quinta-feira, 17 de abril de 2014

pequena informação

boa noite :)

venho até aqui deixar-vos um pequeno aviso/ideia/escolha. não sei se algumas leitoras já devem ter reparado mas nos ultimos tempos tenho estado um pouco ausente tanto no perfil do facebook como também no que toca à escrita. neste momento estou há cerca de um mês sem conseguir escrever uma unica linha na fic da Nunca é tarde para Amar, o que é de todo muito mau. tenho postado com alguma regularidade na minha nova fic Tengo ganas de ti mas porque tenho capitulos já escritos o que me dá a margem de puder publicar com mais regularidade. fora disso, como se costuma dizer, estou numa "seca" da escrita. eu nao gosto nada desta situação e quem paga são voçês que querem ler e, reclamam com toda a razão!
então, venho aqui propor, ou talvez afirmar,a que irei mudar o rumo das fics, ou seja, não as vou terminar mas sim, optar, por encurta-las. na fic da tengo ganas de ti, já tinha decidido que seria apenas uma fic curta, portanto assim permanecerá. as mudanças seguirão mesmo na Nunca é tarde para Amar. Decido então encurtar esta história ao passo que será, nao uma fic alongada, mas sim uma história mais pequena. eu sei que posso estar a ser injusta mas eu não me sinto capaz de continuar a escreve-la com as ideias todas que tenho em mente. Vai demorar imenso tempo a puder escreve-las a todas e nem imaginam o quanto isso me está a deixar "desesperada". portanto, de forma a conseguir terminar as histórias, dar-lhes um inico, principio e fim, só vejo uma unica maneira, ou seja, torna-las mais pequenas. 
desculpem, eu sei, posso estar a ser injusta mas prefiro assim e dar-vos capitulos com mais qualidade. e quem sabe, se com isto, eu consiga até embarcar em outros novos projectos. todos eles mais pequenos. 
com isto, não vos sei dizer quando sai um novo capitulo na fic da Nunca é tarde para Amar, nestas proximas semanas será bem dificil conseguir pegar nela e ter ideias para transpor para o papel. 
mil desculpas, a sério, não estou a ser justa mas não consigo ver outra opção. 
Mesmo assim, gostava muito que voçês dessem a vossa opinião. se concordam ou não. acaba sempre por ser importante para mim!

e assim me despeço, desejando-vos a todas uma continuação de boas férias e uma boa Páscoa.

beijinhos

Diana Ferreira

terça-feira, 8 de abril de 2014

Capitulo 15



Isabel virou-se ficando de frente para ela. Ali estava…Marisol, com o seu sorriso falso, com o seu olhar prestes a lançar a próxima farpa. Cinismo…aquele cinismo todo no que acabava de falar. Em contrapartida, Isabel mostrava-se tranquila.

- digamos que ver-te…é coisa que não vim cá fazer! – ela preparava-se para lhe virar costas quando decidiu falar algo – já agora…os teus pais sabem que estás cá? Numa corrida de motas? 

- não me digas que ficaste de repente, preocupada comigo, querida…

- oh não te maces! Por mim até podias ser atropelada por uma daquelas motas que eu não iria importar!

- sempre a mesma querida…confesso que já sentia saudades desses teu sarcasmo todo. Oh espera! Tu agora não estás mais lá em casa, por isso é que sinto falta disso. – Isabel preferiu respirar fundo e lançar-lhe um olhar que dizia tudo. 

- e já agora… - Isabel tentava mudar de assunto – o que é que tu fazes aqui? – Marisol sorriu enquanto se aproximava de Isabel ao ponto de lhe tirar o seu lenço que estava envolta do pescoço.

- sabes…tava mesmo a precisar de qualquer farrapo para usar de cinto. Este lenço é o ideal para fazer de camomila, ao lado do…javi! – Isabel olhou ao longe e encarou a figura de Javi, sentado na sua mota mesmo ao lado de Marco. Também ele estava ali? No fundo, nada daquilo a surpreendia. Agora, fazia sentido a presença da sua prima naquelas corridas. Ela tentava calcar-se aos pés dele. 

- cuidado, vê lá se o farrapo não se rompe e tu dás com a cara no chão!

- não te preocupes, eu tenho sempre quem cuide bem de mim durante a corrida… - elas estavam suficientemente perto deles. Por isso, Marisol vira-se para o lado onde Javi se encontrava. Começou, aos poucos e ainda virada para Isabel, a dar passos em direcção à mota. Sempre a fita-la. «cabra…» pensou Isabel « és mesmo uma verdadeira cabra! ». no seu pensamento, aquela noite voltou a surgir no seu pensamento. Aquelas palavras, aquela presunção…o nojo que Marisol lhe provocava. Nojo, nojo…era tudo o que sentia. Nojo e uma enorme vontade de partir para cima dela. Puxar-lhe um valente estalo e deixa-la toda marcada. Isabel sentiu enorme ganas de fazer isso mesmo. Não…isso era dar-lhe o protagonismo que tanto gostava de receber. Acabou por sorrir. Sem contar com tal atrevimento, Isabel caminha em direcção a ela, puxa-lhe com força o cinto que ela tinha preso no seu casaco e ganhando-lhe lanço, sorri-lhe cinicamente.

- ainda bem que o dizes! Que tal…de eu testar a tua segurança, hã? – Isabel proporcionou uma boa gargalhada. Dito isto e sempre com a sua postura de dura, orgulhosa mas de quem sai sempre a ganhar, caminha de um jeito vitorioso até junto da mota de Javi. Marisol olhava-a estupefacta. Não, ela não iria fazer aquilo…não podia. Será mesmo que não? Isabel sobe para a moto de Javi. Assim que dá pela sua presença, ele vira-se.

- O que...que porra  estás a fazer aqui?!

- hoje a tua companhia vai ser outra… - ela dera-lhe umas palmadas no seu ombro. Sem perceber nada, Javi vira o seu olhar e ao encarar Marisol percebeu toda a cena. Esta, por sua vez, e sem querer sair a perder, mostra-se também orgulhosa e sobe para a moto de Marco. Ao contrario de Marisol, aquilo não atingia em nada nela. Muito pelo contrario…já Marisol estava prestes a explodir. Aquela ousadia e provocação de Isabel….deixou-a completamente a ferver.

Isabel senta-se atrás de Javi, tal como as outras raparigas estavam a fazer. Poe-se ao contrario pois é assim que exigem as regras, colocando o cinto duplo de camomila. A moto arranca mal ela consegue fechar o cinto no ultimo buraco. Isabel coloca as mãos para trás em modo de segurança e agarra-se à cintura dele. O seu olhar mantinha-se sobre o da sua prima. Isabel sorria e fez questão de amarrar-se muito bem a Javi. Jurava que tinha-a visto a espumar-se de raiva. Sorriu. Aquilo sim, era uma boa vingança. Javi empina e Isabel fecha os olhos agarrando-se com ainda mais força. Não era apenas para espicaçar Marisol mas porque sentiu todo o seu corpo a colapsar perante o susto. Ele volta a acelerar. Cada pessoa que estava ali tinha a sua rapariga. Marco tinha Marisol enquanto Javi tinha a Isabel. Ela olha em seu redor. Um mar de gente olhava-vos, incentivava-os, gritavam todos completamente eufóricos. 

Ali, todas as camomilas têm os braços para trás e agarram-se ao condutor com medo do solavanco da partida. Alguém soava o apito. Gerou-se um momento de silêncio. Todos estão virados para a frente enquanto as camomilas mantêm os olhos fechados. Por momentos, Isabel sentiu-se a vacilar em ter ido parar ali. Ela não sabia o que esperar, não sabia sequer se ia sair ilesa daquela corrida, sem falar que era a primeira vez que andava de mota juntamente com Javi. Novamente soou outro apito mas desta vez diferente. As motos começam a avançar. As camomilas agarram-se com força nos seus homens. Isabel agarra-se com toda a força sobre o peito de Javi. Virada com a cara para o chão, ela percebeu que a estrada estava correr por baixo dela, parecendo terrível e verdadeiramente assustadora. Solta um grito. Aquilo era verdadeiramente assustador e agora sentia-se em pânico, em especial quando Javi volta a empinar a mota andando praticamente em apenas uma roda. Com toda a força, a roda da frente bate violentamente contra o chão arrancando-lhe outro grito. 

As motas tentavam sempre dar o seu melhor mas Javi continuava a corrida, acelerando a todo o gás pouco usando os travões. As linhas das estradas pareciam invisíveis e fugiam a uma velocidade estrondosa do olhar de Isabel. Ela não conseguia olhar para a frente, só fechar os olhos e rezar para que ele parasse. Mas uma luz chamou a atenção de Isabel. Olhou em frente e uma luz ofuscante e azul, pairava ao longe. Ela arregalou os olhos. Pânico, muito pânico. Era a policia.

- pára Javi!!! Pára!!! – ela grita mas este parecia não ouvir – é a policia!! – algo o fez abrandar e assim que se sentia mais segura, num ápice, Isabel arranca aquele sinto da sua cintura, escapulindo pela mota fora.

- estás louca?!

- tu és deves estar!! – ela gritava perante todo o extase e adrenalina que ainda lhe corroía pelas veias. A sua respiração estava descontrolada – a policia vem atras de nós! – Javi olhou para trás. Comprovou que ao longe vinha um carro patrulha.

- puta madre! Sobe! Anda, sobe para a mota! – Isabel voltou a subir mas desta vez não ficou de costas para ele. encostou o seu peito sobre as costas dele e sem contar com isso, Javi volta a dar lanço na mota, voando dali. Fechou os olhos e pela primeira vez sentiu medo por ter pisado os pés naquele sitio. Naquele morro. Estava com medo que aquela noite fosse correr mal e à velocidade a que Javi ia associado ao facto de nas curvas, simplesmente acelerar ainda mais, o coração dela estava prestes a sair-lhe pela boca fora. Perdeu a noção do tempo que ficaram a despistar o carro da policia e talvez a sorte deles fora mesmo o facto de acabar de haver um acidente numa rua que ali perto. Pelo espelho, Javi percebeu que já não havia mais nenhum carro atrás dele e por isso mesmo, aliando ao facto de Isabel o amarrar incisivamente à sua barriga, decidiu abrandar. Pararam quando chegaram a uma rua sem sentido e abandonada. Isabel saltou imediatamente da mota ainda a tentar controlar a adrenalina que a corroía tal como verdadeiras descargas eléctricas.

- puta madre! 

- esta foi por pouco… - Javi suspirava fortemente ainda a captar que teve uma enorme sorte em conseguir despistar a policia, caso contrario sabia que estava em péssimos lençois. 

- tu… andas sempre assim? – notava-se que Isabel ainda não tinha conseguido controlar a sua respiração. Assimilava-se a alguém que acabava de correr a maratona e que de todo estava habituada a correr. Precisou de se encostar a uma pilha de caixotes deixados naquela rua.

