiserem podem ficar com o prémio mais pequeno, recebem aqueles peluches mais pequenos.

- Joder! – exaltou-se Marco – quero mais uma caixa de setas! – gritou

- não há mais… - gaguejou o empregado – vocês destruíram-me a parede toda! Têm sorte de não vos obrigar a pagar os estragos!

- puta mierda! – exaltado, Marco empurra, violentamente, as caixas que ali estavam assustando o empregado. Isabel, vendo os ânimos exaltados, chega perto deles.

- Hei! Chega…esquece o peluche. Vamos embora!

- Nem pensar! Eu…

- Já disse, vamos embora! – interrompeu-lhe – vamos – Isabel pegara-lhe na mão tentando-o tirar dali mas Marco não tirava os olhos de Javi, que ainda permanecia junto deles.

- sabes…é muito feio quando não se cumpre uma promessa… - desdenhou Javi, vendo Isabel e Marco a abandonarem o local. Ambos olharam-no – que falta de apreço com a tua namorada, Marco.

- o que é que tu queres? – Marco lançou-se à frente sendo depressa barrado por Isabel.

- Fazer aquilo que tu não foste capaz de fazer – Ele olhou para Isabel, deixando escapar um sorriso malicioso – tenho por norma cumprir as minhas promessas, por isso… - Javi, virando-se para o balcão, lança-se sobre ele, saltando para cima. Depressa uns burburinhos se ouviram.

- sai dai! Eu vou chamar a policia!!! – gritou o empregado.

- Sai daí Javi! – Atónica, Isabel olhava-o sem saber quais as suas intenções e apenas conseguia ter noção de que o seu coração disparava fortemente. Já Javi, subira um pequeno degrau de forma a conseguir alcançar os peluches que estavam pendurados no tecto do camião.

- Eres loco, sai daí Javi! Vais cair!

- Qual é o que queres? – Gritava Javi, esforçando-se para se equilibrar.

- nenhum!! Saí daí! – gritava Isabel sentindo o pânico a apoderar-se de si.

- diz-me! 

- não!

- Puta madre, diz-me qual é o que queres!! – gritava, tornando-se nítido as suas veias salientes.

- não!! Tu és louco, sai daí!

- Joder, ou dizes-me qual o que…

- vale, vale!! – gritava – quero o da direita! – cedera. Javi assim fizera e tirara o peluche que estava ao seu lado. Tendo—o na sua mão, salta do degrau para que, de seguida, saltasse do balção fora. Era bem visível a sua respiração ofegante juntamente com a sua testa onde o seu suor escorregava. Ainda atarantada com aquele momento, Isabel via-o a entregar-lhe o peluche.

- toma, é teu… - Com a respiração totalmente descontrolada e rouca, Javi desaparecera dali, por entre a multidão, deixando Isabel com o peluche na mão ainda com os seus pensamentos completamente parados, totalmente descontrolados.

- deita-me isso fora!! – gritava descontroladamente Marco. Por momentos, Isabel focou a sua atenção nele ao senti-lo a tentar tirar-lhe o peluche.

- não! 

- não, o quê? Vais deitar isso fora e nem penses em aceitar alguma coisa daquele palhaço! 

- que eu saiba ainda decido as minhas decisões, por isso o peluche fica comigo! – gritou-lhe.

- Vamos embora, o circo já pegou muito por hoje… - Isabel ainda ouvira Marco a disparatar mas por momentos desligara-se disso. Sentia demasiado a sua cabeça à roda e ao olhar para aquele peluche na sua mão fazia relembrar do que tinha acontecido em momentos instantes. Nada parecia real e não fazia sentido nenhum…Tinha todos os motivos para estar irritada com Javi, sentindo que era errado ter roubado o peluche daquela forma mas, em vez disso, estava um sentimento de incredulidade perante ele. Será que Adriana estava certa e Javi havia-lhe trocado as voltas? Não…seria impossível aceitar isso, detestava-o e só queria distância dele. Porém, em vez disso, parecia que o destino só se encarregava de os juntar. Quando mais remava mais a maré a obrigava a voltar à praia, sendo que, uma coisa estava garantida…Isabel ainda sem saber iria remar diversas vezes contra a maré, até que, um dia a única solução será deixar-se levar. 

***

Mil perdões!!!! a todas vocês, peço imensa desculpa por estar tanto tempo sem postar! Eu nem consigo arranjar uma desculpa plausível que justifique tanto tempo ausente mas finalmente consegui acabar este capitulo e espero que a espera tenha valido a pena! 
Tentarei não vos voltar a desiludir...e quero agradecer às leitoras resistentes, sem vocês não sou nada!
beijos a todas!
Bons Santos populares, boa sorte para os exames e para quem trabalha, um bom trabalho!

Diana Ferreira









quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Capitulo 18


«Tu não escolhes de quem vais gostar, de quem vai ser teu amigo ou para quem vais entregar o teu coração e seu amor. Mesmo que a pessoa não mereça, tu não escolhes. Não é como panfleto de rua que tu entregas para qualquer um, mas também não é algo que tu apontas o dedo e digas “és tu e pronto”. As coisas não são assim e estão longe de o ser.»

A noite fazia-se fria. O ponteiro do relógio fazia tic-tac enquanto que o tempo passava incessantemente. Nada faria prever aquela noite, nem mesmo as Deusas, os olimpos, os Reis ou qualquer feitiçaria possível e imaginável. Tal como sabiamente se diz, “não se escolhe” nem tão pouco “se adivinha”. Mas talvez uma única coisa pode-se prever. A sabedoria. Porquê? Simples. Todo o mundo que encontramos na vida estará a enfrentar uma batalha que não conseguimos ver. Há algo que não sabemos a esse respeito e para tal é preciso sabedoria para com essas pessoas. Sempre. Apenas para o caso de no final de tudo, não trazer surpresas tal como neste caso.

- bem…eu vou-me embora que esta noite já foi longe demais… - depois de um silencio longo, Isabel ganhara coragem para se levantar do passeio ainda sem dirigir um único olhar a Javi. 

