segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Capitulo 17

O choque não poderia ser maior ao ver a chegada de Maria à cozinha. Tanto pela parte de Isabel como da própria Marisol. Como iriam explicar que ambas participaram em corridas ilegais mesmo que por motivos distintos? Isabel sentia-se completamente a vacilar e o próprio olhar e postura da sua avó só fazia aumentar o receio. 

- não é o que a avó está a pensar… - a voz de Isabel estava completamente quebradiça e notava-se o medo que a avassalava.

- então o que é? Eu ouvi bem…tu foste presa? Meu Deus que história é essa Isabel? – a sua voz imperava uma gravidade que fez a fez tremer. 

- eu posso…eu posso explicar!

- estou à espera disso! 

- eu… - as palavras faltavam. Elas tardavam a sair da boca de Isabel pois simplesmente ela não sabia o que dizer – foi um engano avó! eu juro que não fiz nada…eu…eu…

- fala de uma vez Isabel! Tu andas a participar em corridas ilegais? – a desilusão era algo que assombrava a voz de Maria e deixa-la com o coração apertado. 

- não! – ripostou de imediato Isabel – não avó, jamais participaria nisso… só que… - o silencio quebrava naquele lugar. Como iria explicar tudo o que acontecera? No final, Isabel não tinha muito por onde fugir e dar uma base de escapatória ao que acontecera há uns dias atrás. Não havia como delinear o assunto pois ela esteve presa. Ela participou em corridas ilegais. O facto de ter parado naquele lugar sem saber não iria atenuar ou apaziguar a gravidade da situação nem tão pouco explicar que participara para fazer ciúmes a Marisol. Não que a ideia de deixar a prima em maus lençóis não fosse tentadora, porque era. Mas isso não iria ajudar em nada…

- explicas tu Marisol? – depois daquele silêncio, Maria decidira pedir explicações a Marisol. O seu coração quebrou.

- eu avó?

- sim tu! – a voz de Maria elevou-se – tu estavas a falar sobre isso e se a tua prima não é capaz de falar, falas tu!

- eu...falei porque ouvi falar nisto… - acabou por falar. Marisol até poderia deixar Isabel em “brasas vivas” mas isso não a favorecia. Fora um descuido de Marisol pois implicaria também estar em maus lençóis. 

- e o que é que ouviste falar? Quem te contou? Quando é que isso foi?

- eu não tenho nada a ver com isso! eu…simplesmente ouvi falar que a Isabel estava nas corridas ilegais e no final a policia apanhou-os! – Isabel tremeu completamente. Baixou a cabeça mostrando todo o desalento que sentia. Já Maria, apenas a olhava em choque. Ficou a pensar como seria possível a sua neta ter feito uma coisa daquelas. Logo ela…não era possível. Isabel não seria capaz de tal coisa, ela não se meteria em maus caminhos, nada a fazia temer para isso. 

- isso é verdade Isabel? – ela continuava sem encarar a sua avó. não conseguia… a voz de desilusão de Maria fazia-a sentir-se com vergonha de si mesma e com medo de a encarar. – fala! Isso é verdade? – Isabel olhou-a. 

- É… - murmurou.

- oh Isabel! – barafustou – como é que foste capaz de fazer uma coisa dessas? – todo o coração de avó estava ser carregado de medo e aflição. Maria sentia-se incapaz de acreditar que uma coisa daquelas tinha acontecido. A sua neta a participar em corridas ilegais e acabar uma noite na prisão? Ficou a pensar onde errara. Onde estava o erro por tal coisa ter acontecido. Era difícil de imagina-la numa situação daquelas e a desilusão não podia ser escondida. 

- por favor deixe-me explicar! – pedia em suplica

- o quê? O que vais explicar? – Maria sentia-se exasperada - céus, porque nos ocultaste isso? que raio fizeste tu para te meteres em caminhos desses? – atirou num tom acusatório.

- porque já sabia que vocês não iriam acreditar em mim! Iriam tirar logo partido que eu estava a participar em corridas ilegais por vontade própria e isso não é verdade! – Isabel sentia-se desesperada.

- e tens uma justificação para isso tudo, é isso que queres dizer? 

- eu quero dizer que… - as palavras começavam a faltar – eu não sabia que ia parar aquele sitio… - desabafou sinceramente. No fundo, Isabel nunca imaginara que iria parar a um sitio daqueles. 

- não mintas mais! – Isabel olhou impávida para a sua avó.

- eu não estou a mentir! – a sua voz tremia 

- chega! – pediu – chega Isabel…tu passaste dos limites!

- que limites avó? por favor, acredite em mim, eu não fiz isso por crer!

- eu não sei como tu foste ficar assim, tão rebelde…nós ainda tentamos compreender os teus motivos para saíres desta casa mas agora com isto? Isto é inaceitável! Nunca pensei que fosses capaz de participar em corridas ilegais! Por amor de Deus, isso é perigoso! O que queres atingir com isso? pretendes chamar a atenção de alguém com essas atitudes? Podia ter-te acontecido algo mais perigoso tens noção disso? – Maria estava realmente chateada mas Isabel tinha ficado em choque com a atitude da sua avó. ela não estava a querer acreditar em si…como poderia tal coisa estar a acontecer? A sua avó deveria ser a primeira a defende-la, a acreditar em si e não a julga-la. 

- eu não acredito que você está a dizer-me isso…

- e queres que diga o quê? Nunca esperava uma coisa desta vinda de ti… - o choro de aflição parecia ter atingido em forte a Maria.

- esperava que você tentasse me compreender! – atirou sem demoras – e não acusar-me desta forma! 

- Isabel, não há pessoa neste mundo que queira mais o teu bem do que eu mas existem coisas que têm os seus limites! Como queres que compreenda que tenhas entrado por caminhos de corridas ilegais? Consegues-me explicar como?

- realmente…se me conhecesse mesmo bem não estaria a dizer isso! E é mentira, você não quer nada o meu bem! – Isabel começou a chorar. 

- não digas isso! – Maria parecia ficar ofendida com o que ouvira.

- quer que digo o quê então? Desde que aqui cheguei que as coisas não são as mesmas! Parece que de um momento para o outro deixaram todos de acreditar em mim, parece que virei a rebelde e a desilusão da família, não foi? 

- não é nada disso!

- é sim! Eu sinto as coisas sabe? 

- ouve Isabel… - Maria parecia não querer levar aquela conversa para uma grande discussão e que a deixava sem forças – discutir não nos leva lado nenhum! A asneira está feita e graças a Deus que nada de mal te aconteceu mas mostro bem a desilusão que senti ao saber disto…

- desilusão, é? – a voz de Isabel provinha apenas num murmuro insulável.

- sim, desilusão. Nunca esperei que fosses fazer coisas destas e isso deixa-me com o coração nas mãos! 

- sabe, também para mim acaba por ser uma desilusão…sempre pensei que você não fosse a primeira pessoa a apontar-me o dedo! – aquelas palavras estavam a magoar imenso a Maria. A sua idade já estava bem avançada, a sua saúde estava frágil tal como a própria alma o estava. E no fundo, aquelas palavras magoavam sempre. Sabia que tinha de perceber um pouco e talvez entender as razões de Isabel mas simplesmente sentia a situação a fugir-lhe do controlo.

- eu não estou a apontar-te o dedo…mas também como queres que te compreenda se não tiveste coragem para falar comigo e contar o que se passava? 

- e iria compreender? Iria adiantar?

- talvez! Mas assim não, assim as coisas pioram!

- ah claro, as coisas ficam piores do que já estão! – ironizou – olhe avó, tem toda a razão, discutir não nos leva a lado nenhum! Pode ficar descansada que comigo não terá mais nenhuma preocupação! – Isabel sentia-se entalada pela forma como aquilo estava a ser encaminhado. Por mais uma vez, sentia-se perdida e sozinha. Limpou as lagrimas e saiu disparada daquela cozinha. Só parou mesmo quando ouviu a voz da sua avó.

- Isabel não vás embora novamente!

- porquê? – ripostou num tom de voz alto – o que é que me vai fazer se for?

- deixa de ter essas atitudes infantis! Não é a ires embora que as coisas se irão resolver sempre que elas não te agradam! – já cansada, Isabel preferiu não falar. Não se sentia bem ali estando exausta psicologicamente de tudo o que lhe estava a acontecer. Talvez o erro de tudo fosse a sua vinda para Murcia. se calhar não deveria ter vindo para ali…talvez assim fosse mais feliz. Quem sabe…ou talvez não. Quem lhe dava garantias que ali também não podia ser feliz? 



***


Isabel deixara-se cair sobre a madeira daquela pequena ponte. Encostou-se às grades e não foram precisos mais do que meros segundos para ser invadida novamente pelas lagrimas. Na sua cabeça, só uma pergunta soava: até quando? Até quando a sai vida iria parecer um rebuliço sem fim? Até quando se iria sentir tão vazia e sozinha? Sentia-se péssima por discutir daquela forma com a sua avó, a pessoa que mais estimava e amava na sua vida…e o seu avô sem duvida que eram os amores da sua vida. Ensinaram-lhes tantas coisas boas, deram-lhes praticamente toda a educação. Os seus pais passavam imenso tempo a trabalhar em hospitais havendo uns anos que prestaram serviço como médicos sem fronteiras, ficando Isabel a encargos deles. Foram dois anos tão bons, tão seguros…tão protectores. E agora estava ali, com um peso enorme na sua consciência de ter falado coisas feias a uma pessoa que cuidou imenso de si. 

- estás bem? – algo sobressaltou Isabel, ou melhor uma voz a fez sobressaltar. Olhou para o seu lado e reparou na presença de alguém que conhecia mas que era totalmente inesperada. Depressa tentou limpar as lagrimas e esconder o seu rosto por entre os seus cabelos compridos.

- sim, estou - ela tinha sido curta e grossa na forma como respondera. 

- não é o que parece! 

- já disse que estou bem! – ripostou num tom de voz alto e agressivo.

- mas estás a chorar…e estás sentada no chão no meio da ponte!

- mas o que é que tu queres? – gritou-lhe ao mesmo tempo que se levantava e encarava Javi desde que ele ali chegara.

- hei, calma! – respondeu na defensiva – eu estava de passagem e vi-te aqui. Não achei isso normal ainda para mais sendo noite de Natal! – gerou-se um silêncio. Isabel olhava-o de um jeito bem frágil e parecia que a qualquer momento iria quebrar. Javi notava bem isso e talvez por ver uma Isabel tão frágil, decidiria ficar ali, à vanguarda. 