- assim como? – ele olhava-a.

- como se quisesses que a tua mota a qualquer momento se espetasse completamente ou saltasse um pneu fora? Tu vias à velocidade que ias?

- querias que fosse a passear pelas ruas maravilhosas de Múrcia e que como escolta até à esquadra tivesses um carro patrulha? – ela calou-se. Javi tinha razão. Sim, ele tinha razão e Isabel tinha de lhe dar o beneficio, apesar de jamais o admitir em voz alta. Parar na policia era a ultima coisa que desejava – e já agora…posso saber porque tive de levar contigo na corrida? Ou posso tirar as minhas conclusões?

- estares calado. É o melhor que possas fazer.

- sabes que não precisas de fazer ciúmes à Marisol, só para a humilhar!

- e quem disse que estou com ciúmes? – Isabel gritou na defesa.

- então explica-me porque correste comigo? – perguntou depois de uns segundos em silêncio. Ela demorara o mesmo tempo a responder-lhe.

- porque gosto de zoar com as pessoas – respondeu com escarnio. 

- é, não me digas que também tomaste o gosto pelas corridas? – houve algo no tom de voz de Javi que Isabel não gostara nem um pouco – faz parte da tua estratégia para zoares com as pessoas?

- qual é a tua? – Isabel levantou-se caminhando em direcção a ele – não te devo satisfações, que me lembre disso! – Javi também se levantara da mota encarando-a com uma feição mais forte, mais carregada.

- estás a meter-te em caminhos perigosos. Por isso, acho melhor zoares com as pessoas em outro sitio.

- não me lembro de ter pedido a tua opinião. – eles estavam demasiado próximos. Ela sentiu-o a mexer-se, Javi estava a levantar a sua camisola ficando com a barriga bem definida à mostra.

- olha só… - o seu olhar incidiu sobre ele – quem parece muito confiante acerca de onde anda a pisar os pés não se amarra tanto a uma pessoa aos pontos de deixa-la com a pele bem vermelha. Podia jurar que ainda com o barulho escurecedor da mota, conseguia ouvir-te a gritar, ou mais…eu bem vi a força com a qual te amarravas a mim. Ou foi tudo imaginação minha? – ele mantinha a camisola erguida e Isabel, ainda sem se aperceber disso, continuava a mira-lo e percebeu o quanto a sua adrenalina tinha provocado. Não se lembrara de o amarrar com tanta força. Acabou por permitir que os seus olhos se fechassem por fracção de segundos. Assim que os voltou a abrir, pressentiu que Javi continuava a olha-la mas já tinha baixado a camisola. Ele parecia estar calmo e sem saber o porquê, Isabel sentia-se estranha. Aquele próprio momento era estranho. 

Porque é que as coisas tinham de terminar daquele jeito? Uma noite que supostamente seria passada ao lado de Marco, estava toda ela a ser disfrutada na companhia de Javi. Isabel sentia-se a perder todo o controle dos seus próprios sentimentos. E ela, bem no seu intimo, só perguntava como é que isso era possível acontecer…

- já te disse, não tens nada a ver com isso. – por dentro, Isabel sentia-se a vacilar. A sua cabeça estava numa tamanha confusão que sentia-se totalmente perdida. Já nada fazia o maior sentido na sua vida, nada mesmo. Desde que chegara a Múrcia que tudo corria inesperadamente. Mais do que nunca, ela se sentia sozinha e o que mais precisava era sentir um pouco de prazer para puder esquecer a confusão em que a sua vida se encontrava. Era engraçado. Naquelas fracções de minutos em que estava naquela mota conseguiu esquecer até quem era ela mesma. Tudo se tinha apagado. Só havia a adrenalina. Por sua vez, e enquanto Isabel pensava naquela tamanha confusão, nem dera pelo facto de Javi a mirar atentamente. Acabou mesmo por deixar escapar um sorriso terno. Aproximou-se perigosamente dela, diminuindo qualquer distancia que ainda pudesse haver entre eles. Isabel apercebeu-se disso e mostrou um pouco de tensão. 

- mas sabes… - Javi tocou com os seus dedos frios sobre a mecha de cabelo que estava à frente do rosto dela, deitando-a para trás da orelha – tenho a dizer que foste uma camomila muito valente – as suas palavras saíram num sussurro. Enquanto olhava atentamente para o rosto de Isabel, esta olhava para todo o seu atrevimento, pela forma como lhe tocava sobre as suas faces geladas, aquela ousadia…amotinada, imprevisível, impensável. O próprio momento que se gerava, todo ele acontecia de uma forma a que nenhum deles pudesse prevê-lo ou mesmo pará-lo. Tão depressa Javi lhe tocava no cabelo como já seguia pelo rosto dela. Tão depressa a empurrava levemente para junto do seu corpo como, da mesma forma, ia diminuindo a distância que os separava.
Tão rápido estava a discutir com Isabel, como igualmente tomara a ousadia de juntar os seus lábios sobre os dela. Tão depressa se odiavam, como de um jeito impensável se beijavam. Tomando a destemida ousadia de a beijar, permitindo que em segundos tomassem conta da boca um do outro. O que começara com um beijo irreflectido, tomou-se num beijo carregado de luxuria, urgência, pressa, ousadia…Javi apertou-a com força contra o seu peito fazendo surgir um suspiro abafado de Isabel.
Porque se beijavam quando conseguiam carregar um odio que os cegava? Se era assim tao certo que a presença tanto de um como do outro, acabava por ser traspassável, que levara Javi, num acto irreflectido, de a beijar? Será que sentiam algo um pelo outro? Será que era isso? que todo aquele ódio que tanta questão faziam em demonstrar era tudo uma fachada para esconder o que de verdadeiro sentiam um pelo outro? Era certo que Javi mexia com Isabel de um jeito inquietante. Isso ninguém poderia negar, nem ela mesma. Isabel sabia que ele mexia consigo, só não era capaz de saber até que ponto e de que forma. Se era de uma forma má ou de uma forma boa. E também Isabel mexia com o próprio Javi. Bagunçava com ele, desafiava-o, testava-lhe os limites como ninguém era ousado ao ponto de fazer tal coisa. Ela não tinha medo dele, não se vergava perante o seu olhar desafiador, ripostava, era directa até demasiado.
Fora Isabel que pôs fim naquele beijo, desgrudando-se dele abruptamente. Javi prendia-a pelas suas mãos não deixando-a fugir, ainda estava tão atordoada com o que acabara de acontecer que nem sabia o que dizer. Isabel precisou de alguns segundos para se recompor e voltar à realidade. Em questão de segundos a memória fustigou-a relembrando de onde estava. Corridas de motos… a fuga à policia…o beijo…o beijo. Ele beijou-a! Isabel arquejou a sua boca a se aperceber que ele tomara a ousadia de a beijar. Estava quase a abrir a boca novamente, quando uma luz incandescente os ofuscou.

- aí, vocês os dois! – uma voz grossa soava de um jeito grave. Ambos olharam para o lado e nem queriam acreditar no que viam. Um homem de aparência alta, um porte forte, com a sua farda azul escura e um chapéu preto na cabeça, saía do seu carro que estava atravessado na rua apontando a lanterna para eles os dois. Policia. Isabel estremeceu completamente assim que leu o letreiro chapado na parte lateral do carro.

- puta madre… - sussurrou Javi

- vocês os dois, façam o favor de me acompanhar à esquadra!

Foda-se!
Era tudo o que Javi e Isabel conseguiam dizer, ainda que fosse por pensamentos. Agora sim, estavam completamente em sarilhos.

***

aqui está ele, finalmente!!!! em primeiro peço imensa desculpa pela demora, passo a vida a desculpar-me mas tou mesmo sem tempo nenhum para escrever. só mesmo graças à pequena pausa que tenho entre exames e estagio que consegui acabar este capitulo!
espero que tenham gostado e aguardo as vossas manifestações!
beijinhos :)



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Capitulo 14



Finais de Novembro.
O tempo passava rápido por ali e entre ele vinha acompanhada a chuva o frio, as ruas vazias acompanhada pelo cheiro a castanhas assadas e sem ainda acreditar que o tempo passava tão rápido, o Natal estava quase a chegar. As ruas começavam a estar iluminadas, as arvores de natal já enfeitavam algumas casas juntamente com o espirito Natalício. As promoções, campanhas de Natal, a correria para as compras de Natal, as musicas que se ouviam nas ruas… 

- nem acredito que daqui a três semanas vamos para Portugal!

- é verdade, já tenho saudades de Lisboa!

- sempre vais passar o Natal a Lisboa Bela? – estavam os quatro reunidos em casa, de volta da lareira enquanto conversavam.

- ainda não sei…acho que os meus pais nesse dia vão estar de plantão no hospital.

- hei, que mau….trabalhar no dia de Natal! Nem vão estar com a família.

- mas acho que é apenas na consoada, no dia seguinte querem vir para Murcia…

- isso quer dizer que ficas por cá, não é?

- ainda não sei!

- não me digas que pensas em passar o Natal fora! – Adriana tentava adverti-la – é assim…tu estás um pouco ressentida com a tua família mas é Natal…há que dar umas tréguas certo?

- passou um mês Adriana…um mês que estou fora daquela casa e quem é que se importou com isso?

- os teus avós!

- e o resto? A minha família não é apenas os meus avós! Pelos vistos eu sou mesmo a rebelde da família e tornei-me num alivio por não estar lá mais! 

- oh não digas isso!

- mas podemos não falar na minha família? – Isabel parecia verdadeiramente aborrecida pelo facto de tocarem naquele assunto.

- está bem…

- e o voluntariado, como corre? – desta vez foi Renato que falou.

- corre bem! Daqui a um mês acabo graças a todos os santos e santas deste mundo! – praguejou.

- é assim tão mau estares a fazer voluntariado?

- não, o pior não é o que faço mas sim a companhia que levo! Dispensava bem…

- pois é, preferes mais a companhia do Marco! 

- quem é o Marco?

- é o rapaz com quem a Bela anda a sair!

- tu namoras?!

- hei, eu não namoro nada!! – tentou defender-se – o Marco…bem, eu estou apenas a sair com ele, nada mais! – Adriana gargalhou.

- sim, sim…um rapaz com quem andas aos beijos!

- beijos?!

- oh Adriana! – resmungou Isabel – és uma cusca tu! 

- mas quem é esse Marco? Nunca ouvi falar nele…

- ele não anda na faculdade…trabalha na oficina do pai, tem vinte e quatro anos, é muito simpático… 

- e giro! – constatou Adriana

- sim, também é giro e andamos a sair, nada mais! Nem quero que passe disso…

- porquê? 

- porque eu não quero relacionamentos! Namoros está fora de questão. Só saio com ele porque é giro, simpático e nada mais…

- pois tu achas isso mas o Eduardo não se cansa de me dizer que ele é mau caracter e quer me longe dele! E tu também…

- ah, claro! – Isabel levanta-se – cá faltava ele! ele e o seu bando de amigos!