- vale. – aqueles olharem por momentos se haviam cruzado. Javi era capaz de manter-se como se momentos daqueles fizessem já parte da sua rotina mas para Isabel aquilo não passava de um incomodo. Será que ele iria contar a todo mundo que ela passara o Natal sozinha? Aquilo era tão impensável que sentia todo o seu estômago às voltas. Simplesmente…era horrível e desejava nunca mais se lembrar daquela noite. Mas…será? Será que a melhor solução passaria pelo esquecimento de algo invulgar e diferente? O telemóvel de Javi tocou. Algo a fez despertar daquele transe e ficou a observa-lo a tira-lo do bolso.

- sí? – Isabel poderia distinguir uns certos ruídos provenientes do outro lado da linha. Algo que fez com que Javi ficasse com uma expressão brutalmente dura. – qué? Qué dices? – num ápice, Javi levantara-se deixando Isabel com o ouvido bem atento para tentar perceber o que se passava. – como? Quando? E… - Alguém o tentava interromper. Parecia ser voz de uma mulher – não é possível! – gritava em surdina já exasperado. – eu vou já para aí! – com brusquidão, Javi desliga a chamada e naquele instante parecia um pouco perdido. 

- Estás bem? – perguntara Isabel com relutância.

- a minha irmã desapareceu… - Aquilo parecia mais uma espécie de desabafo do que propriamente uma resposta à pergunta dela. Mesmo assim, não deixara de se arrepiar ao ouvi-lo. 

- Dios… - sussurrou Isabel.

Ainda atarantado, Javi começa a andar de um lado para o outro. Estava visivelmente nervoso mas havia algo no seu rosto que era totalmente desconhecido, pelo menos para ela. O medo. Havia medo nas suas feições, como se pela primeira vez as coisas estivessem fora do seu controlo. Como se não pudesse fazer nada para resolver. Ganhando alento, Javi começa a caminhar até junto da sua mota, subindo para cima desta. Era bem notável o quanto estava fora de si.

- Hei, espera! – gritou Isabel – eu levo-te, nem penses que vais de mota! – depressa se juntou a ele quase como impedi-lo de sair dali. Como se, naquele instante, andar de mota, representasse o meu maior perigo. 

- sai da minha frente Isabel!

- não! tu és louco? Nem penses que vais na mota muito menos nesse estado!

- já disse para me saíres da frente! – gritou-lhe.

- e eu já disse que não! 

- sai!!

- Não! – berrou – queres também tu desaparecer é? É que nesse estado é o provável que te aconteça!

- não me interessa o que me vai acontecer, quero simplesmente que saias da minha frente! E juro que se não o fizeres eu passo-te por cima!

- então passa! – ripostou – queres passar? Passa! – aproveitando um lapso de distracção, Isabel tira as chaves da mota. – Eu já disse que te dava boleia… - de um jeito mais calmo, Isabel estava determinada deixando-o sem outro opção.

~


Bruscamente, Javi entra pela porta da sua antiga casa, pouco se importando com o resto. Deparou-se de imediato com a sua mãe sentada junto ao sofá juntamente com um grupo de homens.

- onde está a Melissa? – disparou. Roberta, levantara-se mostrando o quanto estava visivelmente abalada e perturbada.

- oh Javi…nós não sabemos dela… 

- e porque só soube agora, porquê? – gritou exasperado – tava à espera que algo de pior acontecesse para me contar?

- calma filho…nós pensávamos que ela tinha fugido para a casa de uma das suas amigas como costuma fazer ultimamente…esperamos mas ninguém sabe dela – Roberta começou aos soluços – e nem tão pouco parou em casa de nenhuma das suas amigas…

- como é possível que isso tenha acontecido? – acusou num murmuro 

- não sei! Não sei…a policia está a fazer os possíveis para que possamos encontra-la! 

- ah Joder! – exasperou virando costas. Disparado, Javi sobe as escadas num lanço parando no quarto da sua irmã. Ela não poderia simplesmente desaparecer pois Melissa não era assim. Sempre fora mais responsável do que ele mesmo, era uma rapariga calma, meiga…não ia fugir assim, do nada. Ficou a olhar para todos os cantos quase como à procura de algo que lhe desse uma pista de onde ela estava. Uma carta? Uma fotografia? Peça de roupa? Abriu o armário e a roupa estava intacta. Basculhou e nada…nada fazia prever onde estava a sua irmã. O tempo ia passando e os nervos acumulavam de tal forma em si deixando-o tenso. Acabou mesmo por se sentar na cama. Javi não podia perder a sua irmã, a sua pequenita. Começou a sentir remorsos do pouco tempo que lhe dedicava, a escassa atenção que um irmão mais velho deveria proporcionar-lhe e mesmo a protecção que deveria estar inabalável. Ele tinha falhado, tinha de admitir isso mesmo que lhe custasse. 



Isabel ficara petrificada à porta daquela casa sem saber se entrava ou ia embora. Reparou no carro da polícia que estava à porta e pensou que estariam todos concentrados em encontrar o paradeiro de Melissa. Voltou a pensar nos últimos minutos que vivera. Aquela noite estava a ser terrivelmente inesperada para si e nada faria prever um desfecho daqueles. Voltou a reparar na fachada da casa e percebeu que era grande. Jardim bem arranjado, as luzes que ofuscavam as paredes, os carros de bom porte juntamente com as camaras de vigilância que a casa tinha. Javi era rico? Será? Uma coisa que contrastava com ele. Nada faria prever que fosse uma pessoa com bons portes mas para ter a polícia particular em sua casa, era a prova disso. 
Decidida a não pensar nesses pormenores, resolvera entrar. Não estava ninguém naquela sala ampla mas conseguia distinguir vozes que provinham de uma outra divisão da casa. Ficou a mirar ao seu redor e encontrou uma fotografia de uma rapariga nova. Pela aparência, pelo sorriso ou mesmo através dos olhos parecidos com Javi, conseguiu decifrar que seria Melissa. 

- o que deseja? – uma voz fê-la sobressaltar. Olhou na sua frente deparando-se com uma senhora que deveria ter os seus sessenta anos. 

- ah…eu…eu dei boleia ao Javi e…queria saber como ele estava! – respondeu de um jeito um tão pouco atrapalhado.