- eu não tenho para onde ir… - as lagrimas voltaram a sucumbir o seu rosto e Javi ficou completamente surpreso – simplesmente já não me resta nada para que possa passar um Natal digno de tantas famílias que existem aí…sinto-me como se tivesse perdido tudo e no fundo a culpa é toda minha! – Javi via na sua frente, uma rapariga que mantinha os braços amarrados um no outro e bem junto ao peito, indefesa, a chorar, completamente frágil. Os seus olhos vermelhos, a pele inchada, o rosto cansado…uma Isabel tão diferente daquilo que estava habituado a ver. Sem falar no quanto ela tremia de frio e com apenas uma camisola fina a pousar sobre o seu corpo.

- estás gelada…toma! - Javi tirou o seu casaco preto de malha pousando-o sobre as costas de Isabel. - Tu não estás bem…há quanto tempo estás aqui? – ela tomara percepção que realmente estava com imenso frio. Perdera a conta ao tempo que esteve a vaguear por aquelas ruas e como o tempo estava gelado. Esquecera-se também do pormenor de não ter trazia do um casaco mais quente e o quanto lhe estava a saber bem sentir o calor que provinha daquele casaco e a satisfação que isso lhe trazia. 

- não sei… - respondeu num murmuro

- porque estás aqui? 

- discuti com a minha avó…ou melhor, ela descobriu o que se passou nas corridas de motos. 

- eu juro que não fui eu que falei! – falou de forma automática.

- eu sei… - sussurrou – eu estava a conversar com a Marisol e a minha avó ouviu a parte da conversa onde falávamos sobre isso. – novamente, gerara-se um certo silêncio. Apenas se ouvia o soluçar de Isabel já que Javi não sabia o que dizer. O corpo dela começara a balançar mostrando a fraqueza que a abrangia. Valeu a Isabel os reflexos de Javi que a segurou rapidamente. 

- joder! Tu comeste? - resmungou

- não…mas eu também vou para casa… - Isabel começou a afastar-se e estava prestes a virar costas quando a voz de Javi a fez parar.

- eu sei que não tenho nada a ver com isso e muito menos que me meter mas…tu disseste que não tinhas para onde ir – o olhar de Isabel centrou-se nele – como é que vais para casa? – Ela mirava-o atentamente. O que levava Javi a estar ali ao pé dela? E justamente ele? Aquele presunçoso, aquele que não gostava dela e nem tão pouco Isabel gostava dele? O que será que os movia para estarem ali? E principalmente para Javi não a estar a deixar ir embora? No fundo, nenhum deles o sabia. Javi estava simplesmente a ser movido por uma onde de compaixão que nunca vira. Vê-la naquele estado de apatia estava a deixa-lo com uma certa curiosidade. Sim curiosidade…uma certa vontade em querer saber mais dela, em conhecer a faceta frágil de uma rapariga que para si, não passava de uma irreverente. 

- eu cá me desenrasco…

- hei, espera… - Javi puxa-a pelo braço – anda comigo. – Isabel olhava-o com uma certa desconfiança – anda! – ela não dissera nada, simplesmente o seguira. Saíram da ponte e caminharam para que parassem em frente a uma carrinha. Javi caminhou até à zona de trás tirando de lá algo que Isabel não percebera logo à primeira. – segura…mas cuidado que está quente! 

- o que é que… - Isabel não estava a perceber mas assim que reparou na carrinha que era, arregalou os olhos. Assim que cada um tinha uma malga na mão, caminharam até a uma zona mais recatada, onde tinham umas mesas. Sentaram-se.

- Hoje é noite de consoada e todos os anos há uma carrinha da associação onde fazemos voluntariado para distribuir sopa quente aos mendigos. E eu aceitei ajudar…era isto que estava a fazer na rua quando te vi. – Isabel simplesmente olhava-o atónica, sem dizer uma única palavra. Mil pensamentos sobrevoavam a sua mente mas nenhum era capaz de explicar aquele momento tão imprevisível. – está frio…acho que esta sopa vai aquecer-te…e a mim também! Javi começou a comer um pouco daquela sopa e Isabel seguia-lhe o exemplo.

- logo tu?

- como assim?

- e logo tu tinhas que estar aqui? – a sua voz não passava de um sussurro – isto não faz muito bem a tua onda…tu o próprio referiste muitas vezes que não tens cara de misericordioso. Ou vais me dizer que estás aqui porque te deu pena dos pobres e preferiste fazer uma boa acção? – ele olhou-a. Olhou-a e deixou-se ficar em silêncio apenas a mira-la. Acabou por deixar escapar um sorriso irónico.

- tu também não tens cara de quem goste de passar o Natal nas ruas e aqui estás.

- o meu caso é diferente! – tentou defender-se enquanto saboreava um pouco daquela sopa quente.

- também o meu.

- eu nunca passei uma noite assim… - a sua voz frágil e chorosa voltou a assombra-la – sempre passei rodeada de gente, com a família…de volta de uma mesa cheia e confortante. – ela começou a mirar a sopa deixando de o encarar – um ano passávamos cá e o outro era passado na minha outra família em Lisboa… só que mesmo assim as coisas nunca foram fáceis mas para mim mesma. Por mais amor que recebesse eu sentia sempre algo que fazia falta. Talvez porque sou adoptada que me sinta assim…não sei…talvez se fosse criada com eles desde bebé não me sentisse desta forma mas quando os meus pais me adoptaram eu tinha quase três anos. Eu tinha passado esse tempo todo com uma outra família, com outra mãe e pai, em outro lugar, com outros costumes. É simplesmente sentir-me presa a um passado que não volta mais a ser meu mas que foi. E o que mais me entristece é não me conseguir lembrar de nada! Tenho ideias muito vagas…não tenho uma única fotografia da minha outra família porque simplesmente fui abandonada! 

As lagrimas tomavam conta do seu rosto. As palavras fluíam de si com uma naturalidade assustadora permitindo que desabafasse todos os seus tormentos mesmo aqueles que nunca os dissera. Talvez fosse mesmo isso que Isabel precisasse…de desabafar e ter alguém que a ouvisse, mesmo que fosse Javi. Este apenas a olhava calmamente e sem saber o que dizer. Vê-la ali, tão frágil deixava-o à toa… 

- Joder, eu nem deveria de estar a falar sobre isto! – Isabel tentou-se recompor e limpou depressa as lagrimas. Por mais vontade que sentisse em falar sobre aquilo, sentia que não era o momento certo e nem com a pessoa certa. Ela nunca desabafara coisas daquele género nem com a sua melhor amiga, porque estava a fazê-lo com ele? Justamente com ele? Talvez porque se sentia tão em baixo, tão sem forças ou porque estava a passar aquela quadra natalícia junto de dele? Pressentindo que Isabel iria sair da mesa, Javi prende-lhe a mão. 

- não vás, espera… - ela olhara-o expectante – queres me ajudar a distribuir o resto das sopas? Uma ajuda é sempre bem-vinda – explicou ao sentir a falta de reacção por parte dela. 

- pode ser – disparou. Porque não? O que travaria Isabel a não aceitar e passar aquela noite de maneira diferente? Talvez ela precisasse daquilo. De um alento diferente, encarar a realidade e talvez encontrar um pouco de conforto para todos os seus tormentos. E assim saíram dali, passando o resto do final da tarde a distribuir os alimentos pelos mendigos. Alguns já eram conhecidos tanto de Javi como de Isabel. Já haviam feito aquilo algumas vezes mas ela percebera que a cada dia, encontrava-se novas pessoas a dormir nas ruas. Era triste…eles estavam sozinhos, ao frio, à fome. Sem ter para onde ir. A vida nem sempre era justa e Isabel sabia disso e percebera à medida que chegava perto de cada pessoa entregando aquele pequeno suplemento alimentar. Aos poucos, todo o seu coração ia aquecendo contrastando com o frio que se fazia sentir naquela cidade. A confusão que sentia dentro de si ia-se apaziguando dando lugar a uma calma confortante. 

- agora podes dizer… - Isabel e Javi tinham acabado de distribuir as sopas que tinham disponíveis. Ainda estiveram à conversa com mais alguns membros da associação mas agora encontravam-se sozinhos – ainda não disseste porque estavas aqui. – Javi olhou-a.

- estás a falar do quê?

- porque estás a fazer voluntariado na noite de Natal se não tínhamos a obrigação de estar cá. E já disse…eu não te acho com cara de misericordioso.

- interessa-te tanto assim saberes isso? 

- hum…por acaso…confesso que tenho a minha curiosidade aguçada para saber.

- então vê lá se não controlas essa tua curiosidade aguçada demais! – ripostou. Javi começou a caminhar em direcção oposta da zona onde se encontravam.

- juro que não te entendo! – acabou por responder Isabel depois de o deixar caminhar alguns metros. Javi parou, encarando-a. – num momento tanto consegues ser calmo e atencioso como no minuto seguinte és um bruto! És sempre assim tão inconstante? Eu fiz-te uma simples pergunta e olha só como ficaste. – Era aquilo que Isabel não conseguia entender nele. Há minutos atrás tinha sido tão atencioso consigo e agora tratava-a com brusquidão. Seria assim com toda a gente? 

- eu simplesmente não quero falar sobre isso, pode ser? 

- pode sim! – ripostou - Aliás nem precisas de falar nada até porque de ti não quero saber nada… - murmurou visivelmente chateada. Por momentos ficaram ali, a uma dúzia de metros de distancia sem nada para dizer ou fazer. Algo os prendia ali e não sabiam o quê. Javi mirava distraidamente as casas que estavam à sua frente enquanto que Isabel mexia no cabelo. Achando aquele momento patético, Javi começa a andar até junto da sua mota que estava perto dali. Isabel fizera o mesmo e caminhou até à zona do seu carro que já estava mais distante. Ele acabara mesmo por se deixar sentar na berma do passeio. Deixou a cabeça descair-se sobre a sua mão apoiada na perna e fechou os olhos. 

“agora podes dizer… ainda não disseste porque estavas aqui”
“eu simplesmente não quero falar sobre isso, pode ser?”