- está tão enganada a respeito do Javi! – ela olhou-a – porque não tentas ver o lado bom dele, ah?

- porque ele não tem lado bom!

- enganas-te. Ele tem sim um lado bom! Já estive a falar com ele, é uma pessoa simpática e não é nada disso que o pintas!

- Claro, claro, claro…. – ela bufava – como sempre eu sou a que estou errada – Isabel saiu dali caminhando em direcção ao corredor.

- olha antes de ires, amanha sempre vais ao jantar de aniversario da Letizia? – Isabel não lhe dera resposta, entrando no quarto fechando a porta com força.

- presumo que aquilo tenha sido um sim!

***



Estava uma noite fria. A parte boa daquela noite é que não chovia e estava um tempo seco. Pelas previsões, nos próximos dias adivinhavam-se dias de sol mas com baixas temperaturas. Adriana, Isabel e mais o grupo de colegas de turma caminhavam para o restaurante. Era o aniversario de Letizia, companheira de turma. O lugar onde iriam jantar ficava perto da zona típica de restaurantes conhecidos e bem frequentados de Múrcia. Tinham reserva e preparavam-se para entrar.

- bem meninas, eu conto convosco para depois irmos até à discoteca! 

- claro, amanha o que vale é ser sábado! – elas estavam divertidas. Era uma noite que prometia ser alegre entre aquele circulo de amigas. Abriram a porta e foram recebidas pela simpatia do empregado que habitualmente estava ali pronto a receber todos os que chegavam.

- buenas noches chicas! 

- buenas noches!

- e feliz cumpleaños para a menina letizia!

- uh, muchas gracías! – agradeceu 

- acompanho-vos até à vossa mesa… - o empregado estava a acompanha-las até à mesa reservada. Ficava ao pé da janela, mesmo com vista para o rio. Começaram a sentarem-se nos lugares. 

- querem pedir agora ou preferem as entradas?

- hum…podemos já fazer os pedidos! – entre algumas escolhas, em questão de minutos decidiram o que queriam. As conversas fluíam naturalmente entre elas e conseguiam falar de tudo. Desde rapazes, festas, algumas fofocas e também sobre as aulas. 

- dão me licença meninas, eu vou à casa de banho! Alguém vem? 

- não! – Isabel levantou-se e dirigiu-se à outra parte do restaurante, onde ficava os lavabos. Estava a abrir a porta quando ouviu umas vozes que lhe pareciam ser conhecidas. Olhou para o seu lado direito e percebeu o porquê de achar que algo ali era familiar. Focou bem o seu olhar…naquela mesa, naquelas pessoas. Ela olhava um tão pouco incrédula sem querer acreditar no que via. Pasmou-se ali, apenas a olha-los e atentar confortar-se do que os seus olhos viam. Conversavam entre si alegremente, riam, sorriam, gargalhavam até. Pareciam felizes. Podia dizer que estava ali quase toda a sua família reunida, a jantar. Tios, primos…até os seus avós estavam ali. foi então que se lembrou que hoje um dos seus tios fazia anos. Óptimo, aquilo era um jantar de família, uma festa onde estavam todos reunidos menos ela. Menos ela… «que facada!» «que apunhalada…» Isabel deu meia volta e saiu dali a correr. Não conseguia…aquilo doía imenso. Assim que saiu do restaurante, sentia o seu corpo todo a tremer. Começou a andar num passo apressado sem nunca parar…o seu pensamento parecia que tinha sido sugado e não conseguia pensar. Andava sem rumo, não sabia ao certo por que caminhos galgava. Só lhe vinha à memoria dois únicos pensamentos: a sua família reunida e ela não estar lá. Não estava porque não sabia… Parou assim que chegou à ponte. Acabou mesmo por se sentar ali, no chão frio encostada à grade. As lagrimas começaram a correr. Uma a uma, pelo seu rosto já gelado. Corriam até que se tornou num choro incessante e sufocante. 

Aquilo tinha doido…nunca se tinha sentido tão sozinha, tão deslocada e tão órfã como naquele momento. Eles não queriam saber dela, nem mesmo os seus avós. Porquê? Porque se reuniram e não lhe disseram nada? Não se importavam mesmo com ela não era? Isabel continuava ali…com as pernas quase a esmagar o seu peito, encostada às grades da ponte ouvido o rio a passar velozmente. Tentou limpar as lagrimas. 

- Hola… - Isabel assustou-se com aquela voz. Olhou em seu redor e reparou na presença de uma senhora. Não a conhecia apesar da sua cara lhe ser familiar. Olhou-a com desconfiança e um pouco assustada. Porem, aquela mulher parecia estar serena. Tinha uma apresentação um pouco descuidada. Seria mendiga?

- quem é você? 

- eu sou a Teresa, e tu quem és? Porque estás aqui ao frio e a chorar? – Isabel olhou-a melhor. Tinha uma voz serena contrastando um pouco com a sua aparência pouco cuidada. 

- sou a Isabel… - disse ainda um pouco na defesa. 

- olha não precisas de ter medo de mim! Queres um pouco? – ela tinha na mão um cachorro quente. Apesar de sentir fome, Isabel não queria aceitar. Nunca aceitava nada vindo dos estranhos.

- obrigada mas não…

- posso me sentar ao pé de ti? – Isabel sentia-se confusa. Mas quem era aquela mulher?

- pode… - ela sentou-se. Ficou a olhar para Isabel com um sorriso no rosto, quase em modo de compaixão.

- então, não me respondeste…porque estás a chorar? Alguém te fez mal? – Isabel fitou o seu olhar sobre a enorme escuridão. Respirou fundo e ficou calada por alguns segundos.

- porque perdi a minha família… - a sua voz saiu-lhe rouca, triste, desiludida, amargurada.

- oh…mas foi algo grave que aconteceu? 

- desilusão…foi isso que aconteceu. A minha família desiludiu-me e já não querem saber de mim! – a sua voz tremia e Teresa sentiu uma certa pena dela. Mas no fundo, era aquilo que Isabel sentia. Uma profunda desilusão por se sentir de parte numa família que pensava ser o seu maior porto de abrigo. E que no fundo, bem no fundo…isso era uma mera ilusão.



***

- aguarde só cinco minutos que o senhor director já a recebe, pode ser?

- sim, pode… - Isabel estava sentada num dos sofás que ficavam mesmo em frente à porta do gabinete do director da universidade. A secretaria informava que estava num telefonema importante e ela teria de esperar. E assim fez. Da última vez que ali esteve foi há dois meses atrás quando tinha entornado café em cima de Javi, provocando o castigo que ainda cumpria. Não, não era nenhum castigo que a levava até ali. Aliás, estava ali por livre vontade.

- Isabel García? – ela olhou – pode entrar! – Isabel levantou-se e bateu à porta. Bastou três batidas sobre aquela madeira para ouvir alguém do outro lado. Abriu a porta e foi entrando.

- posso senhor director?

- sim, entre! – assim fez. Fechou a porta e foi-se sentar na cadeira de pele, ficando de frente para ele – o que traz a aluna Isabel até cá? Não me diga que é mais alguma asneira que fez e eu ainda não saiba disso?

- não…não é nada disso! Eu…bem… - ela respira fundo – eu tenho um pedido a fazer-lhe.



***

Isabel já esperava há cerca de cinco minutos por Marco quando ouviu a mota dele a chegar ao pé do apartamento. Apressou-se a travar a mota.

- perdón pelo atraso!

- tenho a dizer-te que nunca se deixa uma rapariga à espera! – retorquiu Isabel ainda parada no mesmo sitio.

- oh vá lá…estava transito!

- ah sim, e eu a pensar que as motas serviam para ultrapassar os carros quando estava transito.

- prometo que me redimo, deixas? – ela ficou a fita-lo com o olhar. Marco conseguia mesmo ser irresistível e Isabel ficou a pensar o porquê de ele andar atrás dela quando deveria haver milhares de raparigas mais interessantes a fazer fila. 

- olha que sou exigente!

- não faz mal, eu gosto de grandes desafios! – ela riu-se. Começou a caminhar em direcção à mota subindo para cima dela. Marco deu-lhe o capacete.

- para onde me levas?

- já vais ver….gostas de adrenalina?

- adrenalina? Não me digas que vais ensinar a conduzir uma mota!

- pode ser que sim…dependendo de como te vais portar…

- ui, que suspense! – Marco sorriu. Colocou o pé no acelerador saindo dali. O caminho até ao local onde ele tinha escolhido, ainda foi um pouco longo e Isabel percebeu que estavam a sair do centro da cidade. Não conhecia aqueles lugares mas à medida que andavam, foi percebendo que varias motas corriam a grandes velocidades entre eles. Ele tinha parado assim que chegaram a um enorme adro carregado de pessoas com as suas motas. Parecia ser uma espécie de pista de corridas e avaliar pela situação que ali se gerava, as próprias pessoas deveriam participar nelas.

- o que é isto? – perguntou Isabel, assim que desceram da mota. 

- a isto se chama o morro. O local onde fazemos as nossas corridas….

- corridas?

- sim. Hei…não te preocupes, vale? – Marco viu a cara reprovadora de Isabel.

- vale mas…isto é perigoso não? Sem falar que não deve ser legal correr aqui! – ele sorriu. Iria falar qualquer coisa mas alguém tinha chegado interrompendo assim a conversa deles.

- hei Marco! – um rapaz aproximou-se. Era enorme, a avaliar pela aparência tinha de certeza mais do que um metro e oitenta. Os seus braços estavam completos de tatuagens, tinha uns músculos fortes e estava apenas de camisola de alças. Mas ele não tinha frio? Estava, de facto, uma noite fria e Isabel perguntava a si mesma como era possível toda aquela gente não sentir o frio daquela noite cerrada.

- então Step, a corrida está pronta?

- só esperando por ti! – corrida? Mas ele iria participar nas corridas? E ela? Onde ela iria ficar?

- vais correr? – Marco olhou-a.

- claro. Eu corro sempre! Lembras-te de ter perguntado se gostavas de adrenalina? – ela acenou com a cabeça – pronto guapa….hoje vamos correr!

- vamos?! Hei, hei…eu não corro. Nunca participei em corridas de motos! 

- anda lá, não tenhas medo! Tu vais comigo…ou melhor, eu conduzo e tu és a minha camomila.

- camomila? E isso é uma espécie de código entre vocês? – Marco gargalhou.

- camomila é o nome dado às belas raparigas que correm connosco. São as valentes porque…correm de um modo especial. É uma forma de mostrarem que confiam em nós e que para além disso, são uma de nós. 

-vale, percebi…essas camomilas, como vocês as chamam, são as vossas companheiras, certo?