- hum, estou a ver… - aquela senhora olhava-a de um jeito intrigante. Parecia estar a observa-la com maior detalhe – disse que lhe deu boleia foi?

- sim…ele queria vir de mota mas achei que não estava nas melhores condições de conduzir. – um sorriso surgiu no rosto daquela senhora.

- é namorada dele? – perguntou 

- ah, não! – apressou-se Isabel a corrigi-la – eu sou apenas…conhecida.

- quer qualquer coisa para tomar? 

- agradeço mas não preciso… - agradeceu amavelmente – eu só queria saber como estavam um pouco as coisas e também já tenho de ir embora!

- oh…está tudo numa lastima! Ninguém sabe por onde anda a menina Melissa. Desapareceu desde a hora do almoço e ainda não apareceu. Só espero que nada de mal lhe aconteça!

- e não há de acontecer! Temos de ter esperanças e que a policia saiba fazer o seu trabalho!

- pois é…ter esperança. É o que nos resta… - um certo silencio , um pouco desconfortável, havia surgido – como é que se chama?

- eu? Ah…Isabel!

- Isabel, se quiseres o Javi está lá em cima, podes ir ter com ele.

- eu tenho que ir embora. Também este momento é de família e não quero estar a intrometer…o Javi provavelmente que quer estar sozinho!

- oh não precisas de ter vergonha! Estamos todos num momento difícil mas também precisamos de um pouco de carinho. E quanto mais o meu neto Javi…vá, podes subir! É o primeiro quarto em frente. – Aquela senhora tinha um modo tão simpático que Isabel ficara a mira-la um pouco. Fazia-a lembrar de alguma maneira, a sua avó. No fundo todas elas eram parecidas em especial na forma como gostavam de tratar dos netos. Incentivada pelo gesto dela, Isabel subiu ainda que fosse de um jeito acanhado. Estava numa casa estranha e num ambiente sufocador. Assim que se deparou com a primeira porta, reparou que estava entreaberta e decidira espreitar. Era o quarto de Melissa e prova disso era a decoração tipicamente de adolescente. Mas não fora a decoração que fez cativar toda a sua atenção mas sim algo que a deixou sem reacção. Sorrateiramente, entrou dentro do quarto e aproximou-se do cadeirão, onde Javi estava deitado e a dormir. Tinha preso debaixo do seu braço um peluche grande e Isabel ficou a mira-lo atentamente. Aquele momento estava a ser estranho e aniquilante pois jamais esperaria vê-lo numa situação daquelas. Mas afinal…quem era ele? quem era aquele rapaz que não suportava mas que conseguia surpreende-la com atitudes imagináveis? Quem era afinal Javi? 


~


Isabel não conseguia dormir. Voltas e voltas na cama e nenhuma suficiente para fazer sossegar o seu coração. Naquele momento sentia-se perdida a olhar para o tecto. Aquela casa vazia deixava-a inquieta e a pensar em tudo e mais alguma coisa. Pensava na discussão que tivera com a sua avó, no facto de passar a consoada na rua, de ter encontrado Javi e de partilhar a noite com ele, o desaparecimento da sua irmã…tudo aquilo era mais do que suficiente para a deixar inquieta. Tentava pensar que tudo iria ficar bem mas assim que fechava os olhos, era invadida por lembranças tenebrosas. As discussões…tudo. Acabou por suspirar e, sem pensar bem, levantou-se. Pegou no telemóvel e reparou que passava um pouco das três da manhã. Ainda perdeu um pouco de tempo a olhar apenas para o ecrã mas quando deu por si, já a chamada se fazia ouvir. Tocou e tocou mas parou no atendedor de chamadas. 

Hola Javi…desculpa estar a ligar a estas horas mas gostava de saber como estão as coisas e se a tua irmã já apareceu…bem…era apenas isso. Adíos.

E assim desligou o telefone acabando por se deitar na cama. Aquela noite parecia não ter mesmo um fim e no seu pensamento, só desejava puder esquecer tudo o que acontecera.



~


Javi permanecia no jardim apesar do frio que se fazia sentir. Sentia a cabeça à roda com aqueles acontecimentos todos, o facto de ter a irmã desaparecida, o ambiente estranho que se fazia sentir naquela casa e a própria relação entre si e o seu pai que se mantinha a mesma. Afastados e sem se falarem. No fundo acabava por ser um estranho numa casa que já foi sua. Num lar que o vira crescer. E, à medida que o tempo passava, mais sentia que não pertencia àquele lugar.
Mas naquele momento o mais importante não passava por isso mas sim por encontrar a sua irmã. Por onde ela andava? Será que a tinham raptado? Ou simplesmente saíra de casa? Sentiu um calafrio só de pensar na possibilidade de algo de mal lhe acontecer. Não a ela…não à sua pequenina. Acabou por encostar a cabeça à cadeira quando ouviu um alvoroço vindo de casa. Precipitou o seu olhar até lá e fora os gritos de sua mãe que o fez saltar e correr. Mal chegara à sala deparou-se com toda a gente de volta da sua irmã. Um enorme alivio trespassou-lhe e naquele instante só a queria abraçar…finalmente ali estava sã e salva para grande alivio e tranquilidade de Javi.



~


- Mas eu já disse que foi isso que aconteceu!

- pois mas eu não acredito. Os pais até podem ter acreditado mas duvido que te tenhas perdido…eu conheço bem aquela zona e apesar de ser perigosa tens bem como chegar a casa cedo. – um silencio imperou naquele quarto. Apenas restavam Javi e Melissa que permaneciam sentados sobre a cama. Enquanto ele a olhava piedosamente, ela apenas desviava o olhar, olhando para o chão.

- tu vais gozar comigo se eu contar…

- porque haveria de gozar contigo?

- porque toda a gente o faz! – respondeu de uma forma de como aquilo fosse o normal e esperado.

- pois mas eu não sou toda a gente. Eu sou o teu irmão!

- tens a certeza…prometes que não gozas nem resmungas comigo?

- tenho! Então…o que se passa?