Javi simplesmente não conseguia falar sobre o motivo dali estar. No fundo custava-lhe admitir a si mesmo. Num certo ponto, Isabel tinha razão, quando referia que ele não tinha cara de misericordioso. De facto, ele não tinha mas talvez estar ali fosse uma escapatória para o seu real problema. De não pensar que tinha também uma família e que não estava ao pé dela. Que já fazia três anos que passava o Natal sozinho. Desde que fora renegado pelo seu pai, desde aquele acidente…
Estremeceu.
Aquele acidente era uma memória viva dentro de si, algo que latejava cada vez mais forte…aquela noite que roubara não só a vida do seu amigo como a sua também. Ali estava o motivo que não queria explicar a Isabel. Simplesmente passava o Natal fora de casa porque aquele acidente tinha sido a sua sentença. O seu pai nunca aceitara a forma como tudo tinha acontecido e a inocência dele tinha sido posta em causa. Lembrava-se de que quase ninguém acreditava em si tanto que no final tinha sido considerava culpado por aquele acidente. E Javi sabia tão bem que no fundo a culpa não era sua. Não…não podia ser. Ele jamais faria algum mal a Paco. Jamais magoaria o seu irmão de coração. Jamais…

- toma! – os pensamentos de Javi foram abruptamente interrompidos pela chegada repentina de alguém. Abrindo os olhos viu Isabel a sentar-se do seu lado e com uma saca na mão.

- o que é isto?

- abre e vê! – respondeu com uma certa petulância. Javi assim fez e tirou de dentro do saco um cachorro quente. Ele olhou-a um pouco confuso. 

- eu não pedi nada.

- ouve, eu estou cheia de fome e aquela sopa não me satisfez. Eram os últimos, por isso se quiseres aproveita e come! – Isabel começou a comer um pouco do seu cachorro que estava quente mas que sabia-lhe bem à fome que tinha. Javi fez o mesmo e também não pôde de deixar de notar que aquele petisco viera em boa hora. Ambos comiam, em silêncio. Estranhamente juntos, ali estavam…a partilhar de forma inesperada aquela noite fria. Algo fizera denotar Isabel para que voltasse ali. Seria o facto de que ambos não tinham para onde ir e que as únicas companhias restantes eram a de um e a do outro? Que inexplicavelmente só se tinham um ao outro? 

- toma, também trouxe bebidas… - Isabel deu-lhe para a mão uma garrafa de cerveja igual à sua. Javi aproveitou de imediato para dar um gole já que aquele cachorro para além de estar saboroso estava bem picante.

- Feliz Natal… - depois de algum silêncio, Javi interrompe-o. Ela olha-o um pouco surpresa e fica a mira-lo. Sentiu um nó no estômago ao relembrar do sítio onde estava e como ali foi parar, fazendo-a lembrar que tinha discutido com a sua avó, saiu de casa e veio parar à rua. Aquilo fê-la quebrar mas não havia só a parte triste mas como também a parte inesperada, tal como, ter Javi ao pé de si, oferecer-lhe o seu casaco, dar-lhe sopa e irem ambos distribui-las aos mendigos. De facto, esta a ser uma noite tão inesperada e surreal, onde nada parecia ser verdade e todos os acontecimentos apareciam de uma forma fugaz e incapaz de serem controlados. 

- Feliz Natal para ti também… - sussurrou.




sexta-feira, 25 de julho de 2014

Capitulo 16

As horas passavam. Dolorosamente passavam. Aquele relógio fazia tique-taque sem parar e era o único barulho que se fazia soar no meio daquela sala escura e fria. Era o barulho dos ponteiros e o incessante bater dos pés de Isabel. As suas pernas tremiam, o seu corpo estava gelado, os nervos estavam em alta. Eram três e vinte e duas da manhã e estava ela no sitio onde jamais esperaria pisar os pés. Numa cela da esquadra da policia. O seu estômago dava voltas quase expelindo tudo o que ainda restava no seu conteúdo. Isabel repugnava-se por aquela noite existir. Não devia estar ali. Não devia. E agora? Como iria sair? Como iria explicar à sua família que andou em corridas ilegais e que foi parar à policia? Jamais a perdoariam. Jamais. Sem falar nos seus pais que a mandavam de volta para Lisboa sem pensar duas vezes. Não que essa ideia de voltar para sua casa, fosse insuportável, bem pelo contrário. Ela até preferiria ir embora daquele lugar…odiava aquilo. E odiava-se a si mesma por ter pensado que as coisas poderiam ser diferentes. Estava a ser tudo igual ou pior. Bem pior…
Já Javi, mantinha-se sereno, em comparação a Isabel. Sentado ao seu lado, permanecia calado e com uma expressão indecifrável. Parecia que a sua cabeça estava longe dali. Também sabia que estava em maus lençóis e que estar na esquadra era algo que o deixava tramado. Apesar de ter o seu advogado a tratar da libertação, nada era garantido que saísse dali ileso. Estavam presos por supostamente participarem em corridas ilegais e Javi insistiu perante o seu advogado que era mentira. Não podia dizer o contrário já que tinha um historial suspeito. Agora só restava esperar e sair dali o quanto antes.

- como é que tu consegues? – Isabel começou a falar. Javi olhou-a. – Explicas? Estamos presos e tu estás com essa calma toda?

- queres que faça o quê? Que solte um grito de misericórdia? Já me chegas tu aqui do meu lado que não paras quieta! – resmungou

- é normal sabes? Estou presa e sabe-se lá como é que isto pode acabar! És mesmo imbecil e a culpa é tua!

- Minha? – ele olhava-a incrédulo – a culpa é minha? Que eu saiba foste tu que saltaste para cima da minha moto, não fui eu que te arrastei e muito menos trouxe-te para sítios onde não deverias estar. Não tenho culpa que a princesinha resolva ir para um lugar que não lhe compete!

- Ah pois eu esqueci-me! Tu já estás habituado a isto não é? Afinal tu não és peça que se cheire, nem daqui nem de longe! – Ripostou completamente furiosa. Ela no fundo sabia que Javi tinha razão. Ela estava ali, no fundo, por culpa sua. Porque aceitou o convite do Marco, porque quis fazer ciúmes a Marisol e por isso é que estava ali. Por culpa sua. Javi iria ripostar mas a chegada de alguém impossibilitou-o disso. Olhou na sua frente e viu o guarda prisional.

- Javier Martinez?

- sou eu.

- pode sair! – Javi levantou-se num ápice e pegando no seu casaco que estava despojado ao seu lado, saiu dali. 

- estou livre?

- sim. – Isabel olhava para aquela cena impávida. Também ela se levantou. E ela? Onde ficaria no meio daquilo tudo? Não podia ficar ali, de modo algum. Porque é que Javi se estava a ir embora e ninguém falara no seu nome?

- Hei e eu? – perguntou em pânico. Javi olhou-a quase como se apercebera que afinal ainda restava ela ali.

- tu o quê?

- eu não vou ficar aqui!!

- mas ele não falou no teu nome… - Javi encostou-se às grades – se calhar ficas aqui.

- Não! – gritou – não fico nada aqui! Se tu saíste também eu tenho de sair!

- não chamaste nenhum advogado?

- achas? – a sua voz estava a tremer-lhe – a minha família matava-me se soubesse que vim aqui parar! – ela gritava já com o medo a dominar-lhe todo o seu estado de espirito.

- e achas que a minha família também não se vai passar quando souber? Lo siento…não posso fazer nada – Javi preparava-se para virar costas quando sentiu a mão dela a prende-lo pelo braço.

- espera! Não me deixes aqui! Por favor Javi…

- eu não posso fazer nada por ti!

- podes sim! Fala com o teu advogado não? Tirou-te a ti porque não me pode tirar a mim?

- porque haveria de fazer isso?

- ai que ódio! – gritou – andá lá! – Javi percebia bem o desespero que estava estampado no rosto de Isabel e por isso, apoiou os cotovelos sobre a grade, encarando-a.

- com uma condição.

- qual?

- tens de me pedir desculpa.

- o quê? – ripostou – desculpa por quê?

- de quê? Olha deixa cá pensar…talvez porque me deitaste café quente em cima de mim!

- ainda isso? – ripostou exasperada.

- ainda? Por causa disso eu estou a fazer voluntariado como se tivesse vida de misericordioso. E a culpa é tua! Por isso…quero que me peças desculpas.

- nem morta! – gritou-lhe.

- tens a certeza? 

- te ódio cabrón!! – gritou abanando as grades

- vale, vale… - ele levantara as mãos em sinal de defesa – eu tentei. Tu não quiseste. Adíos! 

- não, espera! – Javi olhou-a expectante

- o que foi? Mudaste de ideias?

- desculpa – disse passado alguns segundos de silencio. Falou num tom de voz tão inaudível que parecia não passar de um murmuro.

- o que disseste? Eu não ouvi.

- eu já disse!

- mas disseste o quê?

- o que tu querias que eu dissesse!

- e o que é que queria que tu dissesses? – ele estava visivelmente a irrita-la. E estava a conseguir.

- Desculpa! – gritou 

- desculpa porquê?

- Desculpa por ter-te virado café em cima! – gritou de uma só vez. Javi olhava-a satisfeito.

- e vais voltar a repeti-lo? – ela revirou os olhos.

- não… - respondeu trincando a língua quase repugnando-se pelo que estava a dizer.

- linda menina! Custou assim tanto? – aquele sorriso trocista estava a deixa-la tola. No seu intimo, Isabel queria afoga-lo em café quente só pelo que estava a obriga-la a fazer. Acabou por se desviar e abriu a porta da cela. – podes sair. – Isabel olhou-o desconfiada.

- tens de falar com o teu advogado primeiro.

- ah…isso? não é preciso. Ele pagou logo as duas fianças. – os olhos de Isabel esbugalharam-se. Javi sorriu. Ele fizera tudo aquilo de propósito. Ele já sabia que Isabel tinha a fiança dela paga só quisera testa-la. Ela nem queria acreditar no que acabara de acontecer e no quanto tinha sido burra por cair na conversa de Javi. Ele fez de propósito, queria de uma forma propositada que ela fizesse aquilo, que lhe desse o pedido de desculpas.

- tu fizeste de propósito! – gritou-lhe ao sair da cela – que cabrão! – sem pensar em mais nada, Isabel parte para cima dele mandando-lhe murros contra o peito dele – tu vais-me paga-las, estupido! – Javi ria-se. 

- nem imaginas o quanto eu gosto de te ver assim, brava…zangada!

- odeio-te! – garantiu com todas as suas forças. Javi virou-lhe as costas ignorando-a. Isabel sentia-se magoada. Aquela noite estava a ser um tormento e já não bastava isso como também o jogo sujo de Javi. A sua vontade era de lhe bater até não puder mais. Era chamar-lhe todos os nomes possíveis e imaginários, sendo que nem isso bastaria. Mas no fundo não podia repugna-lo assim tanto, afinal ela só estava ali por culpa sua. Quem a mandou correr com o Javi? Quem a mandou ser tão impulsiva? 
Assim que chegaram à recepção foram brindados pela presença do advogado e do policia. Ficaram mais uns minutos a conversar, onde ouviram os avisos ao qual estavam de escuta. Nada de corridas, nada de motas. Conseguiram sair de lá e já eram quase quatro da manhã. Isabel sentia-se demasiado cansada, doíam-lhe as pernas e agora era acusado as dores que sentia nos pulsos, devido à força que exercera ao abraçar Javi ainda durante a corrida. Estava de facto cansada.