- vês como sabes… - um assobio faz-se soar por aquela enorme praça. Viram-se todos. É o sinal. No meio da estrada está um tipo alto, moreno e com um enorme cabedal que impunha imenso respeito. Levanta os braços. É o sinal para as motas se colorarem em ordem, ainda sem as suas camomilas. Isabel via Marco a desaparecer por entre aquela multidão até junto da pista. Estava a tentar andar quando alguém toca no seu braço. Ela vira-se para trás.

- ora quem é que está aqui…não me digas, tu também corres? 



quarta-feira, 2 de abril de 2014

Capitulo 13

O dia de hoje estava particularmente chuvoso. Mais parecia um dia de inverno e não de Outono. Estava frio, vento e muita chuva. Era um dia convidativo para ficar em casa disfrutando de uma boa caneca de chocolate quente e sentir o estalar da madeira a ser consumida pelas chamas da lareira. Em oposição a isso, o dia destinava-se a ser de aulas. Mais um.

- estou farta deste tempo! – resmungava Adriana que não se conformava por ter apanhado chuva desde o carro até à porta da universidade, ficando um pouco encharcada.

- a quem o dizes… - murmurou Isabel enquanto entravam dentro da sala de aula. Hoje a aula era no auditório em conjunto com o resto dos cursos de saúde. Estava apinhado e repararam que não restavam muitos lugares para se sentarem.

- olha temos ali dois lugares! – constatou Adriana ao reparar nos únicos lugares disponíveis. Estavam prestes a sentarem-se quando alguém se antecipou sentando-se num deles. Isabel depressa ficou furiosa.

- hei, esse lugar era para mim! – Javi ficou a olhar para ela com um olhar de espanto. Levantou-se e ficou a examinar a cadeira.

- desculpa, não vejo o teu nome aqui gravado… - ele voltou-se a sentar.

- eu vi primeiro esse lugar! Não tinhas nada que te sentar aí!

- mas desde quando é que os lugares são marcados? Perdeste o lugar? Tens aqui um ao meu lado!

- sim claro, sentar-me ao teu lado? Nunca coño! – Javi riu-se. Isabel vira-se para o lado mas percebe que Adriana já não estava ali. Reparou que tinha arranjado um lugar na parte de cima. «vais paga-las Adriana! ». Isabel sentiu as suas faces a corarem mas de raiva. Era muito mal estar a acontecer aquilo logo pela manhã. 

- mas vê lá, se não te sentas tu há quem queira se sentar! – Isabel ficou uma fracção de segundos a pensar. Sentia-se cansada, doía-lhe as pernas e precisava de uma carteira para puder escrever. Ou era aquele lugar ou o chão. Mas sentar-se ao lado de Javi? Isso era um pesadelo para si.

- desculpa, está ocupado? – alguém lhe dirigia a palavra. Olhou para trás e viu uma rapariga loira, cabelos compridos e uma voz irritante. Era da sua turma, chamava-se Iara. Não gostava nada dela, sentia que tinha a mania que era importante.

- sim, está! – Isabel apressou-se a sentar. Dar-lhe o gosto de se sentar no último lugar disponível? Obvio que não. Sentiu Javi a rir-se à socapa – o que foi? – Ripostou irritada.

- Tu és assim com toda a gente? Sempre tão…alegre, simpática?

- quando me aparecem pessoas como tu à frente, podes ter certeza que não o sou!

- não percebo essa tua agressividade toda, eu nunca te chamei nomes, nunca te maltratei, sempre mostrei a minha simpatia e tu? Sempre aos coices comigo! Entre cabrón, coño, gillipolas, estupido, otário…eu já perdi a conta aos nomes que me deste! – ela olhou-o de soslaio.

- pois não, contigo tudo é à base da violência. Preferes antes mandar-me contra a parede! – com esta Javi não conseguiu ripostar. 

- Silencio! – a voz da professora fez-se ouvir – quero começar a aula e peço-vos que façam o mínimo de barulho. A aula de hoje é de extrema importância e se não querem ficar aqui, assinem a folha de presenças e saem da sala, mas sem perturbar a minha aula! – depressa se fez silencio. Javi por sua vez nem teve como nem opção de escolha e ripostar ao que Isabel disse. porque é que ela tinha sempre de levar as coisas para a provocação? Para o pior que podia haver? Ele só estava e pegar com ela e ripostava com algo que ele detestou fazer. Empurra-la contra a parede. foi um impulso e ele sabia disso. Errou, também sabia mas nem soube como o fez. 



A aula tinha terminado três horas depois. Isabel já estava saturada de estar naquela sala de aula ainda por cima quando a sua companhia do lado passava o tempo inteiro a falar para o lado, deixando-a com sérias dificuldades em prestar atenção à aula. 

- vou só à casa de banho! – informava Adriana quando já se encontravam nos corredores.

- está bem, eu espero por ti cá fora! – Isabel estava prestes a sentar-se no banco quando sentiu alguém a puxar-lhe pelo braço empurrando-a contra os cacifos.

- está louco?! – Isabel gritou-lhe ao qual Javi fez ouvidos de marcador.

- ouve só uma coisa, eu estou um pouco farto de ti sabes? Tu não passas de uma miúda egocêntrica, mimada, malcriada, pensas que tudo gira à tua volta e que podes falar e que todos se calam! Existe uma coisa a que se chama respeito ao qual tu não tens por ninguém! 

- mas quem é tu… - javi calou-a.

- callate! – ordenou – sabes porque te mandei contra a parede?! porque conseguiste mexer demasiado comigo, mexeste onde não deverias ter mexido, meteste-te onde não és chamada! Tu não me conheces, não sabes nada de mim, dizes que sou mau mas não sabes porque o sou, fazes esses teus juízos de valor sem conheceres nada da minha vida! – Javi estava fora de si e Isabel pressentiu isso mesmo – quem és tu para me apontares o dedo quando nem tu própria fazes as coisas certas? Acusas-me ser mal educado quando tu nem sabes agradecer?! Tirei-te daquele incêndio e tu nem um obrigada disseste, foi preciso a tua avó vir ter comigo para o fazer por ti! Pedir-me desculpas porque tem uma neta egocêntrica! E olha só para o que estás a fazer com ela? Mimada que decide armar-se em rebelde e sair de casa, tens noção de como os deixastes? Pois, não tens. E sabes porquê? Porque só pensas em ti! – sem aguentar mais Isabel esbofeteia-o. Ele estava a magoa-la. As lagrimas quase que escapuliam do seu rosto e se não as derramava parte disso devia-se ao seu orgulho. 

- pára!! – gritou-lhe – não fales do que não sabes! Não me acuses do que não me podes acusar! 

- então também não me acuses do que não podes fazer! – ripostou – se não gostas de mim tens bom remédio, desaparece da minha vista! Mas se tiver que cruzar contigo, por favor cala-te e não me diriges a palava! – dito isto Javi afasta-se deixando-a completamente estarrecida. Isabel…nunca se sentira tão em lixo como naquele momento. As suas pernas tremiam. Não era de medo, era de remorsos. O que ele lhe dissera latejava-lhe na cabeça fortemente. A sua avó fora pedir-lhe desculpas? Será que ela era assim tao egocêntrica? Estava ela a ser injusta?

- que gritos foram estes? – Adriana interrompeu-lhe os pensamentos. Assim que viu a sua amiga em pânico, percebeu que algo de errado tinha acontecido – o que te aconteceu Isabel? – ela não dissera nada. Simplesmente pegou na sua mochila e saiu dali o mais rápido que podia. 



***

Eram oito horas quando Javi parou a mota no seu habitual estacionamento em frente ao prédio. Subiu até ao segundo piso e encontrou como já era habitual, a senhora Amália. Estava a regar os vasos que tinha junto da porta da sua casa.

- buenas noches señora Amalia!

- buenas noches Javi… - Javi percebeu que algo estava estranho. Ela não estava com o seu típico sorriso no rosto, aquela simpática habitual. Parecia que estava um pouco em baixo.

- está tudo bem? – ela olhou-o e parou de regar o vaso.

- só umas dores ao respirar…nada de especial!

- tem certeza? – Javi não parecia muito convencido disso.

- sim… - ela esboçou um sorriso tímido. Javi percebeu também o esforço que fazia para segurar naquele regador. As suas mãos tremiam e a agua por vezes calhava fora do vaso. Ele estava a achar aquilo tão estranho.

- quer ajuda para regar os vasos?

- não! Deixa estar…eu dou conta do recado!

- eu não me importo de a ajudar señora Amalia! 

- mas assim eu também me distraio, sabes? 

- vale… - Javi colocou as chaves na fechadura mas antes de entrar decidiu perguntar algo que já o queria fazer ainda na parte da manhã, quando a viu à varanda a estender a roupa – e o seu gato? Já apareceu? – ela olhou-o desolada. Nem era preciso uma resposta para Javi entender.

- não…nem sinais do maxi – ela soltou um suspiro desgostoso – agora, já nem a minha única companhia me resta…



***



- Afinal ainda não me contaste o que se passou ontem contigo e o Javi – incidia Adriana enquanto caminhavam para o exterior da universidade.

- e eu já te disse que não quero falar sobre isso…

- mas porquê? Já é habitual vocês discutirem, só que eu acho que desta vez foi mais algo do que isso.

- ele é que pensa que pode dizer tudo o que quer.

- e porque tu tens sempre de responder sempre a tudo? Vocês também parecem que gostam de picar um ao outro.

- sim, porque eu amo discutir com ele! – ironizou.

- da próxima vez que vocês se cruzarem tu calaste e deixa-lo falar! Porra, assim vais ficar até ao final do ano sempre a discutir com ele e depois ficas com essa cara!

- que cara? – Isabel já não estava a gostar do rumo daquela conversa.

- Cara de quem não gostou do que ouviu! 

- o que vale é daqui a uns meses nunca mais olhar para aquela cara! – ela acaba por se levantar – vamos embora?

- sim…vamos – as duas amigas encaminhavam-se para o parque de estacionamento. Assim que Isabel olhou para o seu carro reparou que tinha um papel colado no vidro.

- odeio que deixem publicidade no carro! – resmungou. 

- isso não parece muito publicidade… - constatou Adriana. Isabel também ficou a olhar para o papel e decidiu abri-lo. Ficou completamente admirada assim que mirou o que estava escrito. 

- “é sempre um prazer puder saber onde a rapariga mais bonita desta cidade estuda. Boas aulas” – Isabel ficou a mirar o papel a tentar decifrar quem tinha posto aquilo ali.

- ui, admirador! – gracejou Adriana – quem é, sabes?

- não faço a mínima…

- se calhar até podes saber quem foi!

- como? – Adriana fez com o olhar o gesto para que Isabel olhasse para trás – olha só quem vem aí…



***

- porque não vens jantar a minha casa? A minha mãe está sempre a perguntar por ti! 

- podes dizer à tua mãe que um dia destes vou comer convosco! – Eduardo riu-se.

- disseste isso das ultimas vezes que te convidei! 

- a sério mano, tão cedo não vai dar! Além do mais hoje há corridas e depois tenho o voluntariado! – ele gargalhou – como vês, tenho a minha agende ocupada.