- na minha turma…as raparigas gostam todas de se mostrar. São giras, populares, enfim…toda a gente gosta de ser como elas. Ali ninguém anda ou gasta de se misturar com pessoas como eu. O que é que sou ali? Passo bem despercebida e não sou popular. Então…comecei a andar sozinha a maior parte do tempo. Almoçava, lanchava…tudo sozinha. Só que há uns tempos para cá juntei-me a elas só que para me aceitarem no seu grupo eu tinha de ser como elas. Tentei mudar os penteados, as roupas, os cadernos…comecei a ser amiga delas. Tínhamos combinado que no dia de hoje iriamos para o parque junto ao rio e todas nós tínhamos de saltar para a agua. Eu não queria porque não sabia nadar mas se eu dissesse isso iria ser gozada! Elas foram saltando e…eu fiquei para o fim. Todas gritavam para saltar só que estava com medo. Quando começaram a chamar-me de medricas é que fiquei com vergonha e saltei! Comecei a atrapalhar-me e nem sei como consegui segurar-me junto ao tronco do passadiço. Estava cheia de frio e depois acabei por trocar de roupa…Bem, depois, no final, elas foram embora de carro e como não havia lugar para mim deixaram-me sozinha. – Dito isto, Javi sentiu a sua irmã a desatar num choro inquebrável fazendo-o sentir-se como se estivesse a levar um murro. Apressou-se a abraça-la confortando-a.

- Hei muñeca, já passou! – Melissa acabou por se atirar completamente no seu colo deixando ser confortada por aqueles braços quentes e seguros.

- Desculpa Javi…

- Então? Não tens nada de pedir desculpas! Tu não tens culpa que elas sejam anormais e te tenham magoado. – Apesar da suavidade com a qual falava para a sua irmã, Javi sentia uma enorme cólera a crescer dentro de si, ao tentar imaginar o que aquelas miúdas tinham feito a ela.

- prometes que não contas nada aos pais? Por favor eu não quero que eles saibam! – Javi olhou-a e por mais vontade que sentisse em fazer justiça pelo que estava a acontecer a Melissa, sabia que tinha de guardar para si, ainda para mais observando a cara de pânico dela. E, verdade seja dita, não conseguia idealizar os seus pais a resolver aquela situação acabando com ele de vez.

- não te preocupes…eu não conto nada aos pais.

- prometes? – sussurrou com as lagrimas a escorregarem pelo seu rosto delicado.

- prometo.

- obrigada… - Melissa abraça-o.

- Mas Melissa, eu vou pedir-te uma coisa. Tu tens que te afastar dessas miúdas! Elas fazem-te mal e além disso tu não és como elas, nem de longe. Não voltes a dizer que és uma rapariga vulgar porque és melhor que elas todas, és linda e uma miúda maravilhosa. Não deixes que ninguém te calque, ouviste? Ninguém é superior a ti, ninguém!

- eu só queria ter os meus amigos, percebes? Eu não gosto daquela escola, não gosto da minha turma! preferia muito mais o liceu, eles não me julgavam e eram todos fixes. Eu simplesmente odeio estar lá!

- porque não falaste sobre isso?

- e o que adiantava? O pai mal pára em casa e a mãe julga que consegue fazer as coisas à maneira dela. Aqui ninguém se interessa por aquilo que eu penso…

- eu interesso-me. Tanto me interessa como me preocupo demasiado contigo!

- mas tu não estás cá! – contrapôs transportando consigo mágoa, deixando Javi impávido. 

- eu não posso viver aqui mas isso não invalida o facto de seres minha irmã e de me preocupar contigo!

- era tudo mais fácil se estivesses aqui…

- Tu sabes como as coisas são…e que não depende só de mim em viver cá.

- já te vais embora? – perguntou depois de um breve silêncio.

- daqui a pouco sim. Hoje foi um dia muito longo. E também acho que está na hora de te deitares, não achas? Precisas de dormir e esquecer este dia.

- vale… - Javi ajudou-a a desfazer a cama e depressa Melissa se deitou por baixo dos cobertores, mostrando quanto era visível o cansaço que sentia. – Javi?

- hum..

- posso pedir-te uma coisa? Tipo uma prenda de Natal?

- tudo o que quiseres.

- tens a certeza?

- tenho.

- dormes comigo esta noite? – Javi olhou-a mostrando quanto era visível a surpresa por aquele pedido inesperado. Mas como poderia ele recusar aquele pedido, ainda para mais, vindo dela? Sem conseguir dizer mais nada, apenas sorriu beijando-lhe a testa. Em questão de minutos, Melissa caiu num sono profundo envolta nos braços do seu irmão. Ainda que também tentasse combater contra isso, também Javi se deixou levar por todo o cansaço que sentia acumulado em si e que nem se apercebera disso, acabando por adormecer. Mas, ainda antes de fechar os olhos, deixou que a sua mente vagueasse pelo dia que tivera deixando-o a pensar no quanto tinha sido tudo impensável de acontecer.

~

A campainha tocou. Várias vezes tocava mas mesmo assim sentia um enorme peso na sua cabeça impedindo-a de se levantar. No fundo, não queria sequer acordar. Isabel podia contar as horas em que esteve acordada durante a noite e no quanto lamentava por aquele barulho a ter despertado. Mas quem quer que fosse, persistia e então, viu-se obrigada a levantar-se e seguir até à porta. Cambaleando pelos corredores, foi tentando despertar ao qual parecia uma tarefa impossível. 

- já vai… - com uma mão apoiada na parede e a outra na porta, conseguiu abri-la. A surpresa não podia ser maior ao deparar-se com aquelas duas pessoas na sua frente, tão bem conhecidas para si.

- o que fazem aqui?