- vocês ouviram…por isso espero que não seja chamado aqui pelo mesmo motivo.

- podes ficar descansado, isto foi uma vez sem exemplo – disse Javi.

- muito bem. Querem boleia?

- eu quero! – Isabel respondeu de imediato querendo evitar, a todo custo, mais uma viagem junto de Javi.

- e tu Javi?

- eu vou de mota…que eu saiba não me tiraram a carta, por isso posso conduzir.

- tu é que sabes – Juan, o advogado, vira-se para Isabel – vamos?

- sim… - e assim foram. Cada um para o seu canto. Tinha sido uma noite em cheio e completamente inesperada. Isabel só queria esquecer o que acontecera, que encontrara a sua prima, o quanto ela lhe provocou, o facto de ter corrido com Javi, a loucura desse momento, o despiste da policia, pararem à esquadra, a chantagem dele…e claro, aquele beijo. 



***



- como sabem, é importante o facto de fazermos serviço na comunidade pois a nossa função enquanto enfermeiros é demasiado grande para ficar apenas pelos hospitais… - a professora falava. eram nove horas da manhã e o dia estava a custar a passar. Isabel sentia-se demasiado cansada. Só conseguira dormir três horas perdera a conta aos sonhos que tivera com motas. Ser perseguida pela policia, ficar dias e dias presa, a família que ficou contra si, até em Javi sonhara. Aquele maldito nem em sonhos lhe saía do pensamento…

- pst….pst! – Adriana dá um encontrão a Isabel, fazendo-a despertar – hei, bom dia!

- ah?

- bom dia!

- o que foi?

- isso pergunto eu…é que nem quero imaginar o que andaste a fazer de noite. Já reparaste na tua cara? 

- prefiro nem falar nisso.

- o que se passou?

- depois conto-te…

- oh vá lá, conta agora!!

- não! Se te contar agora tu ficas louca. Já disse, conto-te na hora do almoço…

- está bem, está bem… - A aula continuou mas para Isabel nem tinha começado. Sentia-se bem longe dali. Completamente a leste e com a sua cabeça a pesar-lhe imenso. Mais duas horas e aula tinha terminado. Apressaram-se a sair da sala e rumaram até ao exterior. Estava bom tempo e sentaram-se num dos bancos.

- podes contar agora? – pedia Adriana em êxtase

- sabes que… - Isabel acaba de ser interrompida pela chegada de alguém. Olha na sua frente e vê uma das pessoas que não queria ver e ao qual estava um pouco magoada.

- posso? Preciso de falar contigo!

- o que queres? – ela tinha sido frontal e Marco percebera que ela estava chateada.

- falar sobre ontem à noite…eu já soube que a policia apanhou-vos!

- policia? – interrompeu Adriana

- eu já volto Adriana! – Isabel levantou-se e caminhou até a uma zona mais recatada. Marco seguiu-a.

- desculpa…

- tu não quiseste de saber de mim. Porquê? 

- hei, não sejas assim! nós tivemos de fugir da policia, quando conseguimos despista-los soubemos que tinhas parado na esquadra!

- pois é, parece que o azar foi mesmo todo meu!

- também porque é que foste correr com o Javi?

- não tens nada a ver com isso! – ripostou – só podias ter ligado não? Afinal levaste-me para aquele sitio e acabei a noite presa!

- já te pedi desculpas. Isto não costuma acontecer…

- desculpas não aceites.

- hei…vais ficar chateada comigo? Fiquei mesmo preocupado contigo! Hoje faltei ao trabalho para vir aqui pessoalmente ver como estavas. – Isabel olhou-o atentamente e ficou a pensar até que ponto estaria ele a dizer a verdade. De facto, sentia-se magoada por Marco não ter dito nada mas ele estava ali. De facto, tinha de valorizar aquela atitude mas por outro, ele nem quisera saber dela. Será mesmo que não? Se assim fosse, não estava ali. 

Ao fundo, reparou na chegada de uns quantos rapazes que vinham todos do pavilhão. O barulho deles era bem intermitente e nem Isabel conseguiu ficar alheia a isso. Reconheceu um deles…era Javi. Conversava animadamente mas também ele deu pela sua presença. Parecia quase premeditado o facto de ambos se olharem. Ele fixava o seu olhar nela mas Isabel preferiu ignora-lo acabando por dar um abraço a Marco. 

- obrigada…por teres vindo até cá – respondeu encarando-o de novo.

- mas está tudo bem? Aconteceu-te alguma coisa ontem?

- sim, está tudo bem…e se não te importares prefiro não falar nisso..

- vale, tens razão…mas olha, podemos marcar outra saída? Desta vez escolhes tu o sitio!

- não sei…

- anda lá… - ele pedinchava – dá-me uma oportunidade para provar que sou boa pessoa! – Isabel gargalhou.

- vale. Tens uma única oportunidade de te redimires!

- gracias…



***



Os dias foram passando. Estava-se em meados de Dezembro e faltavam quatro dias para o Natal. Aquela cidade não parava…eram as pessoas que passeavam, faziam as compras de natal, as luzes que iluminavam toda a cidade, as músicas natalícias, o cheiro típico daquela quadra tão especial. Tudo se tornava especial em Dezembro. Era algo mítico, algo que acabava por unir as pessoas. Partilha, generosidade, amor, paz, reunir com as famílias…sem dúvida, uma época especial e que todos ansiavam para que chegasse. 
Adriana, Ricardo e Renato aproveitavam aquela manhã chuvosa para fazerem as malas. Estavam de partida para Portugal, onde iriam passar a quadra natalícia junto das famílias. A casa estava um alvoroço. Entre malas espalhadas, correria em guardar tudo, ninguém queria se esquecer de nada e ter tudo pronto para que, daqui a umas horas, rumassem para o aeroporto.

- os teus pais não vêem cá?

- não… - respondia Isabel enquanto via Adriana a arrumar as suas coisas – eles vão ficar a fazer noite no hospital – era bem visível o desalento que trespassava Isabel. Evitara falar nisso nos últimos dias porque não queria incomodar os seus amigos com as suas lamurias. Não quando os via tão animados para regressarem a suas casas.

- oh Isabel… - Adriana sentou-se do seu lado – anda connosco para Lisboa! Já que não queres ir para a casa dos teus avós, ao menos ficas connosco…

- obrigada mas não. Eu fico cá…

- até quando é que vais ficar assim com os teus avós? Não achas que estás a ser um pouco injusta? Deverias aceitar o convite deles em passar o natal lá. Caramba, são a tua família! Eles preocupam-se contigo e querem-te de volta! Há quanto tempo estás assim? já vai fazer um mês Isabel! Não tens saudades deles? – ela olhou para a sua amiga. Adriana percebeu o quanto ela queria dizer a verdade, o quanto aquela situação a atormentava. O quanto Isabel sentia a falta da sua família.

- tenho…eu tenho saudades deles. Claro que sim. Só que… - parecia que lhe faltavam palavras – eu não me sinto bem aqui, acho que foi um erro ter vindo para Múrcia! 

- um erro? Oh Bela não digas isso…tu estás magoada, por isso é que pensas que foi um erro teres vindo para cá.

- não é por estar magoada Adriana! Tu sabes bem que eu não queria vir. Eu não queria Múrcia! e sabes também que só coloquei a hipótese desta universidade por causa da minha mãe. Por mais que eu ame os meus avós, isso não basta para me sentir feliz! Eu passei vinte anos a sentir-me deslocada. Sabes o que é isso? saberes que não pertences aquela família? Que eles não são do teu sangue? Sabes o que é tu não poderes dizer com quem és parecida porque no fundo não és com ninguém? Não há nada fisicamente que te ligue aquele mundo? Sentires-te desconectada, cheia de fragmentos, quereres tanto conhecer as tuas origens e não saberes por que ponta começar porque não existe raio de ponta nenhuma?! É passares vinte anos da tua vida a imaginares como serias se a tua mãe biológica não te tivesse abandonado, porque o fez, onde é que ela está…ter uma outra família e não saber onde ela está! Querer descobrir mas ninguém te ajudar! Por mais que os meus pais adoptivos e os meus avós tenham sido incansáveis comigo, eu não pertenço a esta família. Por mais amor que me tenham dado, por mais que quisessem que fizesse parte deles, eu não consigo sentir-me parte deles. Não enquanto eu me sentir perdida, sem saber as minhas origens, sem saber quem eu sou! Percebes? – Adriana olhava para a sua amiga um tão pouco sem palavras. Isabel estava tão perdida e isso era bem visível. Os seus medos, angustias, duvidas, receios e esperanças…em tão pouco ela conseguira resumir isso em poucas palavras. 

- oh querida…. – Adriana puxa-a para junto de si – tu vais conseguir encontrar isso tudo. As tuas duvidas irão passar…vais ver! – Sem conseguir aguentar mais, Isabel derrama as ditas lágrimas que tanto a atormentavam. Um choro de quem só queria encontrar o seu verdadeiro caminho. Uma dor desamparada. Uma alma perdida à procura de ser encontrada.



***


Hoje era dia de consoada. Estava frio, apesar do sol que se fazia sentir – sol esse já escasso, nada fazia subir as temperaturas daquela cidade. As pessoas corriam de um lado para o outro atarantadas com as últimas compras de Natal. Nada parecia faltar para mais uma consoada passada junto das famílias. Só que nem em todos os casos se verificava isso. nem todas as famílias estavam reunidas. Nem todos os casais estavam de pazes feitas. Haviam famílias de costas voltadas, pais que não visitavam filhos e filhos que não viam seus progenitores há tanto tempo. Laços desfeitos, pessoas solitárias, havia solidão, tristeza, desconsolo. Porque nem todos são perfeitos e nem todos passam aquela quadra como deveriam. Nem todos terão essa oportunidade. 
Isabel tinha acabado de chegar à mansão. Arrepiou-se só de lembrar há quanto tempo não estava ali…já passara um mês. Lembrara-se da última vez que ali esteve e era uma recordação demasiado lamentosa para ser relembrada mas como também para ser esquecida. Depois da insistência dos seus avós, decidira aparecer ali. No fundo, Isabel morria de saudades deles, queria tanto estar com eles…

- buenos dias Isabel! –a voz suave de Juan fê-la despertar. Olhou de relance e encontrou-o junto às escadas – que bom tê-la por aqui!