- hum, já pareces uma mulher Javi!

- que se há de fazer quando sou uma pessoa muito ocupada? – ironizou. Acabaram os dois por se rirem à sopaca.

- mas já sabes, faz a vontade à minha mãe! Depois ela começa a dar razão ao que ouve de ti. – ele encolheu os ombros.

- pouco me importa. Já estou habituado ao que falam de mim! – Javi aproveita para tirar do bolso do casaco o seu habitual maço de tabaco, tirando um cigarro de lá. Acendeu-o e ficou a saboreá-lo. 

- desde quando é que a Adriana e a Isabel conhecem o Marco? – Eduardo adoptou uma postura mais rígida. Tinha reparado que ao longe, Marco se aproximava delas as duas que estavam ao pé do carro. Ele cumprimentou-as. Javi olhou para trás e viu a cena. Acabou por encolher os ombros.

- na abertura da discoteca do Alejandro vi a Isabel a sair com ele…

- não gosto de o ver perto da Adriana – resmungou nada contente com o que via.

- não te preocupes porque já deu para perceber que ele anda de olho na amiguinha dela! – gracejou.

- mesmo assim….



***

- foste tu que deixaste este bilhete? – perguntava Isabel ao encarar Marco.

- hum…será que fui? – ele mantinha um sorriso enigmático. Isabel reparou nos seus olhos castanhos mas que brilhavam sempre que o sol batia nele. Tinha algo de misterioso em si e ela adorava isso.

- já deu para perceber que sim! Mas…como é que descobriste que estudo aqui?

- digamos que não foi muito difícil de descobrir, um colega meu conhece-te daqui e disse-me.

- hum…estou a ver que andaste a investigar-me!

- espero que não tenhas te importado mas foi por uma boa razão!

- uma boa razão?

- sim – ele foi-se aproximando dela – queria convidar-te para um lanche que dizes? 

- e se eu não quiser aceitar?

- oh não digas isso… - ele fez uma expressão que deixou Isabel a olha-lo atentamente. Marco era mesmo irresistível.

- hum…depende do sitio onde me levas a lanchar…e claro, que sejas tu a pagar! – ele riu-se

- prometo que vais gostar! – Isabel olhou para Adriana que mirava toda aquela conversa com um sorriso a delinear o seu rosto. 

- vai lá…eu levo o teu carro!

- está bem, chego a casa cedo! – Adriana piscou-lhe o olho e Isabel sorriu. Acabou por seguir Marco e chegaram ao local onde ele tinha a sua mota. Ela olhou-o.

- também andas de mota?

- porquê? Algum problema?

- não, nenhum… - Isabel olhou de relance na sua frente e reparou que, perto da arvore, com os seus óculos de sol escuros, com o cigarro na boca e sentado na mota, Javi observava-os. Há quanto tempo ele já estaria de olho neles os dois? Parecia bastante calmo e isso deixou Isabel inquieta. «raios Isabel, o que andas a pensar?» 



***

A caminho de casa Javi, conduzia a um limite reduzido, estava um piso escorregadio e aquela estrada estava em obras. Detestava tanto quando isso lhe acontecia. Impedia-o de andar rápido e conduzir devagar era algo que não fazia parte do dicionário dele. Quando se preparava para fazer a curva da estrada, reparou em algo que estava despojado na valeta. Era algo branco e parecia peludo. Tentou se aproximar e percebeu que era um animal. Acabou mesmo por parar a mota na berma da estrada e foi-se aproximando. Assim que se aninhou e reparou na coleira, soltou um laivo de revolta.

- no…no puede! – era o maxi, o gato da senhora Amalia que já estava desaparecido há um par de dias. Javi fechou os olhos e respirou fundo ao se aperceber que estava sem vida. Reparou na mancha junto do gato. Parecia vomitado mas com sangue misturado. Provavelmente teria sido envenenado – que puta de mierda! – resmungou. Aquela senhora não merecia isto. Era tao amável e adorava aquele gato. Era a sua companhia e Javi, mais do que ninguém, sabia a falta que maxi lhe fazia. Ainda hoje de manhã antes de ir para a universidade reparou que ela já não estava, como o habitual, a regar as suas plantas que cuidava delas religiosamente. Já não andava pela varanda. Já não ouvia a sua voz tão simpática. Sim, era apenas um animal mas era esse mesmo animal que lhe fazia companhia quando a sua família simplesmente a abandonara. Provavelmente voltariam quando ela já não estivesse cá com vida à procura do dinheiro. Essas situações revoltavam imenso Javi. Em tantas situações, se não fosse ele provavelmente aquela senhora tão amável estaria quase como despojada no esquecimento e na amargura de não ter quem lhe pudesse ajudar até em coisas tão simples. Mas naquela situação, o que ia ele fazer? 

Javi acabou por se levantar e olhar em seu redor. Em questão de dois minutos percebeu que ali perto havia uma obra. Percorreu as redondezas e ao ter certezas que não estava ninguém, pegou numa pá e num pano velho. Voltou junto da berma e, embrulhando o gato com cuidado em redor do pano, caminhou pelos campos dali e ao chegar perto de uma arvora escondida junto ao riacho que por ali galgava, fez uma cova suficientemente funda para despojar o gato. Depois disso tapou com a terra. Javi acabou por abanar a cabeça e largar um longo suspiro. Pelo menos, naquele dia, alguém tivera o seu fim digno. 



***

O relógio da igreja que ficava ali perto marcava as doze badaladas certas quando os primeiros roncares das motas se faziam ouvir no morro. Aos poucos as pessoas iam chegando até ao lugar religioso onde um grupo de jovens loucos e sem limites, descarregavam toda a adrenalina percorrendo a antiga pista de corridas com as suas motas. Tudo era feito pela noite adentro. Estava frio mas nem isso impedia que fizessem mais uma corrida. Javi tinha acabado de chegar com o seu amigo Hugo. Estacionaram a mota no habitual sitio.

- joder, precisamos mesmo de uma boa corrida para aquecer! Que frio! – Javi saltou da mota e foi até junto da pequena arca que havia sempre alguém que não se esquecia de trazer. Eram bebidas que ali estavam. Ele pega em duas cervejas. Dá uma para a mão de Hugo.

- isto é que te vai fazer aquecer! 

- esta é das fracas…

- melhor que nada, não? 

- bem, já dá para alguma coisa – os dois mantinham-se ali, a beber um pouco enquanto aguardavam que o resto do pessoal chegasse para começar mais uma corrida. Naquelas corridas as regras eram bem simples. O jogo era fácil de entender e todos tinham de respeita-lo. Ali, corre quem quer, assiste quem quer e acaba quando o ultimo desistir. Existem sempre quem gosta de quebrar estas ditas regras que no fundo não foram impostas por ninguém. Há sempre quem goste de ser da velha guarda e ter o seu próprio grupo, as suas próprias rivalidades. Não, Javi não pertencia a essa velha guarda mas tinha quem odiasse e muito. E uma dessas pessoas tinha acabado de chegar, parecendo que desfilava sacando piões, mostrando que era o rei, que ali ele era o dono. Marco. Assim que o viu, Javi amassou violentamente a lata de cerveja, acabando por atira-la para o chão.

- Hoje vamos correr aos pares…já sabes com quem vais? – Javi olha-lo e sorri cinicamente.

- com a minha velha guarda… - ele não tirava os olhos de Marco. Por vezes, Hugo não entendia o porquê de tanto odio por ele. Javi nunca lhe dava essa explicação. Ligou a mota e dirigiu-se para o lugar da meta. As motas foram-se aproximando mas antes de se colocar pronto para correr, Javi fez um pequeno desvio acabando por parar a moto junto de Marco. Este olhou-o. «brum, brum, brum» Javi estava sedento de raiva carregando com força no pedal da mota. Notava-se isso pelo seu olhar contrastando com o cinismo e calma de Marco. 

- correu-te bem a tarde, foi? – Marco olhou-o. Bastou uns segundos para lhe lançar o seu sorriso presunçoso. 

- muito bem até! - foi a vez de Javi sorrir-lhe ironicamente mas por segundos. Após isso, olhou-o com rancor. 

- ainda bem porque é a ultima vez que terás uma tarde assim! – Marco gargalhou.

- ui, mas que ameaça é essa mesmo?

- dou-te um único aviso, afasta-te dela! – dito isto, Javi carrega com ainda mais força no pedal, pondo o olhar em frente, seguindo caminho para mais uma corrida. Marco não ficou atrás e sendo um rapaz sedento de vitória, disputava loucamente aquela corrida juntamente com Javi. Não gostou do que ouviu. Não gostou de ser ameaçado. Aliás, ele detestou ser ameaçado por ele. Estaria ali mais uma guerra entre ambos? Seria Isabel mais um motivo para alimentar todo o ódio que Javi sentia por Marco?




sexta-feira, 14 de março de 2014

Capitulo 12

Aquela visita de Maria era uma surpresa para Javi em especial por ser a primeira vez que ali estava. Em tal momento, ela já pisara aquele sitio. Contrastava totalmente com a sua figura fina, elegante e emblemática. Ela não parecia mirar as paredes daquele pequeno apartamento contrastando com a riqueza da sua casa. Javi fez sinal para que pudesse se sentar no sofá e ela assim fez.

- quer alguma coisa?

- não, muito obrigada…

- ah…então, porque veio até aqui? Disse que queria falar comigo. 

- sim, quero falar contigo – ela esfregara as mãos sobre as suas pernas – isto vai se tornar repetitivo e nos últimos dias não faço outra coisa a não ser o que irei dizer. Vim aqui por dois motivos…primeiro e, mais uma vez, pedir-te desculpas. Sei que a forma como o jantar acabou daquela forma não foi a melhor, não era suposto as minhas netas decidirem discutir uma com a outra e daquela forma. 

- por favor, não é preciso pedir desculpas…são situações que não podemos prevenir.

- eu sei…eu sei mas fiquei muito incomodada pela forma como acabou a noite. A Isabel acabou por sair de casa e até agora não voltou…e não vejo sinais de voltar novamente – mostrou com algum desagrado e desconsolo – mas não vim só para pedir-te desculpas…alias eu só te tenho a agradecer! 

- porquê? – Maria tomou as mãos dele, acariciando-as levemente.

- se não fosses tu a ligar-nos e a dizer que ela estava na casa dos amigos, iriamos ficar preocupados a noite inteira. Deste-nos uma lufada de despreocupação que não fazes ideia….

- Eu…também fiquei…preocupado – Javi não sabia se preocupado era a palavra certa, se era aquilo que ele sentira naquele momento, que o fizera seguir Isabel até à casa dos amigos – e pela maneira como saiu de lá e como também ia para a mesma zona, achei que deveria segui-la…

- tenho pena que vocês se tenham conhecido do modo como se conheceram, acho que se tentassem, iriam dar bons amigos – Javi lançou um sorriso um pouco irónico – têm em comum muitas mais coisas do que possam imaginar – respondeu sabiamente.