***

Pois é, eu sei que demoro muito tempo a publicar capitulos mas tem sido muito dificil para mim conseguir escrever por diversos motivos! fui conseguindo escrever este enquanto andava de comboio a caminho da universidade ou mesmo nos intervalos. Não sei quando conseguirei deixar um outro capitulo, os meus planos estão bem apertados e por isso não posso prometer nada, com muita pena minha! :( 
mas espero que tenham gostado deste capitulo e eu prometo que as coisas irão mudar ( acho que começam a perceber um pouco isso). Só tive a pequena impressão que não gostaram muito da mudança do rumo, em especial pelo vosso feedback no ultimo capitulo que diminuiu um pouco! por isso peço, SE NÃO ESTIVEREM A GOSTAR DO RUMO, DIGAM! é sempre importante saber a vossa opinião! :)
bem, vou deixar-vos e obrigada a todas as leitoras que ainda têm paciencia para seguir as minhas histórias!
beijos
Diana Ferreira


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Capitulo 17

O choque não poderia ser maior ao ver a chegada de Maria à cozinha. Tanto pela parte de Isabel como da própria Marisol. Como iriam explicar que ambas participaram em corridas ilegais mesmo que por motivos distintos? Isabel sentia-se completamente a vacilar e o próprio olhar e postura da sua avó só fazia aumentar o receio. 

- não é o que a avó está a pensar… - a voz de Isabel estava completamente quebradiça e notava-se o medo que a avassalava.

- então o que é? Eu ouvi bem…tu foste presa? Meu Deus que história é essa Isabel? – a sua voz imperava uma gravidade que fez a fez tremer. 

- eu posso…eu posso explicar!

- estou à espera disso! 

- eu… - as palavras faltavam. Elas tardavam a sair da boca de Isabel pois simplesmente ela não sabia o que dizer – foi um engano avó! eu juro que não fiz nada…eu…eu…

- fala de uma vez Isabel! Tu andas a participar em corridas ilegais? – a desilusão era algo que assombrava a voz de Maria e deixa-la com o coração apertado. 

- não! – ripostou de imediato Isabel – não avó, jamais participaria nisso… só que… - o silencio quebrava naquele lugar. Como iria explicar tudo o que acontecera? No final, Isabel não tinha muito por onde fugir e dar uma base de escapatória ao que acontecera há uns dias atrás. Não havia como delinear o assunto pois ela esteve presa. Ela participou em corridas ilegais. O facto de ter parado naquele lugar sem saber não iria atenuar ou apaziguar a gravidade da situação nem tão pouco explicar que participara para fazer ciúmes a Marisol. Não que a ideia de deixar a prima em maus lençóis não fosse tentadora, porque era. Mas isso não iria ajudar em nada…

- explicas tu Marisol? – depois daquele silêncio, Maria decidira pedir explicações a Marisol. O seu coração quebrou.

- eu avó?

- sim tu! – a voz de Maria elevou-se – tu estavas a falar sobre isso e se a tua prima não é capaz de falar, falas tu!

- eu...falei porque ouvi falar nisto… - acabou por falar. Marisol até poderia deixar Isabel em “brasas vivas” mas isso não a favorecia. Fora um descuido de Marisol pois implicaria também estar em maus lençóis. 

- e o que é que ouviste falar? Quem te contou? Quando é que isso foi?

- eu não tenho nada a ver com isso! eu…simplesmente ouvi falar que a Isabel estava nas corridas ilegais e no final a policia apanhou-os! – Isabel tremeu completamente. Baixou a cabeça mostrando todo o desalento que sentia. Já Maria, apenas a olhava em choque. Ficou a pensar como seria possível a sua neta ter feito uma coisa daquelas. Logo ela…não era possível. Isabel não seria capaz de tal coisa, ela não se meteria em maus caminhos, nada a fazia temer para isso. 

- isso é verdade Isabel? – ela continuava sem encarar a sua avó. não conseguia… a voz de desilusão de Maria fazia-a sentir-se com vergonha de si mesma e com medo de a encarar. – fala! Isso é verdade? – Isabel olhou-a. 

- É… - murmurou.

- oh Isabel! – barafustou – como é que foste capaz de fazer uma coisa dessas? – todo o coração de avó estava ser carregado de medo e aflição. Maria sentia-se incapaz de acreditar que uma coisa daquelas tinha acontecido. A sua neta a participar em corridas ilegais e acabar uma noite na prisão? Ficou a pensar onde errara. Onde estava o erro por tal coisa ter acontecido. Era difícil de imagina-la numa situação daquelas e a desilusão não podia ser escondida. 

- por favor deixe-me explicar! – pedia em suplica

- o quê? O que vais explicar? – Maria sentia-se exasperada - céus, porque nos ocultaste isso? que raio fizeste tu para te meteres em caminhos desses? – atirou num tom acusatório.

- porque já sabia que vocês não iriam acreditar em mim! Iriam tirar logo partido que eu estava a participar em corridas ilegais por vontade própria e isso não é verdade! – Isabel sentia-se desesperada.

- e tens uma justificação para isso tudo, é isso que queres dizer? 

- eu quero dizer que… - as palavras começavam a faltar – eu não sabia que ia parar aquele sitio… - desabafou sinceramente. No fundo, Isabel nunca imaginara que iria parar a um sitio daqueles. 

- não mintas mais! – Isabel olhou impávida para a sua avó.

- eu não estou a mentir! – a sua voz tremia 

- chega! – pediu – chega Isabel…tu passaste dos limites!

- que limites avó? por favor, acredite em mim, eu não fiz isso por crer!

- eu não sei como tu foste ficar assim, tão rebelde…nós ainda tentamos compreender os teus motivos para saíres desta casa mas agora com isto? Isto é inaceitável! Nunca pensei que fosses capaz de participar em corridas ilegais! Por amor de Deus, isso é perigoso! O que queres atingir com isso? pretendes chamar a atenção de alguém com essas atitudes? Podia ter-te acontecido algo mais perigoso tens noção disso? – Maria estava realmente chateada mas Isabel tinha ficado em choque com a atitude da sua avó. ela não estava a querer acreditar em si…como poderia tal coisa estar a acontecer? A sua avó deveria ser a primeira a defende-la, a acreditar em si e não a julga-la. 

- eu não acredito que você está a dizer-me isso…

- e queres que diga o quê? Nunca esperava uma coisa desta vinda de ti… - o choro de aflição parecia ter atingido em forte a Maria.

- esperava que você tentasse me compreender! – atirou sem demoras – e não acusar-me desta forma! 

- Isabel, não há pessoa neste mundo que queira mais o teu bem do que eu mas existem coisas que têm os seus limites! Como queres que compreenda que tenhas entrado por caminhos de corridas ilegais? Consegues-me explicar como?