- Hola Juan! Também é bom puder vê-lo!

- ainda hoje falamos em si…os seus avós estavam ansiosos para receber a sua visita! – um certo desconforto instaurou-se nela.

- eles…estão lá dentro?

- sim! Acabaram de tomar o pequeno-almoço há cerca de meia hora.

- vale…vou entrar então.

- faça favor.

- até já Juan… - Isabel subiu as escadas que davam acesso à porta principal. Tudo se mantinha igual até mesmo a sensação de nunca ali ter saído. Seria um presságio? Algo que gritava dentro de si para voltar a morar ali? Respirou fundo e abriu a porta que já estava encostada. Conseguiu distinguir o misto de vozes provenientes do fundo. Entrou sorrateiramente e precisou apenas de alguns segundos para as distinguir. Um sorriso invadiu o seu rosto ao ouvir o riso afável dos seus primos. Podia adivinhar que era Enrique, o mais travesso. Juntamente com ele, estava Francisco. Eram inseparáveis os dois. Provavelmente estariam a jogar consola, era o maior vicio de ambos. Continuou a caminhar e ao olhar para o seu lado reparou numa das fotografias que estava despojada sobre a mesa. Isabel deveria ter os seus seis anos. Estava debruçada sobre o colo do seu pai, junto ao rio. Sem saber o porquê, ficou petrificada a olhar para ela…nem ela se lembrava de ter sido tirada, nem mesmo daquele momento. Aliás, porque é que não se sentia capaz de recordar o seu passado? Porque não se lembrava nada da sua vida passada junto da família biológica? Porquê a existência daquele lapso na sua memória?

- Isabel? – assustada, ela dá um pequeno passo para trás. A voz do seu avô sobressaltou-a de uma forma inesperada. Olhou na sua frente e viu-o. Com a sua bangala, o chapéu cinzento, os olhos escuros e intensos, aquela altura impassível, o seu jeito inigualável…e ali estava, parecendo engolido pelo passar da idade, a olha-la bem no seu jeito protector, aquela saudade trespassada no sorriso já cansado. Ali estava, quase implorando para que ela o abraçasse e ele a apertasse daquele jeito que só ele o sabia fazer. E assim fez. Isabel jugou-se nos braços de Javi abafando o seu choro contra o peito dele. E Javi abraçou-a, confortou-a, no seu jeito paciente deixou-a consolar-se da falta que aquilo que fazia, tal como só um avô o sabe fazer.

- oh avô…

- mi enana…tu vieste! – Isabel desprende-se dos braços dele, encarando-o.

- você está diferente… - ela encarou-o quase como examinando cada retalho dele – e está mais magro! Tem-se alimentado em condições? Eu sinto-o mais abatido, aposto que tem feito esforços! – acusou-o. Javi gargalhou.

- já tinha tantas saudades da minha Maria mais nova! – Javi coloca-lhe o braço sobre os ombros, puxando-a para junto de si. Isabel não se coibiu em deixar escapar um sorriso. Que falta que fazia-lhe ouvir aquela gargalhada calorosa, sentir os braços fortes do seu avô…

- onde está a avó?

- provavelmente a chatear a cabeça a alguém… - Isabel olhou-o de relance – não lhe digas nada mas… - Javi sussurrava – ela hoje está um pouco chata. Ah e também está mais teimosa do que já costuma ser… - Isabel sorriu ao ouvi-lo. Também sentia saudades daquilo.

- mas porquê? 

- porque hoje é a consoada e ela não pára de um lado para o outro! Até parece que já não sabes como é a tua avó nestas alturas… - Javi pisca-lhe o olho.

- paciência avô….paciência! – os dois caminharam, abraçados um ao outro, pelos corredores da casa. Pararam junto à cozinha. Isabel pôde comprovar com os seus olhos o quanto a sua avó andava de um lado para o outro, atarefada e concentrada, a fazer as especiarias de Natal. Assim que Maria deu pela presença deles, focou de imediato o seu olhar em Isabel. A sua avó estava igual…parecia que por ela, o tempo não passava. Maria apressou-se a limpar as mãos e a correr para junto dela. Acabou por a envolver num abraço bem forte. Mais um abraço para que Isabel quebrasse, mais um sentir forte para perceber as saudades que sentia daquilo tudo. Que mesmo tendo a sua vida numa tamanha confusão, ela sentia imensas saudades deles. 

- minha enana! – a voz de Maria era afectuosa, quente, melódica, tão confortante… - ainda bem que estás cá!

- eu…eu quero pedir-vos desculpas pelas minhas atitudes. Eu sei que exagerei e não deveria ter feito as coisas dessa forma… lo siento.

- hei…já passou, vale? Já passou e está na altura de virar a pagina pode ser?

- pode! – respondeu com um sorriso no rosto

- queres me ajudar? Preciso de mais umas mãos para acabar os doces todos!

- claro que a ajudo avó! mas…e a Pilar não está?

- foi até à cidade buscar as encomendas que fizemos! Eu bem que pedi ajuda ao teu avô mas só consegui receber prejuízo até agora… - Maria lança um olhar reprovativo a Javi e este olha-a com um falso perplexo.

- prejuízo? 

- sim, prejuízo! olha e as caixas que te pedi para ires buscar, onde estão?

- eu ia a caminho da arrecadação busca-las mas pelo meio encontrei o meu outro doce… - o olhar incide sobre Isabel – mas já vou buscar! Já vou! – tanto Isabel como Maria gargalharam.

- É, se não conhecesse o meu marido…até te comprava! Deixa…eu vou contigo que tu ainda podes tropeçar com essa maldita bangala…

- eu sei bem cuidar de mim! – resmungou

- é melhor você aceitar a ajuda da avó, eu notei que está com dificuldade em andar! – interveio Isabel

- estás a ver? Ouve a tua neta!

- pronto…eu estou tramado com as minhas Marias juntas contra mim! 

- é para o seu bem avô!

- Anda, vamos que eu tenho muito para fazer!

- podemos ao menos, ir de braços dados? Torna o momento mais romântico! – declarou com aquele sorriso que nunca desaparecera e permanecia intacto. Aquele sorriso que fazia Maria apaixonar-se perdidamente por ele.

- Ai Javi… - seguiram os dois pela cozinha fora, deixando Isabel sozinha. Apenas restava ela…a olhar para aqueles ornamentos todos. Lembrar dos tempos de Natal em que era pequena e passava as manhãs a correr até ali, há procura de um doce ou até mesmo a querer ajudar os adultos a preparar os doces.

- avó, você tem… - a chegada de alguém soou que nem alarme na cabeça de Isabel. Olhou na direcção da porta e o seu olhar estagnou na chegada de alguém. Marisol. Surpresa, era tudo o que aquele olhar queria dizer ao reparar na presença de Isabel ali, bem na sua frente. – hum….estás aqui?

- dá para ver que sim – Isabel respondera de uma forma curta e grossa, tentando controlar os seus pensamentos.

- não esperava ver-te por cá – Marisol caminha pela cozinha parando do outro lado do balcão.

- apanhei-te de surpresa, foi? 

- a mim? Oh…claro que não! Apenas habituamo-nos a não ter-te por cá. 

- para grande pena tua, aqui estou! – Isabel força um sorriso amarelo

- e vens para ficar?

- quem sabe… - Isabel fixa o seu olhar no dela e depressa sentiu-se a contrair. Era ali que ela percebia que seria impossível ter o mesmo sangue que ela. Marisol…parecia ser de outro mundo, era egoísta, mesquinha, ciumenta. Como poderia ela ser do mesmo sangue de pessoas tão boas como o resto da família?

- é pena ter que suportar novamente o mesmo ar que tu.

- ainda bem que o sentimento é reciproco.

- afasta-se do Javi! – avisou-a num tom juncoso que nem em pouco intimidou Isabel

- porquê?

- é bem que te afastes dele. O Javi é meu! – Isabel gargalhou

- claro…ele é todo teu! Tirando o pequeno pormenor de vocês não namorarem. Ups…

- ele jamais gostaria de ti!

- olha e ainda bem até porque eu jamais gostaria dele…sabes, ele não combina comigo. Acaba por fazer demasiado o teu estilo.

- então porque foste correr com ele? aquilo foi tudo uma cena para me provocar? – Marisol corroía-se toda. Era bem visível o quanto se estava a controlar. Isabel sabia que conseguiria atingi-la tanto que fora essa a sua intenção. 

- e estou a ver que consegui! Ora confessa… - num tom juncoso e provocador, Isabel mirava-a com um sorriso cínico.

- ora essa! Só me livraste de não ter parado na prisão. Apenas foste tu e ele, presos por participarem em corridas ilegais!

- que história é essa? – alguém aparece ali. Num grande sobressalto, tanto Isabel como Marisol viraram-se na direcção da porta encontrando a avó de ambas, Maria, a olha-las de forma bem conturbada. Um espécie de cliché parecia invadir aquele espaço levando toda a história ao inicio. Depressa Isabel sentiu-se a ser avassalada por uma onde de pânico crescente à medida que fitava o olhar da sua avó e percebia que estava tramada. Agora sim, as coisas voltariam ao mesmo…




quinta-feira, 17 de abril de 2014

pequena informação

boa noite :)

venho até aqui deixar-vos um pequeno aviso/ideia/escolha. não sei se algumas leitoras já devem ter reparado mas nos ultimos tempos tenho estado um pouco ausente tanto no perfil do facebook como também no que toca à escrita. neste momento estou há cerca de um mês sem conseguir escrever uma unica linha na fic da Nunca é tarde para Amar, o que é de todo muito mau. tenho postado com alguma regularidade na minha nova fic Tengo ganas de ti mas porque tenho capitulos já escritos o que me dá a margem de puder publicar com mais regularidade. fora disso, como se costuma dizer, estou numa "seca" da escrita. eu nao gosto nada desta situação e quem paga são voçês que querem ler e, reclamam com toda a razão!
então, venho aqui propor, ou talvez afirmar,a que irei mudar o rumo das fics, ou seja, não as vou terminar mas sim, optar, por encurta-las. na fic da tengo ganas de ti, já tinha decidido que seria apenas uma fic curta, portanto assim permanecerá. as mudanças seguirão mesmo na Nunca é tarde para Amar. Decido então encurtar esta história ao passo que será, nao uma fic alongada, mas sim uma história mais pequena. eu sei que posso estar a ser injusta mas eu não me sinto capaz de continuar a escreve-la com as ideias todas que tenho em mente. Vai demorar imenso tempo a puder escreve-las a todas e nem imaginam o quanto isso me está a deixar "desesperada". portanto, de forma a conseguir terminar as histórias, dar-lhes um inico, principio e fim, só vejo uma unica maneira, ou seja, torna-las mais pequenas. 
desculpem, eu sei, posso estar a ser injusta mas prefiro assim e dar-vos capitulos com mais qualidade. e quem sabe, se com isto, eu consiga até embarcar em outros novos projectos. todos eles mais pequenos. 
com isto, não vos sei dizer quando sai um novo capitulo na fic da Nunca é tarde para Amar, nestas proximas semanas será bem dificil conseguir pegar nela e ter ideias para transpor para o papel. 
mil desculpas, a sério, não estou a ser justa mas não consigo ver outra opção. 
Mesmo assim, gostava muito que voçês dessem a vossa opinião. se concordam ou não. acaba sempre por ser importante para mim!

e assim me despeço, desejando-vos a todas uma continuação de boas férias e uma boa Páscoa.

beijinhos

Diana Ferreira

terça-feira, 8 de abril de 2014

Capitulo 15



Isabel virou-se ficando de frente para ela. Ali estava…Marisol, com o seu sorriso falso, com o seu olhar prestes a lançar a próxima farpa. Cinismo…aquele cinismo todo no que acabava de falar. Em contrapartida, Isabel mostrava-se tranquila.