- pois mas está bem visto que o nosso destino não é se cruzar novamente! – ele tentava refutar isso com toda a sua convicção. Pelo menos era o seu desejo.

- é pena… - Maria sorria – eu confio em ti, sabes? Acho que darias um óptimo protector para a minha neta! – Javi sorriu largamente

- señora Maria, a sua neta já tem idade para ter um pouco de juízo, não? E tomar consciência do que faz.

- quem nunca teve a sua cota parte de inconsciência? Todos temos…e todos precisamos de alguém que ampare essa inconsciência – Javi ficou a pensar nas suas palavras. O que queria Maria dizer com isso?

- vejo que veio aqui por mais razoes, do que me pedir desculpa e obrigado. Estou errado?

- não, estás totalmente certo. Eu vim aqui…porque quero fazer-te um pedido muito especial…um pedido feito de uma avó que se preocupa imenso com os netos e porque sou uma avó que faz das tripas coração para ver a Isabel bem. Eu agora não estou com ela, não sei como anda, com quem anda…o que faz. E nem imaginas como ando com o coração nas mãos por isso…uma coisa era saber que a tinha a chegar a casa à noite e podia certificar-me que estava tudo bem porque conheço-a, sei ver nas suas expressões se algo está errado. Pela forma como ela entra em casa, como fala connosco, sei ver se está metida em sarilhos, se está com algum problema…agora não tenho controle sobre isso. Vê-la ocasionalmente não chega para me sossegar! Ela pode parecer ser uma rapariga brava, com muita confiança, que tem a sua independência mas a Isabel é muito frágil. Mais do que possam imaginar! E é nisso que tenho medo…que ela não esteja bem e com o orgulho, esteja impedida de pedir ajuda – Javi percebia pelo olhar de Maria o quão essas possibilidades a assustavam. Viu também o quanto ela era capaz de fazer tudo para ver o bem de Isabel. Pensou se Isabel sabia disso, da sorte que tinha de ter alguém que fazia de tudo para a proteger. Ou então no quanto poderia ter sido injusta por ter saído de casa daquela maneira. Será que Javi estava na posição certa para fazer juízos de valor, quando ele estava numa situação bem pior? Não, ele não tinha esse direito mas uma coisa ele podia achar. Que Isabel poderia estar a cometer um erro ao ser tão impulsiva.

- o que quer dizer com isso? – Maria olhou-o profundamente

- eu preciso de fazer este pedido…porque eu sei que és a pessoa mais indicada, mesmo que não o aches. Eu quero que tu sejas os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca e que faças pela Isabel aquilo que eu faria. Quero que de uma certa forma a protejas. Tu és capaz disso, eu sei! Não peço que a persigas vinte e quatro horas por dia mas apenas…estejas atento. Que saibas pelo menos como ela anda! – Javi olhava-a um pouco atónico e sem perceber completamente o motivo daquele pedido. A seu ver, aquilo jamais faria qualquer sentido. Não, não fazia logica ele protege-la. Porquê? Porque estava ela a fazer aquilo?

- perdoname señora Maria mas terei de recusar esse pedido! Não faz sentido o que me está a pedir!

- eu sei que para ti isto é completamente estapafúrdio, não faz sentido nenhum quando tu e a Isabel dão-se mal mas és das poucas pessoas em que eu possa confiar.

- tem a Adriana, o Renato, o Ricardo…são amigos dela, eles vivem na mesma casa. Faz mais sentido do que pedir a mim.

- não, não faz sentido…e um dia hás de perceber porque te pedi a ti. Mas por favor, diz que aceitas.

- não sei… - Javi não queria de todo ser mal educado e dizer-lhe na cara que jamais protegeria Isabel quando no fundo não a aguentava, não a suportava e nem a queria suportar. Não queria aceitar e talvez nunca fosse fazer isso.

- por favor…peço-te de coração – Maria estava um pouco desesperada. Pelo menos era a impressão que Javi tivera.

- no sé…



***



Hoje era reunião de voluntariado onde ficaria decidido os planos para a reconstrução do armazém destruído pelo incêndio. Enquanto isso, já Javi e Isabel ajudavam na preparação das comidas para oferecer aos sem-abrigo. Faltava pouco para seguirem na carrinha, apenas guardavam os cobertores que faltavam. Depois disso, encaminharam-se para o centro da cidade. Estavam distribuídos por grupos tendo Isabel ficado no mesmo grupo que Javi. Afinal estavam ali para fazer voluntariado a fins do castigo proposto o que os obrigava a trabalharem juntos. 

- joder que frio! – resmungava Javi. Isabel preferiu ignorar o seu comentário.

- segura nisto – ela dera-lhe para a mão um cobertor-

- hei, estou a segurar no cesto das sopas, não consigo segurar em tudo!

- e eu a ver com isso? Estás à espera que dê o cobertor com os outros nas mãos? – perguntou retoricamente.

- pousas no chão, que tal?

- se pousar no chão ficam sujos não achas?

- eles vão ficar sujos de qualquer das maneiras! – ela encara-o.

- mas ao menos damos mantimentos de forma signa, tu também não gostavas que te dessem um cobertor, se fosses mendigo, atirado ao calhas pois não? Pois, esta gente também não!

- vale, vale…já me esquecia que és a nova madre teresa de Murcia! – resmungou para si mesmo ao qual Isabel preferiu ignorar o comentário dele. Começaram a distribuir a comida e mantimentos pelos sem-abrigos daquela zona. Deram conta que eram mais do que esperavam e perguntavam a si mesmos como nunca foram capazes de se aperceberem daquela realidade assustadora. Passava um pouco das duas da manhã quando regressaram das ruas. Tinha sido uma noite dura já para não referir o frio que se fazia sentir nas ruas.

- Hasta mañana Isabel!

- Hasta mañana Lara! – Isabel saiu da instituição caminhando em direcção ao seu carro. Sabia que alguém vinha atrás de si pois ouvia passos. Até podia acertar na sorte e adivinhar quem era. Estava a abrir a porta quando Javi falou.

- hasta mañana Madre teresa… - gracejou com bastante ironia. Isabel encara-o e Javi percebeu que ela estava com aquela cara. Cara de mandona, cara de quem se preparava para bater em alguém. Melhor, era cara de refilona. Por sua vez, Isabel preferiu elevar a sua mão mostrando-lhe o dedo do meio. Javi gargalhou.

- coño – resmungou Isabel virando-lhe as costas.

- mal educada! – atirou elevando o tom de voz.


***



- olhem e se fossemos ao cinema hoje? – sugerira Ricardo. Estavam os quatro a saírem do habitual café onde passavam as manhãs de sábado.

- ao cinema não. Eu preferia uma saída pelos bares, pelo que ouvi dizer hoje é inauguração de um novo bar. Podíamos ir até lá!

- por mim tudo bem… - estavam a andar descontraidamente quando Adriana fez sinal a Isabel.

- olha quem está ali – Isabel olhou e deparou-se com a figura reconhecível do seu avô. Ele olhava-a com um certo desespero. Quase como se através do seu olhar implorava para não fugir. Já se tinha passado três semanas desde que saíra de casa. Até lá poucas foram as vezes que mantivera contacto com os seus avós e nunca mais foi até à quinta.

- eu vou já ter convosco… - Isabel afastou-se deles caminhando em direcção ao seu avô. Ele sorriu-lhe ao vê-la de perto. Parecia que, inacreditavelmente, Javi tinha envelhecido mais anos do que era o suposto.

- Hola Isabel!

- Hola abuelo…

- tudo bem? Como tens andado? – aquela pergunta mais parecia ter soado como um «volta para casa que não aguento mais ter-te longe».

- tenho andando bem…e você, como tem estado? E a avó?

- temos estado bem mas cheios de saudades tuas…

- não avô, eu não vou voltar para casa – Isabel parecia adivinhar os pensamentos de Javi e pressentir que se continuasse ali com o seu avô, ele acabaria por fazer esse pedido. Ele implorava isso com o seu olhar.

- porquê? Porque não voltas para casa? Para a tua casa?

- porque não pertenço lá!

- pertences sim! – Javi parecia um pouco ofendido com aquela suposição – nós somos a tua família…aquela casa é tua e queremos-te lá.

- eu gostei muito de o ver mas tenho de ir embora – Isabel tentava fugir ao assunto. Javi, por momentos, via nela a sua maria. Era impressionante como conseguiam ter um feitio tão parecido mesmo não sendo do mesmo sangue. Ambas, adoravam fugir à realidade. Ambas detestavam enfrentar os problemas.

- não faças isso! A tua avó está a morrer de saudades tuas, ela não tem andado bem deste que foste embora.

- o que se passa com a avó? – Depressa adoptara uma postura preocupada.

- tem saudades tuas! Quer-te em casa, quer-te ver…

- eu prometo que faço uma visita…

- prometes que vais pensar melhor e voltares para junto de nós? – ela sentia o seu coração a mirrar. Odiava tanto aquilo. Ter a pessoa mais querida da sua vida a implorar para voltar. Queria tanto jugar-se nos braços dele…sentia falta disso. Muita falta. 

- prometo…prometo que vou pensar mas não prometo que vá cumprir – Javi sorriu. Mais uma vez, sentia a sua maria ali. Sabia que mais cedo ou mais tarde, Isabel acabaria por ceder. Elas eram demasiado parecidas para se puder enganar.

- cuida-te, sim? – ele dera-lhe um beijo na sua testa – te quiero muñeca…



***

Tal como tinham combinado, Isabel, Adriana, Ricardo e Renato preparavam-se para entrar no novo bar que tinha inauguração marcada para hoje. Apesar de ter uma fachada um pouco antiga e até parecia estar abandonada, pela fila que se fazia cá fora, tinha tudo para ser um sucesso

- esta fachada está um pouco…degradada não?

- isto era um hotel há uns anos atrás…parece que os donos do bar decidiram aproveitar o espaço e fazer uma discoteca – foram os quatro para a fila. Sabiam que ainda tinham de esperar um bom bocado pois não tinham convites para entrarem de imediato. Ainda foram encontrando alguns colegas de turma e ficaram a falar enquanto a fila ia diminuindo. Assim que entraram perceberam que o interior contrastava completamente em relação ao exterior. Era um espaço bastante amplo e com uma boa decoração. Estava completamente cheio e a musica bombava. 

- vou até ao bar…querem alguma coisa?

- para já não! – Isabel encaminhou-se até ao bar mas precisou de se esbarrar em muita gente. Assim que lá chegou, fez sinal para o empregado.