- realmente…se me conhecesse mesmo bem não estaria a dizer isso! E é mentira, você não quer nada o meu bem! – Isabel começou a chorar. 

- não digas isso! – Maria parecia ficar ofendida com o que ouvira.

- quer que digo o quê então? Desde que aqui cheguei que as coisas não são as mesmas! Parece que de um momento para o outro deixaram todos de acreditar em mim, parece que virei a rebelde e a desilusão da família, não foi? 

- não é nada disso!

- é sim! Eu sinto as coisas sabe? 

- ouve Isabel… - Maria parecia não querer levar aquela conversa para uma grande discussão e que a deixava sem forças – discutir não nos leva lado nenhum! A asneira está feita e graças a Deus que nada de mal te aconteceu mas mostro bem a desilusão que senti ao saber disto…

- desilusão, é? – a voz de Isabel provinha apenas num murmuro insulável.

- sim, desilusão. Nunca esperei que fosses fazer coisas destas e isso deixa-me com o coração nas mãos! 

- sabe, também para mim acaba por ser uma desilusão…sempre pensei que você não fosse a primeira pessoa a apontar-me o dedo! – aquelas palavras estavam a magoar imenso a Maria. A sua idade já estava bem avançada, a sua saúde estava frágil tal como a própria alma o estava. E no fundo, aquelas palavras magoavam sempre. Sabia que tinha de perceber um pouco e talvez entender as razões de Isabel mas simplesmente sentia a situação a fugir-lhe do controlo.

- eu não estou a apontar-te o dedo…mas também como queres que te compreenda se não tiveste coragem para falar comigo e contar o que se passava? 

- e iria compreender? Iria adiantar?

- talvez! Mas assim não, assim as coisas pioram!

- ah claro, as coisas ficam piores do que já estão! – ironizou – olhe avó, tem toda a razão, discutir não nos leva a lado nenhum! Pode ficar descansada que comigo não terá mais nenhuma preocupação! – Isabel sentia-se entalada pela forma como aquilo estava a ser encaminhado. Por mais uma vez, sentia-se perdida e sozinha. Limpou as lagrimas e saiu disparada daquela cozinha. Só parou mesmo quando ouviu a voz da sua avó.

- Isabel não vás embora novamente!

- porquê? – ripostou num tom de voz alto – o que é que me vai fazer se for?

- deixa de ter essas atitudes infantis! Não é a ires embora que as coisas se irão resolver sempre que elas não te agradam! – já cansada, Isabel preferiu não falar. Não se sentia bem ali estando exausta psicologicamente de tudo o que lhe estava a acontecer. Talvez o erro de tudo fosse a sua vinda para Murcia. se calhar não deveria ter vindo para ali…talvez assim fosse mais feliz. Quem sabe…ou talvez não. Quem lhe dava garantias que ali também não podia ser feliz? 



***


Isabel deixara-se cair sobre a madeira daquela pequena ponte. Encostou-se às grades e não foram precisos mais do que meros segundos para ser invadida novamente pelas lagrimas. Na sua cabeça, só uma pergunta soava: até quando? Até quando a sai vida iria parecer um rebuliço sem fim? Até quando se iria sentir tão vazia e sozinha? Sentia-se péssima por discutir daquela forma com a sua avó, a pessoa que mais estimava e amava na sua vida…e o seu avô sem duvida que eram os amores da sua vida. Ensinaram-lhes tantas coisas boas, deram-lhes praticamente toda a educação. Os seus pais passavam imenso tempo a trabalhar em hospitais havendo uns anos que prestaram serviço como médicos sem fronteiras, ficando Isabel a encargos deles. Foram dois anos tão bons, tão seguros…tão protectores. E agora estava ali, com um peso enorme na sua consciência de ter falado coisas feias a uma pessoa que cuidou imenso de si. 

- estás bem? – algo sobressaltou Isabel, ou melhor uma voz a fez sobressaltar. Olhou para o seu lado e reparou na presença de alguém que conhecia mas que era totalmente inesperada. Depressa tentou limpar as lagrimas e esconder o seu rosto por entre os seus cabelos compridos.

- sim, estou - ela tinha sido curta e grossa na forma como respondera. 

- não é o que parece! 

- já disse que estou bem! – ripostou num tom de voz alto e agressivo.

- mas estás a chorar…e estás sentada no chão no meio da ponte!

- mas o que é que tu queres? – gritou-lhe ao mesmo tempo que se levantava e encarava Javi desde que ele ali chegara.

- hei, calma! – respondeu na defensiva – eu estava de passagem e vi-te aqui. Não achei isso normal ainda para mais sendo noite de Natal! – gerou-se um silêncio. Isabel olhava-o de um jeito bem frágil e parecia que a qualquer momento iria quebrar. Javi notava bem isso e talvez por ver uma Isabel tão frágil, decidiria ficar ali, à vanguarda. 

- eu não tenho para onde ir… - as lagrimas voltaram a sucumbir o seu rosto e Javi ficou completamente surpreso – simplesmente já não me resta nada para que possa passar um Natal digno de tantas famílias que existem aí…sinto-me como se tivesse perdido tudo e no fundo a culpa é toda minha! – Javi via na sua frente, uma rapariga que mantinha os braços amarrados um no outro e bem junto ao peito, indefesa, a chorar, completamente frágil. Os seus olhos vermelhos, a pele inchada, o rosto cansado…uma Isabel tão diferente daquilo que estava habituado a ver. Sem falar no quanto ela tremia de frio e com apenas uma camisola fina a pousar sobre o seu corpo.

- estás gelada…toma! - Javi tirou o seu casaco preto de malha pousando-o sobre as costas de Isabel. - Tu não estás bem…há quanto tempo estás aqui? – ela tomara percepção que realmente estava com imenso frio. Perdera a conta ao tempo que esteve a vaguear por aquelas ruas e como o tempo estava gelado. Esquecera-se também do pormenor de não ter trazia do um casaco mais quente e o quanto lhe estava a saber bem sentir o calor que provinha daquele casaco e a satisfação que isso lhe trazia. 