- digamos que ver-te…é coisa que não vim cá fazer! – ela preparava-se para lhe virar costas quando decidiu falar algo – já agora…os teus pais sabem que estás cá? Numa corrida de motas? 

- não me digas que ficaste de repente, preocupada comigo, querida…

- oh não te maces! Por mim até podias ser atropelada por uma daquelas motas que eu não iria importar!

- sempre a mesma querida…confesso que já sentia saudades desses teu sarcasmo todo. Oh espera! Tu agora não estás mais lá em casa, por isso é que sinto falta disso. – Isabel preferiu respirar fundo e lançar-lhe um olhar que dizia tudo. 

- e já agora… - Isabel tentava mudar de assunto – o que é que tu fazes aqui? – Marisol sorriu enquanto se aproximava de Isabel ao ponto de lhe tirar o seu lenço que estava envolta do pescoço.

- sabes…tava mesmo a precisar de qualquer farrapo para usar de cinto. Este lenço é o ideal para fazer de camomila, ao lado do…javi! – Isabel olhou ao longe e encarou a figura de Javi, sentado na sua mota mesmo ao lado de Marco. Também ele estava ali? No fundo, nada daquilo a surpreendia. Agora, fazia sentido a presença da sua prima naquelas corridas. Ela tentava calcar-se aos pés dele. 

- cuidado, vê lá se o farrapo não se rompe e tu dás com a cara no chão!

- não te preocupes, eu tenho sempre quem cuide bem de mim durante a corrida… - elas estavam suficientemente perto deles. Por isso, Marisol vira-se para o lado onde Javi se encontrava. Começou, aos poucos e ainda virada para Isabel, a dar passos em direcção à mota. Sempre a fita-la. «cabra…» pensou Isabel « és mesmo uma verdadeira cabra! ». no seu pensamento, aquela noite voltou a surgir no seu pensamento. Aquelas palavras, aquela presunção…o nojo que Marisol lhe provocava. Nojo, nojo…era tudo o que sentia. Nojo e uma enorme vontade de partir para cima dela. Puxar-lhe um valente estalo e deixa-la toda marcada. Isabel sentiu enorme ganas de fazer isso mesmo. Não…isso era dar-lhe o protagonismo que tanto gostava de receber. Acabou por sorrir. Sem contar com tal atrevimento, Isabel caminha em direcção a ela, puxa-lhe com força o cinto que ela tinha preso no seu casaco e ganhando-lhe lanço, sorri-lhe cinicamente.

- ainda bem que o dizes! Que tal…de eu testar a tua segurança, hã? – Isabel proporcionou uma boa gargalhada. Dito isto e sempre com a sua postura de dura, orgulhosa mas de quem sai sempre a ganhar, caminha de um jeito vitorioso até junto da mota de Javi. Marisol olhava-a estupefacta. Não, ela não iria fazer aquilo…não podia. Será mesmo que não? Isabel sobe para a moto de Javi. Assim que dá pela sua presença, ele vira-se.

- O que...que porra  estás a fazer aqui?!

- hoje a tua companhia vai ser outra… - ela dera-lhe umas palmadas no seu ombro. Sem perceber nada, Javi vira o seu olhar e ao encarar Marisol percebeu toda a cena. Esta, por sua vez, e sem querer sair a perder, mostra-se também orgulhosa e sobe para a moto de Marco. Ao contrario de Marisol, aquilo não atingia em nada nela. Muito pelo contrario…já Marisol estava prestes a explodir. Aquela ousadia e provocação de Isabel….deixou-a completamente a ferver.

Isabel senta-se atrás de Javi, tal como as outras raparigas estavam a fazer. Poe-se ao contrario pois é assim que exigem as regras, colocando o cinto duplo de camomila. A moto arranca mal ela consegue fechar o cinto no ultimo buraco. Isabel coloca as mãos para trás em modo de segurança e agarra-se à cintura dele. O seu olhar mantinha-se sobre o da sua prima. Isabel sorria e fez questão de amarrar-se muito bem a Javi. Jurava que tinha-a visto a espumar-se de raiva. Sorriu. Aquilo sim, era uma boa vingança. Javi empina e Isabel fecha os olhos agarrando-se com ainda mais força. Não era apenas para espicaçar Marisol mas porque sentiu todo o seu corpo a colapsar perante o susto. Ele volta a acelerar. Cada pessoa que estava ali tinha a sua rapariga. Marco tinha Marisol enquanto Javi tinha a Isabel. Ela olha em seu redor. Um mar de gente olhava-vos, incentivava-os, gritavam todos completamente eufóricos. 

Ali, todas as camomilas têm os braços para trás e agarram-se ao condutor com medo do solavanco da partida. Alguém soava o apito. Gerou-se um momento de silêncio. Todos estão virados para a frente enquanto as camomilas mantêm os olhos fechados. Por momentos, Isabel sentiu-se a vacilar em ter ido parar ali. Ela não sabia o que esperar, não sabia sequer se ia sair ilesa daquela corrida, sem falar que era a primeira vez que andava de mota juntamente com Javi. Novamente soou outro apito mas desta vez diferente. As motos começam a avançar. As camomilas agarram-se com força nos seus homens. Isabel agarra-se com toda a força sobre o peito de Javi. Virada com a cara para o chão, ela percebeu que a estrada estava correr por baixo dela, parecendo terrível e verdadeiramente assustadora. Solta um grito. Aquilo era verdadeiramente assustador e agora sentia-se em pânico, em especial quando Javi volta a empinar a mota andando praticamente em apenas uma roda. Com toda a força, a roda da frente bate violentamente contra o chão arrancando-lhe outro grito. 

As motas tentavam sempre dar o seu melhor mas Javi continuava a corrida, acelerando a todo o gás pouco usando os travões. As linhas das estradas pareciam invisíveis e fugiam a uma velocidade estrondosa do olhar de Isabel. Ela não conseguia olhar para a frente, só fechar os olhos e rezar para que ele parasse. Mas uma luz chamou a atenção de Isabel. Olhou em frente e uma luz ofuscante e azul, pairava ao longe. Ela arregalou os olhos. Pânico, muito pânico. Era a policia.

- pára Javi!!! Pára!!! – ela grita mas este parecia não ouvir – é a policia!! – algo o fez abrandar e assim que se sentia mais segura, num ápice, Isabel arranca aquele sinto da sua cintura, escapulindo pela mota fora.

- estás louca?!

- tu és deves estar!! – ela gritava perante todo o extase e adrenalina que ainda lhe corroía pelas veias. A sua respiração estava descontrolada – a policia vem atras de nós! – Javi olhou para trás. Comprovou que ao longe vinha um carro patrulha.

- puta madre! Sobe! Anda, sobe para a mota! – Isabel voltou a subir mas desta vez não ficou de costas para ele. encostou o seu peito sobre as costas dele e sem contar com isso, Javi volta a dar lanço na mota, voando dali. Fechou os olhos e pela primeira vez sentiu medo por ter pisado os pés naquele sitio. Naquele morro. Estava com medo que aquela noite fosse correr mal e à velocidade a que Javi ia associado ao facto de nas curvas, simplesmente acelerar ainda mais, o coração dela estava prestes a sair-lhe pela boca fora. Perdeu a noção do tempo que ficaram a despistar o carro da policia e talvez a sorte deles fora mesmo o facto de acabar de haver um acidente numa rua que ali perto. Pelo espelho, Javi percebeu que já não havia mais nenhum carro atrás dele e por isso mesmo, aliando ao facto de Isabel o amarrar incisivamente à sua barriga, decidiu abrandar. Pararam quando chegaram a uma rua sem sentido e abandonada. Isabel saltou imediatamente da mota ainda a tentar controlar a adrenalina que a corroía tal como verdadeiras descargas eléctricas.

- puta madre! 

- esta foi por pouco… - Javi suspirava fortemente ainda a captar que teve uma enorme sorte em conseguir despistar a policia, caso contrario sabia que estava em péssimos lençois. 

- tu… andas sempre assim? – notava-se que Isabel ainda não tinha conseguido controlar a sua respiração. Assimilava-se a alguém que acabava de correr a maratona e que de todo estava habituada a correr. Precisou de se encostar a uma pilha de caixotes deixados naquela rua.

- assim como? – ele olhava-a.

- como se quisesses que a tua mota a qualquer momento se espetasse completamente ou saltasse um pneu fora? Tu vias à velocidade que ias?

- querias que fosse a passear pelas ruas maravilhosas de Múrcia e que como escolta até à esquadra tivesses um carro patrulha? – ela calou-se. Javi tinha razão. Sim, ele tinha razão e Isabel tinha de lhe dar o beneficio, apesar de jamais o admitir em voz alta. Parar na policia era a ultima coisa que desejava – e já agora…posso saber porque tive de levar contigo na corrida? Ou posso tirar as minhas conclusões?

- estares calado. É o melhor que possas fazer.

- sabes que não precisas de fazer ciúmes à Marisol, só para a humilhar!

- e quem disse que estou com ciúmes? – Isabel gritou na defesa.

- então explica-me porque correste comigo? – perguntou depois de uns segundos em silêncio. Ela demorara o mesmo tempo a responder-lhe.