- quero uma vodka se faz favor! – ela ficou ali à espera da sua bebida. Enquanto isso ia observando nas pessoas que estavam ao seu lado. Umas dançavam, outras conversavam entre si ou então havia quem preferisse estar sentado ao balcão desfrutando da sua bebida. Mas também havia algo para além disso. Isabel reparou que estava um rapaz a mira-la. Desconhecia-o de todo. Incidiu o seu olhar sobre ele mas depressa ignorou. Ele fixava-a. Pelo espelho que tinha na sua frente reparou na sua aparência. Aparentava ser alto, moreno, com barba a delinear o seu rosto, tinha um olhar…sedutor. «uau, que gato» pensou Isabel. Tentou adivinhar qual seria a sua idade. Não devia ter mais do que vinte e cinco anos. Mesmo assim, era um bom gato. Bonito, alto e moreno. Tal como ela gostava. Acabou por sorrir… «Sim, Isabel, vai sonhando…» os seus pensamentos foram interrompidos pela chegada do empregado com a sua bebida. Agradeceu e saiu dali. Ainda olhou para trás e reparou que esse rapaz continuava a olha-la mas desta vez sorria-lhe. «vale, estou ficando louca…»

- estava a ver que não vinhas! – constatou Adriana.

- o bar estava cheio!

- anda, vamos dançar para ali! – as duas encaminharam-se para uma parte da pista onde estava bastante gente conhecida. Podia apostar que metade das pessoas que ali estavam eram da universidade. Começaram a dançar. Estava de facto um bom ambiente naquela discoteca.

- perdon! – Isabel sentiu alguém a empurra-la. Virou-se para trás e surpreendeu-se ao encontrar novamente aquele rapaz que estava junto ao bar. 

- não faz mal… 

- mesmo assim, é uma falta de educação o que acabei de fazer! – Isabel riu-se. Ele tinha uma voz rouca.

- vale, eu aceito as tuas desculpas!

- eu…tu não estavas há pouco no bar?

- estava… - «ele conheceu-me? Uau, por esta não esperava»

- tenho a dizer-te que és muito bonita! – Isabel sentiu-se a corar. Ele estava a corteja-la?

- gracias! 

- posso oferecer-te uma bebida?

- porque me queres oferecer uma bebida?

- quero me desculpar pelo encontrão.

- vale, eu já percebi que tu não te queres só desculpar.

- tens razão…quero é conhecer melhor a rapariga mais bonita que já vi a passar por aqui! – ela gargalhou completamente envergonhada.

- vale…



***

- mano vou bazar!

- mas já? 

- sim. Ainda há corridas hoje e eu não posso falhar. Aquele maldito voluntariado anda-me a trocar as voltas todas! – Hugo gargalhou

- desculpa Javi mas quem te anda a dar as voltas todas é aquela miúda…

- joder, com ela sinto-me no inferno. Aquela rapariga é detestável…ainda não me esqueci que graças a ela tenho de distribuir sopa aos pobres.

- tu, a distribuir sopa aos pobres…contado ninguém acredita. Vale, podes não acreditar mas essa chavala já te mudou!

- vou é embora antes que mande um empurrão!

- isso, isso! Vai!

- vais ter ao morro?

- claro. Fico só um bocado…também quero correr.

- vale – Javi estava a vestir o seu habitual casaco preto de cabedal quando Hugo o fez chamar à atenção.

- por falar na chavala, olha só com quem ela anda a sair! – Javi olhou para trás, bem para a zona onde Hugo apontava. Ao inico não estava a entender o que o amigo pretendia dizer mas depois algo chamou-o à atenção. Fitou-os. Aquilo não podia ser verdade. Marco e Isabel? Javi olhava-os atónico.

- que puta de mierda…






domingo, 2 de março de 2014

Capitulo 11

O dia estava a ser cansativo. Talvez porque o próprio tempo não ajudava e aquela chuva forte deixava toda a gente com um humor fraco. Estávamos a fins de Outubro e nem parecia que era a estação do Outono mas sim de um rigoroso inverno. O vento era forte, a chuva não parava de cair e nem o cheiro das castanhas era um bom convite para as pessoas porem os pés na rua para apenas passear. Tudo era feito em grande correria, os carros buzinavam, as pessoas cansavam-se de ficar à espera que as filas começassem a andar. Ora uma arvore no meio do caminho ou um novo lençol de agua que obrigava as pessoas as conduzirem moderadamente. Porem, naquela biblioteca, não se sentia nem um pouco todo o mau tempo que se fazia sentir do outro lado das paredes. Temperatura amena e um silencio inquebrável. Tudo com os olhos postos em livros, cadernos ou apontamentos. Tudo concentrado a estudar ou a fazer trabalhos.

- encontraste o ponto quatro do texto dos diagnósticos? – perguntava Adriana, ora revirando a folha, ora lendo-a novamente. 

- está no texto sete Adriana! – dizia Isabel.

- não está nada…tenho a certeza que está neste! 

- estou a dizer-te, esse ponto está no texto sete, o professor disse!

- mas eu não ouvi nada disso! – resmungou 

- olha…mas está no texto sete! – referia Isabel já perdendo um pouco a paciência – olha procura aí!

- oh procura tu!

- eu agora estou a fazer a apresentação! – Adriana começou a bufar tentando procurar o que tanto queria.

- olha e se fizéssemos uma pausa? Estou farta de ver isto à minha frente.

- tens razão…e eu estou a precisar de tomar um café – tanto Isabel como Adriana resolveram pegar apenas na carteira, saindo daquela sala. Caminharam até à zona do bar procurando um lugar para se sentar. 

- hei, já me estava a esquecer…tenho de ligar para a minha mae! Olha, pede para mim enquanto vou lá fora fazer uma chamada está bem? Aqui tenho pouca rede.

- está bem, eu peço por ti – Assim fez. Já estava à espera que o seu café e torrada juntamente com a meia de leite de Adriana, chegasse quando reparou que alguém se sentara na sua frente. Assim que olhou viu Javi a olha-la.

- que haces aquí? – perguntou visivelmente surpreendida. Reparou que naquele dia, Javi estava um pouco diferente. Pela primeira vez o vira sem o seu inseparável casaco de cabedal preto, estava com uma sweat azul escura e branca. O seu cabelo também estava diferente. Talvez sem o típico gel e com a “crista” tombada para o lado, dando-lhe um ar surpreendentemente diferente. 

- eu vou ser rápido, apenas tenho de te dar isto… - Javi pega na mao dela, abrindo-a. Surpreendida com aquele atrevimento, Isabel estava tao absorta a pensar no que estava a acontecer que precisou de alguns segundos até se aperceber do que ele colocara em cima das suas mãos. Depressa colocou a outra mao livre ao pescoço, sentido a falta do colar.

- como…o meu colar! Como é que o encontraste? – Isabel estava em pânico porque desde ontem que não dera pela falta do colar que o tinha religiosamente ao pescoço. Sentiu quase o seu coração a colapsar só de imaginar se o tivesse perdido.

- no meio daquela confusão toda, na casa dos teus avós, tu deixaste-o cair. Eu vi-o, apanhei e ainda queria te dar mas tu simplesmente saíste a correr – ela ficara absorta olhando para o fio que tinha na mao. Até Javi ficou intrigado ao observa-la. A forma como o olhava…como tocava subtilmente nele…

- gracias – Isabel mirou-o sem saber bem o que dizer. Só lhe ocorria aquela palavra o que deixou Javi completamente surpreendido. Ela estava a agradecer-lhe de um jeito sincero. Porquê? Porque lhe dera um colar que ela deixara cair? Apenas…um objecto material? Que sentido fazia quando ele lhe salvara do incêndio, ela não se dera ao trabalho de o agradecer? No fundo, ele sabia que Isabel era algo…do outro mundo. algo incompreensível – de verdad. Te agradezo…

- não precisas de me agradecer…

- preciso sim. Eu juro que nem dera por falta do colar e se desse entrava em colapso! Eu não o posso perder, não posso…

- estou a ver que sim – concluiu ainda a tentar desmistifica-la de forma a perceber a importância daquele colar para ela.

- como é que te posso agradecer? – Javi esbugalhou os olhos mostrando toda a sua surpresa. 

- estás…bem?

- ah?

- estou a perguntar se estás bem…é que estás a querer agradecer-me? Isso não é normal em ti – ele não se coibiu de soltar um riso irónico – no mínimo mandavas-me dar uma curva e era soltado por uma data de cabrón… 

- sim, estou bem. Só que…este fio é muito importante para mim e se o perdesse…sei lá… - aquele fio era sim importante para si. Era a única coisa que ainda a ligava à sua família verdadeira. Fora deixada consigo quando foi largada no hospital. Apenas…aquele fio e mais nada. Foi a única lembrança que conseguiu guardar e que a projectava para uma outra dimensão, para uma outra esperança…se o perdesse, era sinal que tudo estava acabado. As suas raízes, as suas origens ainda por explicar. Por mais absurdo que pudesse parecer em achar que um fio lhe poderia dizer algo sobre o seu passado, ela sempre alimentava essa chama, por mais pequena que fosse. 

- mas não precisas de agradecer. Não quero que agradeças.

- vale… - gerou-se um certo silencio entre ambos. E ali estavam, virados um para o outro quase mostrando tréguas. Estavam a falar, não discutiam. Seria sinal de alguma mudança?

- eu sei bem o que se passou…sei bem que a tua prima provocou-te – Isabel olhou-o atentamente

- como é que sabes?

- porque eu estava a ir embora quando ouvi a ultima parte da vossa conversa – Isabel abanou os ombros.

- eu sei…eu sei que vais dizer que apesar de ela me ter provocado, eu não deveria ter-lhe batido, bla, bla, bla…

- ouviste a dizer-me isso?

- não mas aposto que era isso que irias falar!

- ela provocou-te, é normal que lhe tenhas batido! Eu apenas queria dizer que acredito em ti – agora tinha sido a vez de Isabel o olhar surpreendida. Aquela conversa parecia ser tudo menos algo normal e isso deixava-os desconfortáveis.

- agora é a minha vez de te perguntar se estás bem.

- sim, estou bem!

- e porque me estás a dizer que acreditas em mim? Com que pressuposto? 

- com o pressuposto de dizer que acredito em ti! – ela não se coibiu de olha-lo com um certo desdém.

- sim, claro…mas olha é melhor que ela nem suponha que tu acreditas em mim, caso contrario ainda te lança mau olhado! – Javi não se coibiu de gargalhar com o sarcasmo dela. Naquele momento Adriana acabava de chegar, interrompendo assim o momento em que Javi iria falar.

- Javi? – perguntou surpreendida ao vê-lo ali

- Hola Adriana! – ele levantara-se – e Adíos! – apressou-se a sair dali deixando Adriana a olha-lo sem perceber nada e a Isabel confusa. Estava de facto confusa. 

- o que ele veio aqui fazer? – perguntou enquanto se sentava

- eu deixei cair o meu colar na quinta e ele encontrou-o. Veio-me entrega-lo – Adriana lançou-lhe um olhar suspeito enquanto se ria discretamente – o que foi?

- nada!

- então porque estás com essa cara? 