- não sei… - respondeu num murmuro

- porque estás aqui? 

- discuti com a minha avó…ou melhor, ela descobriu o que se passou nas corridas de motos. 

- eu juro que não fui eu que falei! – falou de forma automática.

- eu sei… - sussurrou – eu estava a conversar com a Marisol e a minha avó ouviu a parte da conversa onde falávamos sobre isso. – novamente, gerara-se um certo silêncio. Apenas se ouvia o soluçar de Isabel já que Javi não sabia o que dizer. O corpo dela começara a balançar mostrando a fraqueza que a abrangia. Valeu a Isabel os reflexos de Javi que a segurou rapidamente. 

- joder! Tu comeste? - resmungou

- não…mas eu também vou para casa… - Isabel começou a afastar-se e estava prestes a virar costas quando a voz de Javi a fez parar.

- eu sei que não tenho nada a ver com isso e muito menos que me meter mas…tu disseste que não tinhas para onde ir – o olhar de Isabel centrou-se nele – como é que vais para casa? – Ela mirava-o atentamente. O que levava Javi a estar ali ao pé dela? E justamente ele? Aquele presunçoso, aquele que não gostava dela e nem tão pouco Isabel gostava dele? O que será que os movia para estarem ali? E principalmente para Javi não a estar a deixar ir embora? No fundo, nenhum deles o sabia. Javi estava simplesmente a ser movido por uma onde de compaixão que nunca vira. Vê-la naquele estado de apatia estava a deixa-lo com uma certa curiosidade. Sim curiosidade…uma certa vontade em querer saber mais dela, em conhecer a faceta frágil de uma rapariga que para si, não passava de uma irreverente. 

- eu cá me desenrasco…

- hei, espera… - Javi puxa-a pelo braço – anda comigo. – Isabel olhava-o com uma certa desconfiança – anda! – ela não dissera nada, simplesmente o seguira. Saíram da ponte e caminharam para que parassem em frente a uma carrinha. Javi caminhou até à zona de trás tirando de lá algo que Isabel não percebera logo à primeira. – segura…mas cuidado que está quente! 

- o que é que… - Isabel não estava a perceber mas assim que reparou na carrinha que era, arregalou os olhos. Assim que cada um tinha uma malga na mão, caminharam até a uma zona mais recatada, onde tinham umas mesas. Sentaram-se.

- Hoje é noite de consoada e todos os anos há uma carrinha da associação onde fazemos voluntariado para distribuir sopa quente aos mendigos. E eu aceitei ajudar…era isto que estava a fazer na rua quando te vi. – Isabel simplesmente olhava-o atónica, sem dizer uma única palavra. Mil pensamentos sobrevoavam a sua mente mas nenhum era capaz de explicar aquele momento tão imprevisível. – está frio…acho que esta sopa vai aquecer-te…e a mim também! Javi começou a comer um pouco daquela sopa e Isabel seguia-lhe o exemplo.

- logo tu?

- como assim?

- e logo tu tinhas que estar aqui? – a sua voz não passava de um sussurro – isto não faz muito bem a tua onda…tu o próprio referiste muitas vezes que não tens cara de misericordioso. Ou vais me dizer que estás aqui porque te deu pena dos pobres e preferiste fazer uma boa acção? – ele olhou-a. Olhou-a e deixou-se ficar em silêncio apenas a mira-la. Acabou por deixar escapar um sorriso irónico.

- tu também não tens cara de quem goste de passar o Natal nas ruas e aqui estás.

- o meu caso é diferente! – tentou defender-se enquanto saboreava um pouco daquela sopa quente.

- também o meu.

- eu nunca passei uma noite assim… - a sua voz frágil e chorosa voltou a assombra-la – sempre passei rodeada de gente, com a família…de volta de uma mesa cheia e confortante. – ela começou a mirar a sopa deixando de o encarar – um ano passávamos cá e o outro era passado na minha outra família em Lisboa… só que mesmo assim as coisas nunca foram fáceis mas para mim mesma. Por mais amor que recebesse eu sentia sempre algo que fazia falta. Talvez porque sou adoptada que me sinta assim…não sei…talvez se fosse criada com eles desde bebé não me sentisse desta forma mas quando os meus pais me adoptaram eu tinha quase três anos. Eu tinha passado esse tempo todo com uma outra família, com outra mãe e pai, em outro lugar, com outros costumes. É simplesmente sentir-me presa a um passado que não volta mais a ser meu mas que foi. E o que mais me entristece é não me conseguir lembrar de nada! Tenho ideias muito vagas…não tenho uma única fotografia da minha outra família porque simplesmente fui abandonada! 

As lagrimas tomavam conta do seu rosto. As palavras fluíam de si com uma naturalidade assustadora permitindo que desabafasse todos os seus tormentos mesmo aqueles que nunca os dissera. Talvez fosse mesmo isso que Isabel precisasse…de desabafar e ter alguém que a ouvisse, mesmo que fosse Javi. Este apenas a olhava calmamente e sem saber o que dizer. Vê-la ali, tão frágil deixava-o à toa… 

- Joder, eu nem deveria de estar a falar sobre isto! – Isabel tentou-se recompor e limpou depressa as lagrimas. Por mais vontade que sentisse em falar sobre aquilo, sentia que não era o momento certo e nem com a pessoa certa. Ela nunca desabafara coisas daquele género nem com a sua melhor amiga, porque estava a fazê-lo com ele? Justamente com ele? Talvez porque se sentia tão em baixo, tão sem forças ou porque estava a passar aquela quadra natalícia junto de dele? Pressentindo que Isabel iria sair da mesa, Javi prende-lhe a mão. 

- não vás, espera… - ela olhara-o expectante – queres me ajudar a distribuir o resto das sopas? Uma ajuda é sempre bem-vinda – explicou ao sentir a falta de reacção por parte dela. 