- porque gosto de zoar com as pessoas – respondeu com escarnio. 

- é, não me digas que também tomaste o gosto pelas corridas? – houve algo no tom de voz de Javi que Isabel não gostara nem um pouco – faz parte da tua estratégia para zoares com as pessoas?

- qual é a tua? – Isabel levantou-se caminhando em direcção a ele – não te devo satisfações, que me lembre disso! – Javi também se levantara da mota encarando-a com uma feição mais forte, mais carregada.

- estás a meter-te em caminhos perigosos. Por isso, acho melhor zoares com as pessoas em outro sitio.

- não me lembro de ter pedido a tua opinião. – eles estavam demasiado próximos. Ela sentiu-o a mexer-se, Javi estava a levantar a sua camisola ficando com a barriga bem definida à mostra.

- olha só… - o seu olhar incidiu sobre ele – quem parece muito confiante acerca de onde anda a pisar os pés não se amarra tanto a uma pessoa aos pontos de deixa-la com a pele bem vermelha. Podia jurar que ainda com o barulho escurecedor da mota, conseguia ouvir-te a gritar, ou mais…eu bem vi a força com a qual te amarravas a mim. Ou foi tudo imaginação minha? – ele mantinha a camisola erguida e Isabel, ainda sem se aperceber disso, continuava a mira-lo e percebeu o quanto a sua adrenalina tinha provocado. Não se lembrara de o amarrar com tanta força. Acabou por permitir que os seus olhos se fechassem por fracção de segundos. Assim que os voltou a abrir, pressentiu que Javi continuava a olha-la mas já tinha baixado a camisola. Ele parecia estar calmo e sem saber o porquê, Isabel sentia-se estranha. Aquele próprio momento era estranho. 

Porque é que as coisas tinham de terminar daquele jeito? Uma noite que supostamente seria passada ao lado de Marco, estava toda ela a ser disfrutada na companhia de Javi. Isabel sentia-se a perder todo o controle dos seus próprios sentimentos. E ela, bem no seu intimo, só perguntava como é que isso era possível acontecer…

- já te disse, não tens nada a ver com isso. – por dentro, Isabel sentia-se a vacilar. A sua cabeça estava numa tamanha confusão que sentia-se totalmente perdida. Já nada fazia o maior sentido na sua vida, nada mesmo. Desde que chegara a Múrcia que tudo corria inesperadamente. Mais do que nunca, ela se sentia sozinha e o que mais precisava era sentir um pouco de prazer para puder esquecer a confusão em que a sua vida se encontrava. Era engraçado. Naquelas fracções de minutos em que estava naquela mota conseguiu esquecer até quem era ela mesma. Tudo se tinha apagado. Só havia a adrenalina. Por sua vez, e enquanto Isabel pensava naquela tamanha confusão, nem dera pelo facto de Javi a mirar atentamente. Acabou mesmo por deixar escapar um sorriso terno. Aproximou-se perigosamente dela, diminuindo qualquer distancia que ainda pudesse haver entre eles. Isabel apercebeu-se disso e mostrou um pouco de tensão. 

- mas sabes… - Javi tocou com os seus dedos frios sobre a mecha de cabelo que estava à frente do rosto dela, deitando-a para trás da orelha – tenho a dizer que foste uma camomila muito valente – as suas palavras saíram num sussurro. Enquanto olhava atentamente para o rosto de Isabel, esta olhava para todo o seu atrevimento, pela forma como lhe tocava sobre as suas faces geladas, aquela ousadia…amotinada, imprevisível, impensável. O próprio momento que se gerava, todo ele acontecia de uma forma a que nenhum deles pudesse prevê-lo ou mesmo pará-lo. Tão depressa Javi lhe tocava no cabelo como já seguia pelo rosto dela. Tão depressa a empurrava levemente para junto do seu corpo como, da mesma forma, ia diminuindo a distância que os separava.
Tão rápido estava a discutir com Isabel, como igualmente tomara a ousadia de juntar os seus lábios sobre os dela. Tão depressa se odiavam, como de um jeito impensável se beijavam. Tomando a destemida ousadia de a beijar, permitindo que em segundos tomassem conta da boca um do outro. O que começara com um beijo irreflectido, tomou-se num beijo carregado de luxuria, urgência, pressa, ousadia…Javi apertou-a com força contra o seu peito fazendo surgir um suspiro abafado de Isabel.
Porque se beijavam quando conseguiam carregar um odio que os cegava? Se era assim tao certo que a presença tanto de um como do outro, acabava por ser traspassável, que levara Javi, num acto irreflectido, de a beijar? Será que sentiam algo um pelo outro? Será que era isso? que todo aquele ódio que tanta questão faziam em demonstrar era tudo uma fachada para esconder o que de verdadeiro sentiam um pelo outro? Era certo que Javi mexia com Isabel de um jeito inquietante. Isso ninguém poderia negar, nem ela mesma. Isabel sabia que ele mexia consigo, só não era capaz de saber até que ponto e de que forma. Se era de uma forma má ou de uma forma boa. E também Isabel mexia com o próprio Javi. Bagunçava com ele, desafiava-o, testava-lhe os limites como ninguém era ousado ao ponto de fazer tal coisa. Ela não tinha medo dele, não se vergava perante o seu olhar desafiador, ripostava, era directa até demasiado.
Fora Isabel que pôs fim naquele beijo, desgrudando-se dele abruptamente. Javi prendia-a pelas suas mãos não deixando-a fugir, ainda estava tão atordoada com o que acabara de acontecer que nem sabia o que dizer. Isabel precisou de alguns segundos para se recompor e voltar à realidade. Em questão de segundos a memória fustigou-a relembrando de onde estava. Corridas de motos… a fuga à policia…o beijo…o beijo. Ele beijou-a! Isabel arquejou a sua boca a se aperceber que ele tomara a ousadia de a beijar. Estava quase a abrir a boca novamente, quando uma luz incandescente os ofuscou.

- aí, vocês os dois! – uma voz grossa soava de um jeito grave. Ambos olharam para o lado e nem queriam acreditar no que viam. Um homem de aparência alta, um porte forte, com a sua farda azul escura e um chapéu preto na cabeça, saía do seu carro que estava atravessado na rua apontando a lanterna para eles os dois. Policia. Isabel estremeceu completamente assim que leu o letreiro chapado na parte lateral do carro.

- puta madre… - sussurrou Javi

- vocês os dois, façam o favor de me acompanhar à esquadra!

Foda-se!
Era tudo o que Javi e Isabel conseguiam dizer, ainda que fosse por pensamentos. Agora sim, estavam completamente em sarilhos.

***

aqui está ele, finalmente!!!! em primeiro peço imensa desculpa pela demora, passo a vida a desculpar-me mas tou mesmo sem tempo nenhum para escrever. só mesmo graças à pequena pausa que tenho entre exames e estagio que consegui acabar este capitulo!
espero que tenham gostado e aguardo as vossas manifestações!
beijinhos :)



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Capitulo 14



Finais de Novembro.
O tempo passava rápido por ali e entre ele vinha acompanhada a chuva o frio, as ruas vazias acompanhada pelo cheiro a castanhas assadas e sem ainda acreditar que o tempo passava tão rápido, o Natal estava quase a chegar. As ruas começavam a estar iluminadas, as arvores de natal já enfeitavam algumas casas juntamente com o espirito Natalício. As promoções, campanhas de Natal, a correria para as compras de Natal, as musicas que se ouviam nas ruas… 

- nem acredito que daqui a três semanas vamos para Portugal!

- é verdade, já tenho saudades de Lisboa!

- sempre vais passar o Natal a Lisboa Bela? – estavam os quatro reunidos em casa, de volta da lareira enquanto conversavam.

- ainda não sei…acho que os meus pais nesse dia vão estar de plantão no hospital.

- hei, que mau….trabalhar no dia de Natal! Nem vão estar com a família.

- mas acho que é apenas na consoada, no dia seguinte querem vir para Murcia…

- isso quer dizer que ficas por cá, não é?

- ainda não sei!

- não me digas que pensas em passar o Natal fora! – Adriana tentava adverti-la – é assim…tu estás um pouco ressentida com a tua família mas é Natal…há que dar umas tréguas certo?

- passou um mês Adriana…um mês que estou fora daquela casa e quem é que se importou com isso?

- os teus avós!

- e o resto? A minha família não é apenas os meus avós! Pelos vistos eu sou mesmo a rebelde da família e tornei-me num alivio por não estar lá mais! 

- oh não digas isso!

- mas podemos não falar na minha família? – Isabel parecia verdadeiramente aborrecida pelo facto de tocarem naquele assunto.

- está bem…

- e o voluntariado, como corre? – desta vez foi Renato que falou.

- corre bem! Daqui a um mês acabo graças a todos os santos e santas deste mundo! – praguejou.

- é assim tão mau estares a fazer voluntariado?

- não, o pior não é o que faço mas sim a companhia que levo! Dispensava bem…

- pois é, preferes mais a companhia do Marco! 

- quem é o Marco?

- é o rapaz com quem a Bela anda a sair!

- tu namoras?!

- hei, eu não namoro nada!! – tentou defender-se – o Marco…bem, eu estou apenas a sair com ele, nada mais! – Adriana gargalhou.

- sim, sim…um rapaz com quem andas aos beijos!

- beijos?!

- oh Adriana! – resmungou Isabel – és uma cusca tu! 

- mas quem é esse Marco? Nunca ouvi falar nele…

- ele não anda na faculdade…trabalha na oficina do pai, tem vinte e quatro anos, é muito simpático… 

- e giro! – constatou Adriana

- sim, também é giro e andamos a sair, nada mais! Nem quero que passe disso…

- porquê? 

- porque eu não quero relacionamentos! Namoros está fora de questão. Só saio com ele porque é giro, simpático e nada mais…

- pois tu achas isso mas o Eduardo não se cansa de me dizer que ele é mau caracter e quer me longe dele! E tu também…

- ah, claro! – Isabel levanta-se – cá faltava ele! ele e o seu bando de amigos!

- está tão enganada a respeito do Javi! – ela olhou-a – porque não tentas ver o lado bom dele, ah?

- porque ele não tem lado bom!

- enganas-te. Ele tem sim um lado bom! Já estive a falar com ele, é uma pessoa simpática e não é nada disso que o pintas!

- Claro, claro, claro…. – ela bufava – como sempre eu sou a que estou errada – Isabel saiu dali caminhando em direcção ao corredor.

- olha antes de ires, amanha sempre vais ao jantar de aniversario da Letizia? – Isabel não lhe dera resposta, entrando no quarto fechando a porta com força.