- cara? Que cara? Apenas estou a constatar os factos…o javi salvou-te do incêndio, o Javi segurou-te para não bateres ainda mais na tua prima, o javi encontrou o teu colar e veio entregar-te… - ela abanou com a cabeça – ironia da vida…passam a vida como se fossem o rato e o gato mas no fundo, no fundo ele está de qualquer forma a “proteger-te”! 

- é, e eu estou a constatar que tu andas a ficar um pouco alucinada! – ripostou levando Adriana a gargalhar.



***



Eram precisamente cinco horas da tarde quando Isabel deixou a sala de aula em caminho de ir embora. Tinha tido a ultima aula e não via a hora de puder regressar a casa. Parou assim que pensou na palavra casa…não, não seria a sua casa. Apenas estaria em outra casa que não a dela. Tinham-se passado dois dias e nem sequer tivera a ousadia de pisar os pés na quinta. Nem mesmo com a insistência dos seus avós. Nada…nada a fazia mudar de ideias. Nem mesmo as saudades que sentia deles. Apesar disso, de todas as saudades, sentia-se demasiado magoada para esquecer. 

- Hasta manãna Isabel! – despediu-se a sua professora

- hasta mañana professora! – naquele instante o seu telemóvel tinha tocado. Apressou-se a pegar nele. Era Adriana.

- sim?

- onde estás? A aula já acabou?

- sim, sai agora mesmo da sala…já conseguiste acabar o trabalho?

- sim! Finalmente…espero-te no carro pode ser?

- pode, cinco minutos e chego aí.

- ok, até já.

- até já – acabou por desligar a chamada colocando novamente o telemóvel na bolsa. Enquanto caminhava pelo corredor em direcção à saída, algo foi-se destacando naquele enorme silencio. Umas vozes distorcidas que aos poucos se haviam tornado nítidas. Era um rapaz que parecia estar aflito. Parou. Ficou atenta a ver se conseguia adivinhar de onde provinha aquilo. Voltou a ouvir.

- não, por favor, não me faças nada! – assim que percebeu de onde provinha aquelas vozes, apressou-se a caminhar até lá.

- callate! Faz o que eu te peço, se não juro que te parto todo! – assim que Isabel chegou ao fundo do corredor foi brindada por algo que a deixou apavorada. Javi estava a machucar um rapaz, mais novo aparentemente, contra os cacifos. Mantinha as suas mãos no pescoço dele quase o esganando.

- larga-o! – gritou Isabel – que estás a fazer otário?! – ela aproximou-se chegando perto deles. Javi olhava-o incrédula.

- por favor, ele está a magoar-me! – gritou aquele rapaz em seu auxilio. 

- tu cala-te, já te avisei! – gritou-lhe Javi de um jeito autoritário deixando Isabel de olhos arregalados.

- pára, larga-o! – Isabel tentou puxa-lo para trás mas Javi fazia resistência.

- sai daqui, não te metas onde não és chamada!

- ou tu não o largas ou eu chamo o director da escola!! – chantageou-o. Assim que Javi ouviu as suas palavras, fechou os olhos por questão de segundos para que de seguida largasse as suas mãos do pescoço do rapaz. Era bem visível o quanto ele fora obrigado a isso. Pelo seu olhar, estava quase capaz de lhe gritar. Javi olhava-a de um jeito bem furioso, intimista ao qual não assustou Isabel em nada. Virou-se novamente para o rapaz que estava completamente assustado.

- tu…depois acerto contas contigo! – intimidou-o para que, em segundos, ele corresse dali para fora.

- és mesmo um otário não és? – Isabel acabou por empurra-lo bastante furiosa.

- qual é a tua? – gritou Javi visivelmente furioso – qual é a tua – ele foi-se aproximando dela – de te meteres onde não és chamada?! Gostas de protagonismo é?!

- tu estavas a magoar o rapaz! – gritou tentando chama-lo à razão – eu é que pergunto qual é a tua!! Tens sempre de resolver tudo com violência? 

- e eu pergunto porque tu tens sempre de te armar em embaixadora das boas causas! – ripostou – irritas-me sabias? Tiras-me do sério! – respondeu dando um murro nos cacifos – é que sempre que apareces à minha frente atrapalhas tudo! Aliás, tu és a inconveniência em pessoa!

- tu é que me tiras do sério mas é pela tua maldade toda! 

- ah pois, tu és a princesinha que vive no castelo! – ironizou – uma princesinha que pensa que a vida é toda cor de rosa, que tem sempre quem lhe coloque panos quentinhos nas costas! – Isabel olhou-o de soslaio. Que…cabrón. Porquê? Era só isso que ela perguntava…porque ele tinha de ser assim. mentiroso…acabou por abanar a cabeça pensando no quão tinha sido idiota por acreditar que ele poderia ser uma pessoa diferente. Na parte da manha, quando disse-lhe que acreditava nela. Quando ela viu sinceridade no seu olhar. Era tudo…fachada. 

- vete à lá mierda Javi! – naquele momento algo os interrompe. Algo impede que Isabel saia dali e Javi lhe responda.

- o que se passa aqui? – era o director da escola. Tanto Javi como Isabel o olhavam com uma certa surpresa e susto. Ele olhava-os com uma certa desconfiança e ainda foi a tempo de ouvir o ultimo comentário de Isabel.

- não se passa nada professor…nós só estávamos a falar…sobre…o serviço comunitário!

- a usar uma linguagem impropria?

- sabe como é…uma discordância de opiniões – constatou Javi – mas que já passou – ele tivera a ousadia de pousar o braço pelo ombro de Isabel, sorrindo para o director. Ela sentiu uma enorme vontade de lhe dar um empurrão mas conteve-se. Não era o momento ideal.

- espero bem que sim…e que não volte a ver e nem saiba que isto se voltou a repetir. 

- claro que não, pode ficar descansado… - o director ficara ali mais alguns segundos para que depois voltasse para dentro da sala. Isabel apressou-se a empurra-lo, acabando Javi por embater contra os cacifos.

- és louca?!

- não, apenas não quero que voltes a encostar-te a mim! – gritou-lhe para sair dali num passo apressado. Javi ainda olhava para o fundo do corredor um pouco atónico. Estava danado, detestava quando as pessoas se metiam na sua vida e ela…bem Isabel tinha o dom de estragar sempre tudo. De aparecer quando menos devia. Acabou por sair dali e, assim que chegou junto da sua mota, já Eduardo esperava por si.

- então, resolveste?

- não! – resmungou

- então?

- imagina só, a santa madre teresa de Calcutá resolveu partir em defesa dele!

- estás a falar de quê?

- olha de que aquele filho da mae fugiu e eu não consegui ter a porra do relogio! – Javi estava exaltado e Eduardo entendeu bem isso. Mas só não conseguia entender como ele conseguira deixa-lo fugir. 

- e porque fugiu?

- imagina só…estava quase a arrancar-lhe a goela para me dar o relógio quando a Isabel apareceu e pensa lá no que ela fez!

- vale, não precisas de dizer mais nada…

- juro que me apetecia mandar-lhe dois berros! Juro, ela irrita-me! – gritou 

- esquece a Isabel…o importante é que consigas reaver o relógio da tua irmã.

- se a minha mãe sabe que ela perdeu o relógio…tem logo um ataque de histerismo! 

- pois…dona Roberta nesse estado não é nada agradável de se ver! Mas a tua irmã não perdeu, ele foi roubado!

- sim, diz isso à minha mãe que ela passa a dizer que são as minhas más influencias. Diz logo que não quer que me aproxime da miúda… 

- acalma-te…tu caças novamente o rapaz – tentou tranquiliza-lo mas Javi estava tao danado que as palavras de Eduardo eram como flechas que voavam rapidamente. 



***

Já estava noite quando Javi chegou a casa. Da universidade até aquele bairro eram pouco de dez minutos de mota. Não e para um sitio propriamente requintado de se morar, bem contrastando com a casa luxuosa de seus pais mas dava para viver. Já ali estava há quase três anos e toda a gente o tratava como membro de suas famílias. Era tudo gente boa apesar de socialmente, serem todos vistos como problemáticos. Sim, alguns até podiam o ser mas conhecia ali muita gente boa. Mais do que…mais do que a sua própria família. Pelo menos não julgavam. Não apontavam o dedo, tal como o seu pai fez. Tal como a cobardia da sua mãe em não querer acreditar na inocência do filho. 

- buenas noches Javi! – desejou Dona Amália, a vizinha da porta da frente. Era uma senhora que tinha os seus quase noventa anos. Vivia sozinha apesar de ter quatro filhos. Era viúva mas desde que para ali foi, nenhum dos filhos se designava a visita-la. Javi chegou em muitas vezes a ajuda-la, como em pagar as contas da agua, luz ou telefone. Ou mesmo a arranjar algo necessário na casa. Era uma senhora sozinha mas muito amável e Javi gostava bastante dela. 

- Buenas noches senhora Amália! – Javi estava prestes a abrir a porta quando ouviu novamente a voz dela.

- Javi…por acaso não viste o meu maxi? – maxi era um dos gatos que Amália que tinha a viver consigo – ele fugiu-me…eu estava a dar a comida e quando fui ver já não estava cá! 

- não…por acaso não vi. Mas vou tentar procura-lo e se encontrar eu aviso-lhe pode ser? 

- obrigada! Olha…se o encontrares, não pegues logo nele sim? Ele assusta-se com facilidade. Tenho medo que alguém tente fazer-lhe mal…sem falar que ele tem a patinha meia partida – era bem visível a desolação que a senhora sentia e Javi sentiu-se um pouco incomodado com isso.

- não se preocupe señora Amália, ele aparecerá logo! – Javi juntou-se a ela dando-lhe um abraço confortante.

- és muito atencioso Javi… - ela agradecera-lhe – gracias!

- de nada…precisa de alguma coisa? Que ajude em algo? 

- não, obrigada mas não é preciso – ela sorriu agradecida – não massacrar o teu tempo!

- oh…nunca me massacra o tempo! 

- mesmo assim….agradeço mas não preciso de nada.

- vale…mas se precisar já sabe, toque à campainha ou ligue para o meu numero!

- vai descansado… - Javi despediu-se da sua vizinha, entrando em casa. Estava vazia, como sempre. Já se habituara a entrar ali todos os dias e ver a sua pequena casa vazia e escura. Mandou o capacete para cima do sofá, juntamente com a mochila e o casaco. Foi até ao frigorifico buscar uma cerveja e quando já estava sentado no sofá, a abri-la, quando a campainha tocou. Voltou a pousar a cerveja, caminhou até à porta acreditando que se tratava da sua vizinha. Mas, assim que a abriu, tomou pela surpresa. Não era a sua vizinha. Nem tão pouco esperava ter aquela visita em sua casa.

- senhorita Maria? 

- Hola Javi…estou a incomodar-te?

- no…claro que não. Passa-se alguma coisa?

- não…precisava apenas de falar contigo.

- claro, entre…