- pode ser – disparou. Porque não? O que travaria Isabel a não aceitar e passar aquela noite de maneira diferente? Talvez ela precisasse daquilo. De um alento diferente, encarar a realidade e talvez encontrar um pouco de conforto para todos os seus tormentos. E assim saíram dali, passando o resto do final da tarde a distribuir os alimentos pelos mendigos. Alguns já eram conhecidos tanto de Javi como de Isabel. Já haviam feito aquilo algumas vezes mas ela percebera que a cada dia, encontrava-se novas pessoas a dormir nas ruas. Era triste…eles estavam sozinhos, ao frio, à fome. Sem ter para onde ir. A vida nem sempre era justa e Isabel sabia disso e percebera à medida que chegava perto de cada pessoa entregando aquele pequeno suplemento alimentar. Aos poucos, todo o seu coração ia aquecendo contrastando com o frio que se fazia sentir naquela cidade. A confusão que sentia dentro de si ia-se apaziguando dando lugar a uma calma confortante. 

- agora podes dizer… - Isabel e Javi tinham acabado de distribuir as sopas que tinham disponíveis. Ainda estiveram à conversa com mais alguns membros da associação mas agora encontravam-se sozinhos – ainda não disseste porque estavas aqui. – Javi olhou-a.

- estás a falar do quê?

- porque estás a fazer voluntariado na noite de Natal se não tínhamos a obrigação de estar cá. E já disse…eu não te acho com cara de misericordioso.

- interessa-te tanto assim saberes isso? 

- hum…por acaso…confesso que tenho a minha curiosidade aguçada para saber.

- então vê lá se não controlas essa tua curiosidade aguçada demais! – ripostou. Javi começou a caminhar em direcção oposta da zona onde se encontravam.

- juro que não te entendo! – acabou por responder Isabel depois de o deixar caminhar alguns metros. Javi parou, encarando-a. – num momento tanto consegues ser calmo e atencioso como no minuto seguinte és um bruto! És sempre assim tão inconstante? Eu fiz-te uma simples pergunta e olha só como ficaste. – Era aquilo que Isabel não conseguia entender nele. Há minutos atrás tinha sido tão atencioso consigo e agora tratava-a com brusquidão. Seria assim com toda a gente? 

- eu simplesmente não quero falar sobre isso, pode ser? 

- pode sim! – ripostou - Aliás nem precisas de falar nada até porque de ti não quero saber nada… - murmurou visivelmente chateada. Por momentos ficaram ali, a uma dúzia de metros de distancia sem nada para dizer ou fazer. Algo os prendia ali e não sabiam o quê. Javi mirava distraidamente as casas que estavam à sua frente enquanto que Isabel mexia no cabelo. Achando aquele momento patético, Javi começa a andar até junto da sua mota que estava perto dali. Isabel fizera o mesmo e caminhou até à zona do seu carro que já estava mais distante. Ele acabara mesmo por se deixar sentar na berma do passeio. Deixou a cabeça descair-se sobre a sua mão apoiada na perna e fechou os olhos. 

“agora podes dizer… ainda não disseste porque estavas aqui”
“eu simplesmente não quero falar sobre isso, pode ser?”

Javi simplesmente não conseguia falar sobre o motivo dali estar. No fundo custava-lhe admitir a si mesmo. Num certo ponto, Isabel tinha razão, quando referia que ele não tinha cara de misericordioso. De facto, ele não tinha mas talvez estar ali fosse uma escapatória para o seu real problema. De não pensar que tinha também uma família e que não estava ao pé dela. Que já fazia três anos que passava o Natal sozinho. Desde que fora renegado pelo seu pai, desde aquele acidente…
Estremeceu.
Aquele acidente era uma memória viva dentro de si, algo que latejava cada vez mais forte…aquela noite que roubara não só a vida do seu amigo como a sua também. Ali estava o motivo que não queria explicar a Isabel. Simplesmente passava o Natal fora de casa porque aquele acidente tinha sido a sua sentença. O seu pai nunca aceitara a forma como tudo tinha acontecido e a inocência dele tinha sido posta em causa. Lembrava-se de que quase ninguém acreditava em si tanto que no final tinha sido considerava culpado por aquele acidente. E Javi sabia tão bem que no fundo a culpa não era sua. Não…não podia ser. Ele jamais faria algum mal a Paco. Jamais magoaria o seu irmão de coração. Jamais…

- toma! – os pensamentos de Javi foram abruptamente interrompidos pela chegada repentina de alguém. Abrindo os olhos viu Isabel a sentar-se do seu lado e com uma saca na mão.

- o que é isto?

- abre e vê! – respondeu com uma certa petulância. Javi assim fez e tirou de dentro do saco um cachorro quente. Ele olhou-a um pouco confuso. 

- eu não pedi nada.

- ouve, eu estou cheia de fome e aquela sopa não me satisfez. Eram os últimos, por isso se quiseres aproveita e come! – Isabel começou a comer um pouco do seu cachorro que estava quente mas que sabia-lhe bem à fome que tinha. Javi fez o mesmo e também não pôde de deixar de notar que aquele petisco viera em boa hora. Ambos comiam, em silêncio. Estranhamente juntos, ali estavam…a partilhar de forma inesperada aquela noite fria. Algo fizera denotar Isabel para que voltasse ali. Seria o facto de que ambos não tinham para onde ir e que as únicas companhias restantes eram a de um e a do outro? Que inexplicavelmente só se tinham um ao outro? 

- toma, também trouxe bebidas… - Isabel deu-lhe para a mão uma garrafa de cerveja igual à sua. Javi aproveitou de imediato para dar um gole já que aquele cachorro para além de estar saboroso estava bem picante.

- Feliz Natal… - depois de algum silêncio, Javi interrompe-o. Ela olha-o um pouco surpresa e fica a mira-lo. Sentiu um nó no estômago ao relembrar do sítio onde estava e como ali foi parar, fazendo-a lembrar que tinha discutido com a sua avó, saiu de casa e veio parar à rua. Aquilo fê-la quebrar mas não havia só a parte triste mas como também a parte inesperada, tal como, ter Javi ao pé de si, oferecer-lhe o seu casaco, dar-lhe sopa e irem ambos distribui-las aos mendigos. De facto, esta a ser uma noite tão inesperada e surreal, onde nada parecia ser verdade e todos os acontecimentos apareciam de uma forma fugaz e incapaz de serem controlados. 

- Feliz Natal para ti também… - sussurrou.