- presumo que aquilo tenha sido um sim!

***



Estava uma noite fria. A parte boa daquela noite é que não chovia e estava um tempo seco. Pelas previsões, nos próximos dias adivinhavam-se dias de sol mas com baixas temperaturas. Adriana, Isabel e mais o grupo de colegas de turma caminhavam para o restaurante. Era o aniversario de Letizia, companheira de turma. O lugar onde iriam jantar ficava perto da zona típica de restaurantes conhecidos e bem frequentados de Múrcia. Tinham reserva e preparavam-se para entrar.

- bem meninas, eu conto convosco para depois irmos até à discoteca! 

- claro, amanha o que vale é ser sábado! – elas estavam divertidas. Era uma noite que prometia ser alegre entre aquele circulo de amigas. Abriram a porta e foram recebidas pela simpatia do empregado que habitualmente estava ali pronto a receber todos os que chegavam.

- buenas noches chicas! 

- buenas noches!

- e feliz cumpleaños para a menina letizia!

- uh, muchas gracías! – agradeceu 

- acompanho-vos até à vossa mesa… - o empregado estava a acompanha-las até à mesa reservada. Ficava ao pé da janela, mesmo com vista para o rio. Começaram a sentarem-se nos lugares. 

- querem pedir agora ou preferem as entradas?

- hum…podemos já fazer os pedidos! – entre algumas escolhas, em questão de minutos decidiram o que queriam. As conversas fluíam naturalmente entre elas e conseguiam falar de tudo. Desde rapazes, festas, algumas fofocas e também sobre as aulas. 

- dão me licença meninas, eu vou à casa de banho! Alguém vem? 

- não! – Isabel levantou-se e dirigiu-se à outra parte do restaurante, onde ficava os lavabos. Estava a abrir a porta quando ouviu umas vozes que lhe pareciam ser conhecidas. Olhou para o seu lado direito e percebeu o porquê de achar que algo ali era familiar. Focou bem o seu olhar…naquela mesa, naquelas pessoas. Ela olhava um tão pouco incrédula sem querer acreditar no que via. Pasmou-se ali, apenas a olha-los e atentar confortar-se do que os seus olhos viam. Conversavam entre si alegremente, riam, sorriam, gargalhavam até. Pareciam felizes. Podia dizer que estava ali quase toda a sua família reunida, a jantar. Tios, primos…até os seus avós estavam ali. foi então que se lembrou que hoje um dos seus tios fazia anos. Óptimo, aquilo era um jantar de família, uma festa onde estavam todos reunidos menos ela. Menos ela… «que facada!» «que apunhalada…» Isabel deu meia volta e saiu dali a correr. Não conseguia…aquilo doía imenso. Assim que saiu do restaurante, sentia o seu corpo todo a tremer. Começou a andar num passo apressado sem nunca parar…o seu pensamento parecia que tinha sido sugado e não conseguia pensar. Andava sem rumo, não sabia ao certo por que caminhos galgava. Só lhe vinha à memoria dois únicos pensamentos: a sua família reunida e ela não estar lá. Não estava porque não sabia… Parou assim que chegou à ponte. Acabou mesmo por se sentar ali, no chão frio encostada à grade. As lagrimas começaram a correr. Uma a uma, pelo seu rosto já gelado. Corriam até que se tornou num choro incessante e sufocante. 

Aquilo tinha doido…nunca se tinha sentido tão sozinha, tão deslocada e tão órfã como naquele momento. Eles não queriam saber dela, nem mesmo os seus avós. Porquê? Porque se reuniram e não lhe disseram nada? Não se importavam mesmo com ela não era? Isabel continuava ali…com as pernas quase a esmagar o seu peito, encostada às grades da ponte ouvido o rio a passar velozmente. Tentou limpar as lagrimas. 

- Hola… - Isabel assustou-se com aquela voz. Olhou em seu redor e reparou na presença de uma senhora. Não a conhecia apesar da sua cara lhe ser familiar. Olhou-a com desconfiança e um pouco assustada. Porem, aquela mulher parecia estar serena. Tinha uma apresentação um pouco descuidada. Seria mendiga?

- quem é você? 

- eu sou a Teresa, e tu quem és? Porque estás aqui ao frio e a chorar? – Isabel olhou-a melhor. Tinha uma voz serena contrastando um pouco com a sua aparência pouco cuidada. 

- sou a Isabel… - disse ainda um pouco na defesa. 

- olha não precisas de ter medo de mim! Queres um pouco? – ela tinha na mão um cachorro quente. Apesar de sentir fome, Isabel não queria aceitar. Nunca aceitava nada vindo dos estranhos.

- obrigada mas não…

- posso me sentar ao pé de ti? – Isabel sentia-se confusa. Mas quem era aquela mulher?

- pode… - ela sentou-se. Ficou a olhar para Isabel com um sorriso no rosto, quase em modo de compaixão.

- então, não me respondeste…porque estás a chorar? Alguém te fez mal? – Isabel fitou o seu olhar sobre a enorme escuridão. Respirou fundo e ficou calada por alguns segundos.

- porque perdi a minha família… - a sua voz saiu-lhe rouca, triste, desiludida, amargurada.

- oh…mas foi algo grave que aconteceu? 

- desilusão…foi isso que aconteceu. A minha família desiludiu-me e já não querem saber de mim! – a sua voz tremia e Teresa sentiu uma certa pena dela. Mas no fundo, era aquilo que Isabel sentia. Uma profunda desilusão por se sentir de parte numa família que pensava ser o seu maior porto de abrigo. E que no fundo, bem no fundo…isso era uma mera ilusão.



***

- aguarde só cinco minutos que o senhor director já a recebe, pode ser?

- sim, pode… - Isabel estava sentada num dos sofás que ficavam mesmo em frente à porta do gabinete do director da universidade. A secretaria informava que estava num telefonema importante e ela teria de esperar. E assim fez. Da última vez que ali esteve foi há dois meses atrás quando tinha entornado café em cima de Javi, provocando o castigo que ainda cumpria. Não, não era nenhum castigo que a levava até ali. Aliás, estava ali por livre vontade.

- Isabel García? – ela olhou – pode entrar! – Isabel levantou-se e bateu à porta. Bastou três batidas sobre aquela madeira para ouvir alguém do outro lado. Abriu a porta e foi entrando.

- posso senhor director?

- sim, entre! – assim fez. Fechou a porta e foi-se sentar na cadeira de pele, ficando de frente para ele – o que traz a aluna Isabel até cá? Não me diga que é mais alguma asneira que fez e eu ainda não saiba disso?

- não…não é nada disso! Eu…bem… - ela respira fundo – eu tenho um pedido a fazer-lhe.



***

Isabel já esperava há cerca de cinco minutos por Marco quando ouviu a mota dele a chegar ao pé do apartamento. Apressou-se a travar a mota.

- perdón pelo atraso!

- tenho a dizer-te que nunca se deixa uma rapariga à espera! – retorquiu Isabel ainda parada no mesmo sitio.

- oh vá lá…estava transito!

- ah sim, e eu a pensar que as motas serviam para ultrapassar os carros quando estava transito.

- prometo que me redimo, deixas? – ela ficou a fita-lo com o olhar. Marco conseguia mesmo ser irresistível e Isabel ficou a pensar o porquê de ele andar atrás dela quando deveria haver milhares de raparigas mais interessantes a fazer fila. 

- olha que sou exigente!

- não faz mal, eu gosto de grandes desafios! – ela riu-se. Começou a caminhar em direcção à mota subindo para cima dela. Marco deu-lhe o capacete.

- para onde me levas?

- já vais ver….gostas de adrenalina?

- adrenalina? Não me digas que vais ensinar a conduzir uma mota!

- pode ser que sim…dependendo de como te vais portar…

- ui, que suspense! – Marco sorriu. Colocou o pé no acelerador saindo dali. O caminho até ao local onde ele tinha escolhido, ainda foi um pouco longo e Isabel percebeu que estavam a sair do centro da cidade. Não conhecia aqueles lugares mas à medida que andavam, foi percebendo que varias motas corriam a grandes velocidades entre eles. Ele tinha parado assim que chegaram a um enorme adro carregado de pessoas com as suas motas. Parecia ser uma espécie de pista de corridas e avaliar pela situação que ali se gerava, as próprias pessoas deveriam participar nelas.

- o que é isto? – perguntou Isabel, assim que desceram da mota. 

- a isto se chama o morro. O local onde fazemos as nossas corridas….

- corridas?

- sim. Hei…não te preocupes, vale? – Marco viu a cara reprovadora de Isabel.

- vale mas…isto é perigoso não? Sem falar que não deve ser legal correr aqui! – ele sorriu. Iria falar qualquer coisa mas alguém tinha chegado interrompendo assim a conversa deles.

- hei Marco! – um rapaz aproximou-se. Era enorme, a avaliar pela aparência tinha de certeza mais do que um metro e oitenta. Os seus braços estavam completos de tatuagens, tinha uns músculos fortes e estava apenas de camisola de alças. Mas ele não tinha frio? Estava, de facto, uma noite fria e Isabel perguntava a si mesma como era possível toda aquela gente não sentir o frio daquela noite cerrada.

- então Step, a corrida está pronta?

- só esperando por ti! – corrida? Mas ele iria participar nas corridas? E ela? Onde ela iria ficar?

- vais correr? – Marco olhou-a.

- claro. Eu corro sempre! Lembras-te de ter perguntado se gostavas de adrenalina? – ela acenou com a cabeça – pronto guapa….hoje vamos correr!

- vamos?! Hei, hei…eu não corro. Nunca participei em corridas de motos! 

- anda lá, não tenhas medo! Tu vais comigo…ou melhor, eu conduzo e tu és a minha camomila.

- camomila? E isso é uma espécie de código entre vocês? – Marco gargalhou.

- camomila é o nome dado às belas raparigas que correm connosco. São as valentes porque…correm de um modo especial. É uma forma de mostrarem que confiam em nós e que para além disso, são uma de nós. 

-vale, percebi…essas camomilas, como vocês as chamam, são as vossas companheiras, certo?

- vês como sabes… - um assobio faz-se soar por aquela enorme praça. Viram-se todos. É o sinal. No meio da estrada está um tipo alto, moreno e com um enorme cabedal que impunha imenso respeito. Levanta os braços. É o sinal para as motas se colorarem em ordem, ainda sem as suas camomilas. Isabel via Marco a desaparecer por entre aquela multidão até junto da pista. Estava a tentar andar quando alguém toca no seu braço. Ela vira-se para trás.

- ora quem é que está aqui…não me digas, tu também corres?